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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Um ano depois, pais da inglesa que sumiu no Caribe partem em busca da filha

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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

19/03/2022 04h00

Na semana passada, o casal Brenda Street e Peter Heslop, pais da velejadora inglesa Sarm Heslop, de 41 anos, que em 8 de março do ano passado desapareceu sob circunstâncias misteriosas supostamente do barco no qual vivia com o namorado, o americano Ryan Bane, chegou à ilha de St. John, no Caribe.

O objetivo é refazer os últimos passos conhecidos da filha e tentar fazer o que a polícia até agora não fez: investigar com mais profundidade o caso, que é um dos mais inexplicados do mar caribenho nos últimos anos.

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Desamparados e confusos ao mesmo tempo (porque, enquanto procuram a filha, não acreditam mais que ela esteja viva), os pais da inglesa, que largara tudo para viver com o namorado em um barco no Caribe, também aproveitaram a viagem — que não aconteceu antes por causa das restrições impostas pela covid 19 à entrada de estrangeiros nas Ilhas Virgens Americanas — para prestar uma homenagem a Sarm, depositando um ramalhete de flores na mesma praia onde o barco do casal estava ancorado na noite em que ela desapareceu.

Um ano inteiro e nada

"Um ano se passou e a investigação não foi além do mesmo punhado de informações que tínhamos um ano atrás", disse, desconsolado, o pai da inglesa à rede britânica BBC, que entrevistou o casal na praia, no dia da homenagem.

"É difícil explicar esse tipo de dor, de sequer saber o que aconteceu com a nossa filha", disse, na entrevista, a mãe da velejadora desaparecida. "Tudo o que queríamos era poder levá-la de volta para casa, ainda que morta. Mas nem isso conseguimos até agora".

A polícia e as autoridades poderiam ter feito muito mais para esclarecer este caso", completou o pai de Sarm Heslop — cujo enigmático desaparecimento perturba os ingleses até hoje.

Um caso revoltante

O misto de resignação e indignação dos pais da velejadora é fruto das peculiaridades deste caso, realmente intrigante e misterioso, mas, acima de tudo, revoltante, porque a única testemunha (e, também, o principal suspeito, o próprio namorado dela, Ryan Bane) nunca foi ouvida pela Polícia.

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Por dois motivos: Bane se recusou a prestar depoimento, e não permitiu que o seu barco — suposto local do desaparecimento —, fosse periciado pela Polícia das Ilhas Virgens Americanas, alegando não confiar nos policiais da ilha. Na ocasião, a mãe da desaparecida se manifestou:

Isso é ultrajante. A única pessoa que poderia fornecer detalhes sobre o que aconteceu com a minha filha não permite ser interrogada e a justiça concorda com isso"

Suspeito não permite ser investigado

Por mais absurda que pareça a premissa de que cabe ao próprio suspeito permitir ou não que a polícia o interrogue e pericie o local onde ocorreu um caso policial, a postura de Bane teve amparo legal — pelas leis americanas, já que ele é cidadão dos Estados Unidos, país com o qual as Ilhas Virgens Americanas (mais conhecidas como USVI) mantém estreito relacionamento, a polícia precisa apresentar um mandato de busca expedido por um juiz antes de examinar uma propriedade privada, como era o caso do barco onde o casal morava.

Como, até hoje, nenhum juiz da ilha expediu tal mandado (sob a alegação de que a polícia deve, primeiro, fornecer elementos que justifiquem a suspeita), Ryan Bane não apenas não foi ouvido pela polícia, como ficou livre para ir embora da ilha com o seu barco.

O que ele fez em seguida.

Partiu para outra ilha

Em outubro passado, o americano levantou âncora de St. John e rumou para a ilha de Grenada, também no Caribe, mas sob outra jurisdição. Ali, após trocar o nome do barco, um bonito veleiro catamarã de 15 metros de comprimento, o colocou à venda — o que não se sabe se já foi feito.

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Se o barco for vendido, será a pá de cal definitiva nas esperanças da família de que o namorado seja investigado, porque, sem vistoriar o barco, a Polícia das USVI não terá como incriminá-lo — embora ele já tenha tido tempo suficiente para se livrar de qualquer prova incriminatória que houvesse a bordo.

"Só ele poderia dizer o que aconteceu com a nossa filha, ou dar detalhes sobre o seu desaparecimento. Mas se recusa a fazer isso e, aparentemente, ninguém pode obrigá-lo", lamenta, entre lágrimas, a mãe de Sarm Heslop, enquanto tenta refazer os últimos passos da filha na ilha de St. John.

Porém, tudo o que se sabe é que, na noite do desaparecimento da inglesa, o casal havia jantado em um restaurante da ilha, próximo ao local onde o barco estava ancorado.

Depois disso, mais nada.

Nem mesmo se Sarm retornou ao barco, o que levou a Polícia a considerar a hipótese de que, o que quer que tenha acontecido com ela, ter ocorrido ainda em terra firme.

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O que diz o advogado

"Meu cliente segue devastado com o desaparecimento da namorada", diz apenas o advogado de Ryan Bane, que, no passado, chegou a ser preso nos Estados Unidos por agressão à ex-esposa.

"A única esperança dele, para se livrar das injustas acusações que vem sofrendo, é que ela seja encontrada viva e saudável. Enquanto ele estiver vivo, continuará procurando por Sarm Heslop", acrescentou o advogado de Ryan Bane, embora, desde que o caso ocorreu, um ano atrás, o americano só tenha sido visto passeando pelas praias com o seu cachorro.

Ela ainda estaria viva?

Um ano depois, ninguém mais acredita nessa hipótese — nem mesmo os pais da vítima, que, agora, só parecem querer saber o que aconteceu com a filha.

Mas, talvez, nem isso eles jamais descubram, porque a investigação não avançou em nada, justamente porque falta o mais básico dos procedimentos nesses casos: interrogar o principal suspeito e examinar o local onde o suposto desaparecimento aconteceu.

E, aparentemente, nem uma coisa nem outra irá acontecer.

Se houve um crime, ele tenderá a ser perfeito, porque, talvez, nunca seja esclarecido.

Perguntas sem resposta

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Por que, afinal, Ryan Bane só comunicou o desaparecimento da namorada à Polícia quase dez horas depois do horário que disse ter acordado e constatado a ausência dela a bordo?

E por que não permitiu que o barco fosse examinado?

Se depender apenas da boa vontade do principal suspeito, como vem sendo até agora, estas são algumas perguntas que jamais terão respostas neste estranho caso, cujos detalhes podem ser conhecidos clicando aqui.