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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É preciso louvar a coragem de Klara Castanho - e ser solidário com sua dor

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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

25/06/2022 21h06

Durante toda a tarde deste sábado (25), o Twitter ficou tomado de especulações por causa de um trecho de vídeo publicado por Antonia Fontenelle em seu canal no YouTube. Quebrando um segredo confessado por um amigo jornalista - repito: em confidência - que optou por não publicar a história, trouxe a público que uma atriz "que foi da Globo e está na Netflix" engravidou e decidiu encaminhar o filho para adoção. Não bastasse a irresponsabilidade de trazer a público uma história que claramente traria sérios prejuízos a todos os envolvidos, Antônia ainda deu margem, de maneira cifrada, para que as redes sociais passassem a especular sobre a identidade de quem abriu mão da maternidade nesse momento específico, sem detalhar as razões.

Não demorou, a internet foi tomada por acusações de que Klara Castanho seria a atriz apontada por Antônia. Corajosamente, a jovem artista decidiu vir a público em uma carta dolorosa e sensível para revelar que sofreu um estupro e, mesmo tomando as precauções devidas e com fluxo menstrual normalizado, descobriu que estava grávida dias antes de dar à luz. Com acompanhamento do Ministério Público e autoridades competentes, decidiu abrir mão do fruto da violência que sofreu.

Tal violência, no entanto, parece não ter se encerrado ali, na decisão mais difícil de sua vida. Foi perpetuada de maneira irresponsável por Antônia e repercutida nas redes sociais com a maldade já conhecida desse ambiente. Na semana em que revelou-se que uma juíza tentou evitar que uma criança de 11, vítima de estupro e correndo risco de vida, abortasse e também em que, 49 anos depois, os Estados Unidos decidiram retroceder nos direitos reprodutivos das mulheres, é mais do que louvável a coragem de Klara em vir a público assumir sua história.

Com uma carreira toda pela frente, Klara não precisava passar por isso. Poderia manter no privado sua maior dor. Isso lhe foi negado por quem iniciou a história e por cada figura que a repercutiu. Se, neste país, o aborto é um tabu para muitos, mesmo em caso de estupro, não deveria ser um choque para quem se diz "a favor da vida" que uma mãe decida, portanto, encaminhar o fruto de um trauma para adoção. A sociedade não parece satisfeita e segue disposta a ignorar a responsabilidade dos estupradores - criminosos, ressalte-se - em tudo isso. Causa mais comoção a decisão de uma mulher sobre seu corpo e sua vida do que a violência que ela sofreu e o meio que encontra para superá-la.

No mundo artístico, grandes estrelas só falam sobre aborto voluntário muitos anos depois de ele ter ocorrido. O que Klara Castanho fez foi romper com o ciclo de hipocrisia e colocar o assunto para ser discutido por todos. Sua coragem é louvável. Ela merece toda a solidariedade do mundo. E precisa de todo o tempo necessário para seguir com sua vida como bem entender. Antonia Fontenelle lhe deve desculpas. Cada especulador de rede social também. Vidas valem muito mais que uma fofoca. É preciso ter o mínimo de responsabilidade.