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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Líder absoluta, Netflix fatura mais que o dobro do Disney+ por assinante

Disney+ teve crescimento abaixo da expectativa - Reprodução / Internet
Disney+ teve crescimento abaixo da expectativa Imagem: Reprodução / Internet
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

17/05/2021 04h04

Resumo da notícia

  • O Disney+ e Netflix tiveram crescimento de novos assinantes abaixo da expectativa dos analistas no último trimestre
  • Fim de lockdowns e falta de novos lançamentos são apontadas pelas empresas como causas da desaceleração
  • A receita média por assinante da Netflix é mais que o dobro do Disney+, mercados emergentes como Índia e Indonésia derrubam números da Disney
  • Marcas de streaming da Disney reduziram prejuízo de US$ 800 milhões para US$ 300 milhões
  • A Disney afirma não estar preocupada e planeja acelerar o crescimento de sua plataforma em mercados emergentes
  • As ações da empresa foram beneficiadas pelo crescimento dos novos assinantes, mas investidores começam a se preocupar com a queda da rentabilidade

Reed Hastings, co-CEO e fundador da Netflix, disse no final de abril que seus concorrentes eram a TV aberta e o YouTube. Houve quem estranhasse a ausência do Disney+ na lista de competidores. Afinal, o serviço de streaming da Disney, no tempo recorde de 16 meses, havia ultrapassado a marca de 100 milhões de assinantes.

Mas os números divulgados pela Disney na quinta-feira passada deixam claro porque o streaming do Mickey está longe de ser um risco para a Netflix em curto prazo. O Disney+ anunciou um crescimento decepcionante de novos assinantes no último trimestre, chegando a 103,6 milhões de clientes. Os analistas haviam projetado 109 milhões.

No final de abril, a Netflix também anunciou números ruins de crescimento. Adicionou apenas 3,98 milhões de usuários no período, a expectativa era de 6,29 milhões. Mas a empresa já tem mais de 207 milhões de assinantes, o dobro do Disney+.

O fim dos lockdowns em diversos países, com as pessoas voltando a sair de casa; uma entre safra de filmes, com a redução do lançamento de grandes produções, são apontadas pelas empresas de streaming como causas da desaceleração do crescimento de novos assinantes. Vale lembrar que a Disney lançou "Wanda Vision" e "Falcão e o Soldado Invernal" no período, duas grandes produções.

Mas existe ainda uma grande, e fundamental, diferença entre a Netflix e a Disney+: a receita média por assinante (ARPU - average revenue per user). A receita média da Disney+ por usuário, excluindo o Hotstar da Índia, foi de US$ 5,61 por mês. A receita média por usuário na Netflix, no último trimestre, nos EUA e Canadá, foi de US$ 14,25 por mês, um aumento de 9% em relação ao ano anterior.

Netflix e Disney+ afirmaram esperar desaceleração do crescimento com o fim da pandemia. Então, esse dado torna a receita média ainda mais importante. Como afirmou o jornalista Alex Sherman, na CNBC, "Se você vai ter um crescimento em queda, quer que seus clientes paguem o máximo possível. O serviço de vídeo sob demanda Hulu, da Disney, tem receita média maior, de US$ 12,08 por mês - mas seu crescimento foi insignificante, apenas 2 centavos ao mês acima do ano anterior". O Hulu tem 37,8 milhões de assinantes, o que aumenta para 41,6 milhões quando se incluem aqueles que também compram TV ao vivo.

Mesmo que a Disney+ ultrapasse a Netflix em número de usuários, seu lucro ainda seria muito menor.

Mercados emergentes

Outro ponto central nos números da Disney+ são os mercados emergentes. O Disney+ Hotstar foi lançado em abril de 2020 na Índia, quando o serviço Hotstar já existente no país foi convertido em Disney+, e em Setembro de 2020, o mesmo aconteceu na Indonésia. Segundo a Disney, a receita nesses mercados é significativamente menor em relação ao resto do mundo, apesar de cerca de 25% dos seus usuários estarem nessas regiões. Ou seja, se incluíssemos o Hotstar na receita média da Disney+, segundo relatório da empresa, o número cairia de US$ 5,63 para US$ 3,99, praticamente um terço da Netflix.

Mas o novo CEO da Disney, Bob Chapek, que também lida com uma disputa na liderança da empresa, não parece preocupado. "Todos os mercados excederam as expectativas em termos de acréscimos de assinantes globais", disse. O executivo destacou que a Disney irá expandir para novos países, com o serviço chegando à Malásia e à Tailândia em junho.

A unidade de streaming da Disney, segue dando prejuízo, mas reduziu o saldo negativo para US$ 300 milhões no trimestre, em comparação a US$ 800 milhões negativos no mesmo período no ano anterior anterior. O Hulu, que tem cerca de 42 milhões de assinantes, foi responsável pela maior contribuição, um aumento de 30% em relação ao ano passado. E cerca de 14 milhões de pessoas pagam para ter acesso à plataforma ESPN+ voltada para esportes da empresa, um aumento de 75%.

A receita total de streaming aumentou 59%, para US$ 4 bilhões.

Não é segredo que a estratégia da Disney vai além do streaming. Ao criar e popularizar suas marcas a empresa atrai mais pessoas para seus parques e resorts, além de vender mais produtos licenciados. Para ganhar mercado rapidamente, a Disney optou por uma estratégia agressiva de preços baixos, particularmente em grandes mercados emergentes, onde a receita média por usuário tende a ser menor.

Os investidores estavam animados com o rápido crescimento do Disney+, mas o último anúncio de resultados parece ter quebrado essa magia. As ações da Disney chegaram a subir mais de 140% desde março de 2020, embora tenham recuado desde então. Mas logo após a divulgação da desaceleração do crescimento do Disney+, as ações da empresa recuaram mais de 4%. Teriam recuado ainda mais não fossem as boas notícias para seu segmento de parques, com o governo afrouxando as regras de distanciamento social e uso de máscaras nos Estados Unidos, onde a vacinação contra a Covid-19 caminha rapidamente.

A questão para a Disney é se esse custo é sustentável e como atingir o equilíbrio entre crescimento e descontos para atrair novos assinantes. A expressiva diferença da receita média por usuário entre Netflix e Disney+ é ainda um alerta de como será desafiador para qualquer concorrente alcançar a Netflix.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL