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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Porta-aviões americano vendido por 1 centavo está a caminho do Brasil

Kitty Hawk  - Reprodução
Kitty Hawk Imagem: Reprodução
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista de Nossa

01/04/2022 04h00

Chegou hoje ao porto de Montevidéu, de onde partirá rumo ao Brasil, um dos mais interessantes comboios marítimos do ano: o que está conduzindo o outrora poderoso porta-aviões americano Kitty Hawk para um estaleiro no Texas, onde ele será desmanchado e vendido como sucata.

Mas, bem mais impactante do que a transformação de um gigantesco porta-aviões em pilhas de ferro-velho é por quanto ele foi vendido para a empresa que executará o serviço: um mísero centavo de dólar — pouco mais de R$ 0,05.

Barganha do século

A transação, considerada a "barganha da década" por admiradores do famoso navio, um dos maiores porta-aviões que os Estados Unidos tiveram no passado, e por alguns políticos americanos de oposição (já que, quando foi construído, no início da década de 1960, o Kitty Hawk custou 264 milhões de dólares, ou quase R$ 13 bilhões em valores corrigidos para os dias de hoje), levantou suspeitas e gerou indignação.

Mas a empresa que comprou o navio por um valor inferior ao de uma bala, a fim de desmantelá-lo, a International Shipbreaking Limited, garante que está prestando "um serviço aos contribuintes americanos", por que eles "não precisarão pagar pelo desmanche do navio", já que ela assumirá este custo — embora omita o quanto irá lucrar vendendo o aço e o que mais puder ser reciclado do grande porta-aviões, que foi desativado em 2009, após quase meio século de serviços prestados à Marinha dos Estados Unidos.

Porta-aviões com história

Kitty Hawk - Wikipédia - Wikipédia
Kitty Hawk
Imagem: Wikipédia

O Kitty Hawk, assim batizado em homenagem à região do estado da Carolina do Norte onde os irmãos Wilbur e Orville Wright, considerados pelos americanos como os inventores do avião, voaram pela primeira vez, em 1903, foi um dos primeiros super porta-aviões dos Estados Unidos.

Com 326 metros de comprimento e 86 de largura, e capacidade para abrigar até 100 aviões militares, quando foi lançado, em 1961, o Kitty Hawk era considerado um símbolo do poder militar do país.

Kitty Hawk - Reprodução - Reprodução
Kitty Hawk
Imagem: Reprodução

Atuou na Guerra do Vietnã e do Iraque, e em todos os grandes conflitos envolvendo os Estados Unidos, até o início dos anos 2 000, quando foi "aposentado" e ancorado em uma base americana, no estado de Washington, à espera do momento de ser desmanchado — o que ficou acertado no ano passado, através da polêmica "venda simbólica" para a empresa que irá executar o serviço.

Viagem de 30 000 quilômetros

Começaram, então, os preparativos para a gigantesca operação de remoção do porta-aviões para o estaleiro onde o desmonte será feito.

Mas havia dois problemas.

O primeiro era que o navio estava na costa oeste americana e o estaleiro no litoral do Texas, no Golfo do México, no lado oposto dos Estados Unidos - era preciso navegar do Pacífico até o Atlântico para isso.

E o segundo, que o porta-aviões era grande demais para fazer esta travessia pelo atalho do Canal do Panamá.

O único jeito, então, seria descer e contornar toda a América do Sul e Central, cruzando do Pacífico para o Atlântico pelo Estreito de Magalhães, em uma longa jornada de quase 30 000 quilômetros.

E assim está sendo feito.

Com uma agravante: como motores e equipamentos já haviam sido retirados do velho porta-aviões, o Kitty Hawk ficou sem condições de navegar por meios próprios, e está sendo lentamente puxado por um comboio formado por quatro rebocadores (veja vídeo de parte desta longa travessia).

Próxima parada: Bahia

A saga da última viagem do Kitty Hawk começou dois meses e meio atrás, em 15 de janeiro passado, quando ele partiu, rebocado, de Seattle, nos Estados Unidos, e está prevista para terminar só em junho ou julho, já que o pesado navio vem sendo puxado a menos de 10 km/h no mar

Até aqui, o comboio já fez paradas (para descanso dos tripulantes dos rebocadores, reposições de suprimentos e reparos nas embarcações) nos portos de Los Angeles, Manzanillo (México), Balboa (Panamá), Valparaíso e Punta Arenas (Chile) e, agora, Montevidéu — de onde partirá nos próximos dias, rumo à próxima escala da viagem: Salvador, na Bahia.

Não há uma data precisa para a chegada do curioso comboio à capital baiana, porque isso depende das condições do mar durante o percurso entre o Uruguai e a costa do Brasil.

Mas a chegada a Salvador só deve acontecer no final do mês, já que, por segurança, o comboio avança muito lentamente.

Navio fantasma

Também por questões de segurança, o Kitty Hawk navega sem nenhum tripulante a bordo, feito um gigantesco navio fantasma, sendo apenas puxado e escorado pelos rebocadores.

A precaução é necessária, já que um navio daquele porte desprovido de meios de propulsão se torna muito vulnerável aos humores do mar, e visa evitar tragédias, como as que já ocorreram no passado, com navios que estavam sendo rebocados com pessoas a bordo.

Sumiu quando era rebocado

Um dos casos mais famosos do gênero envolveu, inclusive, um grande navio militar brasileiro, o encouraçado São Paulo, da Marinha do Brasil, que desapareceu, no meio do Atlântico, em novembro de 1951, quando era puxado por dois rebocadores, também rumo a um desmanche, na Europa.

Encouraçado São Paulo - Wikipedia - Wikipedia
Encouraçado São Paulo
Imagem: Wikipedia

A bordo do navio, que também não tinha mais meios próprios de propulsão, seguiam oito tripulantes, cujos corpos jamais foram encontrados — bem como o próprio encouraçado (clique aqui para conhecer este caso, que, apesar da gritante falha de segurança, não apontou nenhum culpado).

Como o porta-aviões americano é bem mais volumoso do que o encouraçado brasileiro desaparecido no passado, os cuidados do comboio foram redobrados.