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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

HBO Max chega ao Brasil com boas atrações, mas seu futuro é incerto

Game of Thrones é atração do HBO Max  - Reprodução / Internet
Game of Thrones é atração do HBO Max Imagem: Reprodução / Internet
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

27/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • HBO Max chega ao Brasil em momento tumultuado da WarnerMedia, que está sendo fundida com o grupo Discovery Inc.
  • O futuro do HBO Max está indefinido dentro da nova empresa, serviço pode ser absorvido por nova marca após conclusão da fusão
  • Recentes fusões e aquisições, como a compra da MGM pela Amazon, mostram os líderes do mercado de streaming cada vez mais dominantes
  • Decisão de lançar filmes diretamente no streaming teria piorado resultados da WarnerMedia e aumentado pressão de acionistas da AT&T
  • Jason Kilar, CEO da WarnerMedia e principal defensor da HBO Max, foi deixado de fora das conversas de fusão com a Discovery Inc.

A WarnerMedia anunciou oficialmente o lançamento de seu canal de streaming HBO Max para o dia 29 de junho no Brasil. O serviço trará conteúdo e estreias exclusivas de marcas como HBO, WarnerBros., Max Originals, DC e Cartoon Network, além de jogos da UEFA Champions League. Outro destaque são filmes da Warner Bros., sem custo adicional, apenas 35 dias após a estreia nos cinemas da América Latina.

O novo serviço teria boas chances para ser um concorrente de peso, tirando o preço pouco competitivo para quem está chegando atrasado no mercado (multitelas por R$ 28,00/mês, e mobile, a R$ 19,97/mês). Porém, a HBO Max surge cercada de dúvidas e mostra como o mercado de streaming é desafiador.

Nos Estados Unidos, a HBO Max tem pouco mais de 44 milhões de assinantes, distante do Disney+, que ultrapassou 100 milhões de assinantes em 16 meses, e da Netflix, com mais de 200 milhões. A Amazon Prime já tem mais de 200 milhões assinantes e 175 milhões deles veem filmes. Para piorar, a operação da WarnerMedia além de pequena em comparação aos concorrentes, consome cada vez mais investimentos e tem perspectivas de retorno financeiro cada vez piores.

Isso levou a AT&T, dona da WarnerMedia, a anunciar dias atrás a fusão da WarnerMedia com a concorrente Discovery, deixando ainda mais perguntas do que respostas a respeito do futuro da HBO MAX. Não se sabe, por exemplo, se o serviço seguirá independente ou será fundido com outros streamings da Discovery, como o Discovery+, ou mesmo se uma nova marca surgirá reunindo todas as plataformas de streaming da nova companhia. A previsão é que a fusão leve de 15 a 18 meses para acontecer.

Existe até a possibilidade da fusão da WarnerMedia com a Discovery ser apenas uma etapa intermediária, preparando a WarnerMedia-Discovery para ser adquirida por outra empresa. Segundo o NY Times, John Stankey, CEO da AT&T, insistiu que a nova empresa tivesse uma estrutura acionária simples, com apenas uma classe de ações que qualquer um poderia comprar. Isso tornaria a empresa mais fácil de operar. "Ao eliminar o uso de ações com poder de voto desproporcional, o CEO da AT&T garantiria que a nova empresa pudesse ser um alvo de aquisição mais fácil no futuro, caso um pretendente ainda maior - digamos, Amazon ou Apple - aparecesse".

A WarnerMedia não escondia de ninguém que a HBO Max era sua grande aposta para sobreviver à queda da TV tradicional (que perde audiência e anunciantes para o digital) e crescer no streaming, concorrendo com os líderes Netflix, Disney+ e Amazon Prime.

Agora, o mercado será outra vez totalmente reorganizado, inclusive porque a Amazon está comprando a MGM, um dos maiores e mais tradicionais estúdios de Hollywood, dono de franquias como "James Bond" e "Rocky". Nos últimos anos, a Disney comprou a maior parte dos ativos de entretenimento da 21st Century Fox e a Viacom Inc. foi recombinada com a CBS Corp., tudo parte dos esforços para acumular conteúdo e construir serviços de streaming.

Erros e venda

É difícil acreditar, mas há apenas três anos a AT&T gastou US$ 85,4 bilhões para comprar o negócio de mídia da TimeWarner. O plano era usar a WarnerMedia para concorrer com a Netflix. Mas uma série de decisões erradas e o atraso da fusão transformou o sonho pesadelo. A AT&T se tornou a empresa mais endividada do mundo e mesmo com crescentes investimentos as chances de concorrer com a Netflix se tornavam cada vez piores.

A gota d'água teria sido a decisão da WarnerMedia de lançar seus filmes em 2021 diretamente na HBO MAX, matando a tradicional janela de lançamentos dos cinemas. A ideia era acelerar o crescimento do streaming, mas foi um tiro no pé. A medida irritou cinemas, atores, diretores e custou milhares de dólares em receita perdida para a WarnerMedia, que inclusive teve de negociar novos acordos gastando milhões para acalmar seus parceiros. A decisão posteriormente foi revertida e as janelas retornaram.

Enquanto isso, os acionistas da AT&T pressionavam a gigante de telecomunicações a se livrar das empresas de mídia e focar em um negócio chato, mas rentável e que ela conhecia bem: a telefonia, particularmente investindo no 5G. No mercado o comentário era que a AT&T sofria de "Síndrome de Netflix", com inveja do crescimento do líder de streaming, tentava copiar o sucesso do concorrente, mas tinha perdido o timing.

Após anos crescendo menos que seus pares na bolsa, no final de 2020 a AT&T começou um esforço para vender suas áreas menos rentáveis e reduzir a dívida. Em fevereiro a AT&T fechou um acordo com o fundo TPG para a venda da DirecTV. Em dezembro, negociou sua unidade de vídeos de anime Crunchyroll com a Sony por US$ 1,2 bilhão. A participação no serviço de streaming Hulu também foi negociada. A última peça foi unir a WarnerMedia com a Discovery e tirar a WarnerMedia das contas de AT&T.

Mas até o anúncio da fusão WarnerMedia com a Discovery, a AT&T negava ter intenções de se livrar da WarnerMedia. Uma das maiores ironias foi Jason Kilar, CEO da WarnerMedia, ter aparecido em uma longa reportagem do WSJ, três dias antes do anúncio da fusão, defendendo a estratégia da empresa e garantindo que a WarnerMedia era um plano de longo prazo da AT&T. O CEO da AT&T, John Stankey, também estava na matéria falando do talento de Kilar.

Kilar, mantido de fora de toda a negociação da fusão, só soube que ganharia um novo chefe, David Zaslav, CEO da Discovery, poucos dias antes do anúncio, quando já estava tudo definido. A nova empresa que resultará da fusão da WarnerMedia com a Discovery é avaliada em US$ 150 bilhões. Os acionistas da AT&T vão ficar com 71%, enquanto os acionistas do Discovery com 29%. Ou seja, Zaslav, CEO da empresa menor, ficou com o lugar que usualmente seria de Kilar. O executivo afirmou ter planos de permanecer na WarnerMedia ao menos até o primeiro semestre de 2022.

Não deixa de ser irônico que séries como "Game of Thrones" e "Succession" sejam da Warner e estejam na HBO Max. A vida insiste em imitar a arte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL