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Casal com filhos pequenos larga tudo por vida nômade em plena pandemia

Gabriela e Bruno Campanella com os filhos Benjamin e Serena - Arquivo pessoal
Gabriela e Bruno Campanella com os filhos Benjamin e Serena Imagem: Arquivo pessoal

Luciana Borges

Colaboração com Nossa

05/05/2021 04h00

Você teria coragem de largar a vida que tem hoje e dirigir sem rumo? Trocaria a estabilidade por uma existência nômade? Pois a ideia que percorreu a cabeça de muita gente em sonhos idílicos depois que a pandemia de covid-19 chegou com força no Brasil é a atual realidade do casal Gabriela e Bruno Campanella, ambos de 31 anos.

Bem no meio de 2020, durante alguns dos piores meses de contaminação causada pelo novo coronavírus, eles venderam a casa que possuíam em São Paulo e partiram rumo a novas moradas levando junto os dois filhos — Benjamin, de 3 anos de idade, e Serena, de 1.

"Foi mais de um ano tentando esse projeto. Nossos filhos são pequenos e o trabalho já era 100% digital. Resolvemos não escolher outra casa para morar por um tempo e, sim, sair por aí. Em fevereiro deste ano, completamos seis meses como nômades e já passamos por sete cidades do Brasil até agora", conta Gabriela.

Bruno e os filhos em Atibaia, em um dia no camping - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bruno e os filhos em Atibaia, em um dia no camping
Imagem: Arquivo pessoal
O camping onde a família morou por alguns dias  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O camping onde a família morou por alguns dias
Imagem: Arquivo pessoal

Ela, que antes trabalhava como relações públicas, agora é comunicadora digital no perfil @campamae, além de escritora. Já Bruno é engenheiro, mas agora atua na empresa que criou com a esposa. Eles se definem como empreendedores nômades e pais em tempo integral.

Para quem pensa sobre a viabilidade de um plano como esse, principalmente em tempos de pandemia, Gabriela conta um pouco como foi o processo e o momento em que deu o "clique" da mudança.

Meu marido e eu éramos CLT, cada um em uma empresa. Gostávamos do trabalho, mas eram muitas horas no trânsito e nos víamos sempre esperando pela sexta-feira ou pelas próximas férias", conta ela.

A família vivia na região do ABC, na Grande São Paulo e por cinco anos viveram em um apartamento em São Bernardo do Campo. "Não há absolutamente nada de errado com esse tipo de vida. Mas, para nós, principalmente depois da chegada dos filhos, ficou cada vez mais claro que não era o que queríamos de verdade. Meu primeiro filho entrou na escola com cinco meses e meio por pura necessidade, pois a licença-maternidade tinha acabado", afirma ela.

O casal na fazenda em Amparo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O casal na fazenda em Amparo
Imagem: Arquivo pessoal

O dia a dia de casa para o trabalho, do trabalho da casa ficou ainda mais inviável após o nascimento de Serena, a segunda filha.

Quando engravidei de novo, sabia que isso não se sustentaria mais. Foi aí que começamos a pensar em um novo plano".

Houve ainda mais uma questão bem pessoal que impulsionou o casal para o "sonho nômade": "A virada de chave mesmo foi quando meus avós maternos morreram com 48 horas de diferença um do outro. Não foi covid. Minha avó levou um tombo e passou a madrugada caída. Foi uma complicação atrás da outra. E meu avô teve um infarto. Um nem soube da morte do outro", conta Gabriela.

O impacto na vida do casal foi grande: os avós de Gabi a criaram, já que sua mãe havia falecido há muitos anos.

"Exatos 10 dias depois, vendemos a casa e, na mesma semana, tínhamos o plano de negócios da empresa. Quando precisei me despedir daqueles que haviam sido meus pais, percebi também que o universo estava conspirando para que eu desapegasse de todo o resto que me prendia a um determinado local", conta ela.

Gabriela trabalhando em São Sebastião, no litoral paulista - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriela trabalhando em São Sebastião, no litoral paulista
Imagem: Arquivo pessoal
Bruno com os filhos na fazenda, no interior de São Paulo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bruno com os filhos na fazenda, no interior de São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

"O que não veio com a gente, doamos"

A partir daí, a primeira tarefa foi consolidar uma migração de carreira. Bruno havia sido demitido por conta de cortes da pandemia e Gabriela não havia mais voltado a trabalhar após a segunda licença-maternidade: "Hoje sou produtora de conteúdo e encontrei um nicho com o qual sempre quis trabalhar, que é o de mães e mulheres. Me vi com mais espaço para escrever e publiquei meu primeiro livro sobre esse momento que todas as mães passam quando precisam deixar seus filhos com outros cuidadores", diz ela.

"Desenhamos a fundação da nossa empresa juntos", conta Gabriela. "O modelo deveria ser todo digital. Nos vimos organizados o suficiente para ter a liberdade na localização e a presença ativa na infância das crianças".

O carro e a carreta que a família usa para viajar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O carro e a carreta que a família usa para viajar
Imagem: Arquivo pessoal

Desde que fecharam a porta da antiga casa e escolheram o carro da família como ponto de partida para a vida nômade, a família já passou temporadas nas cidades de Amparo e Atibaia, no interior de São Paulo; depois foram para São Sebastião, no litoral norte paulista, e na sequência rumou para o Sul. Passaram por Curitiba, Ilha do Mel, Florianópolis e Canela, no Rio Grande do Sul. Atualmente estão em São Paulo novamente por um curto período de três meses para resolverem questões profissionais e de saúde.

A família em São Sebastião - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A família em São Sebastião
Imagem: Arquivo pessoal
Bruno com o filho Benjamin em Atibaia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bruno com o filho Benjamin em Atibaia
Imagem: Arquivo pessoal

Mas existe segredo para trás toda uma casa mobiliada, pertences pessoais, objetos de valor? "Saímos de casa com um total de sete malas e hoje estamos com quatro. De resto, o que não veio com a gente, doamos. A cada semana que passa, percebemos o quanto ainda temos coisas sem uso nenhum", diz ela.

"Bruno carrega todos os seus pertences em uma mala de mão, acredita? Foi e está sendo um imenso exercício de desapego total. Temos um pequeno storage em SP onde guardamos coisas afetivas como quadros e memórias", revela.

Mais liberdade e menos consumo

Benjamin e Serena em Florianópolis - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Benjamin e Serena em Florianópolis
Imagem: Arquivo pessoal

Para quem estiver se perguntando como é criar filhos pequenos com uma infraestrutura restrita, malas contadas e sem um endereço fixo constante Gabi conta: "Acho que meus filhos estão, de fato, vivendo a infância. Temos um ritmo bem saudável e uma rotina que permite a eles o movimento, o brincar livre, as expressões de suas emoções. É um grande privilégio", defende.

Quanto às constantes mudanças, ela diz que as crianças são "super adaptáveis": "Desde que tenham a base sólida que foram programados para ter: afeto, presença e amor", diz.

Gabriela e Bruno Campanella com os filhos Benjamin e Serena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriela e Bruno Campanella com os filhos Benjamin e Serena
Imagem: Arquivo pessoal

A vida com mais liberdade tem outro "efeito colateral" que é o da família ter diminuído drasticamente os hábitos de consumo e aprender a viver com menos. "Nossas raízes não estão determinadas em paredes, em objetos, em rotinas engessadas", diz Gabriela.

Na atual realidade da família Campanella, o "sonho" de fazer o próprio horário de trabalho, organizar a agenda para ter tempo livre e acompanhar de perto o crescimento dos filhos se tornou a nova rotina.

"Nossas raízes estão dentro de nós, onde conseguimos carregar nossas vivências por onde formos. A cada desafio, mais unidos saímos porque, no fim das contas, só temos um ao outro para contar.

De todas as andanças mundo afora, a melhor viagem tem sido essa para o lado de dentro", finaliza ela.