PUBLICIDADE
Topo

Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

10 náufragos que sofreram horrores no mar, mas sobreviveram para contar

Jose Salvador Alvarenga, náufrago que ficou mais de 14 meses no mar - AFP PHOTO / Hilary Hosia
Jose Salvador Alvarenga, náufrago que ficou mais de 14 meses no mar Imagem: AFP PHOTO / Hilary Hosia
Conteúdo exclusivo para assinantes
Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista de Nossa

26/03/2022 04h00

A recente descoberta, no fundo do mar da Antártica, do barco Endurance, do explorador Ernest Shackleton, que ficou mundialmente famoso não pelo seu naufrágio, mas pela heroica empreitada que protagonizou depois disso, numa insana travessia de 800 quilômetros em um dos mares mais bravios do mundo, a fim de salvar todos os seus homens, trouxe novamente à tona outros casos de náufragos que também superaram limites, em busca da salvação — e também conseguiram, embora igualmente a duras penas.

Confira aqui, dez náufragos bem mais recentes que Shackleton, que impressionaram o mundo com seus dramas, nos últimos 80 anos.

Poon Lim
O náufrago chinês que veio parar no Brasil

Poon Lim - National Geographic Magazine, Year-book 1945, p.632/Domínio Público - National Geographic Magazine, Year-book 1945, p.632/Domínio Público
Poon Lim
Imagem: National Geographic Magazine, Year-book 1945, p.632/Domínio Público

Em 10 de novembro de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o navio cargueiro inglês no qual o jovem chinês Poon Lim trabalhava como ajudante geral foi torpedeado e afundado por um submarino alemão, no meio do Atlântico.

Lim teve a sorte de sobreviver ao ataque e de encontrar uma espécie de jangada boiando no mar, que escapara do navio, enquanto ele afundava.

Mas o que ele passaria depois, dentro daquela pequena jangada, nada teve de positivo.

Sem água nem comida, Lim teve que desenvolver técnicas próprias para não morrer de fome e de sede.

Uma delas foi cobrir a jangada com um pedaço de tecido, que também vazara do navio afundado, e, a partir dele, criar uma armadilha para capturar água de chuva e aves marinhas, que pousavam para descansar.

Quando isso acontecia, o chinês as agarrava por baixo, escondido pelo tecido.

Lim desenvolveu técnicas de sobrevivência tão eficientes que, mais tarde, algumas delas foram adotadas pela Marinha Inglesa.

O purgatório do chinês durou 133 dias — um recorde de sobrevivência no mar até então.

Até que, mais de quatro meses depois, ele foi resgatado por um pequeno barco de pesca, de uma humilde família de pescadores de Belém do Pará, já próximo à costa do Brasil.

Estava esquálido, mas saudável.

Poon Lim morreu em 1991, aos 74 anos de idade.

Aos que lhe perguntavam como se sentia por deter o recorde de sobrevivência no mar, ele apenas respondia: "É uma marca que eu espero que nunca ninguém tenha que quebrar".

Mas, 70 anos depois, um infeliz pescador mexicano quebrou.

E de uma maneira bem mais dramática (veja no final desta lista).

Alain Bombard
O médico que quis virar náufrago

Alain Bombard  - Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images - Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images
Alain Bombard
Imagem: Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

Após a Segunda Guerra Mundial, chocado com a quantidade de marinheiros que sobreviveram aos naufrágios de seus navios atacados, mas, depois, morriam de fome e sede nos oceanos, o médico francês Alain Bombard resolveu provar que era possível sobreviver no mar sem água nem comida por longos períodos, e da maneira mais original possível: virando, ele próprio, um náufrago voluntário.

Sua tese era a de que o ser humano poderia sobreviver no oceano alimentando-se apenas de seres marinhos e dois tipos de água: a da chuva, que eventualmente caísse do céu, e a do próprio mar, esta em pequenas doses — algo que, até hoje, é condenado por dez em cada dez cientistas, já que a água salgada alivia a sede num primeiro momento, mas causa ressecamento do organismo depois.

Mas, segundo Bombard, bastava compensar os goles de água do mar com o sumo das carnes dos peixes, que neutralizariam o sal ingerido.

Sua experiência foi bem-sucedida, mas marcada por muito sofrimento e algumas suspeitas de fraude, porque, para alguns, ele levara mantimentos escondidos no barco, que era um simples bote inflável — algo que, no entanto, jamais foi comprovado.

Entre outubro e o final de dezembro de 1952, Bombard atravessou o Atlântico, à deriva, das Ilhas Canárias ao Caribe, sem água nem comida, mas com um kit secreto a bordo, contendo alguns barbitúricos, para o caso de o experimento não desse certo e ele optasse pelo suicídio.

65 dias depois, chegou à ilha de Barbados, 25 quilos mais magro, mas vivo.

E eufórico por ter comprovado sua tese, que nunca mais foi tentada por outra pessoa de maneira voluntária, como ele fez.

Luis Velasco
Vítima de uma vergonha

Luis Velasco - Reprodução/El Periodico - Reprodução/El Periodico
Luis Velasco
Imagem: Reprodução/El Periodico

Em fevereiro de 1955, um navio militar da Marinha Colombiana partiu de um porto americano de volta para casa, abarrotado de caixas.

Mas, três dias depois, uma tempestade fez o instável navio adernar demais e algumas caixas caíram no mar, bem como oito marinheiros.

Um deles era o jovem cadete Luis Alejandro Velasco, de apenas 20 anos de idade, que, tal os demais companheiros, foi deixado para trás pelo navio, que seguiu em frente.

O máximo de ajuda que eles receberam dos responsáveis pelo navio foram algumas balsas salva-vidas arremessadas ao mar, que só um deles conseguiu agarrar: o próprio Velasco.

Ele achava que o navio retornaria para buscá-lo.

Mas não foi o que aconteceu.

Ao longo de dias vagando à deriva no mar, Velasco lutou bravamente para sobreviver, inclusive contra os insistentes ataques dos tubarões.

No décimo dia de sofrimento, ele foi dar em uma praia da própria Colombia, onde foi resgatado pela própria Marinha e imediatamente afastado do convívio com outras pessoas, pelos militares colombianos.

E assim ficou, por meses a fio.

Até que, farto daquele confinamento, Velasco procurou um jornal local e contou sua história a um jovem repórter colombiano, que a transformou em uma série de reportagens e, mais tarde, em um premiado livro, chamado Relato de um náufrago, que o ajudou a ganhar um Prêmio Nobel de literatura e a se tornar o mais famoso escritor colombiano de todos os tempos.

Seu nome: Gabriel Garcia Márquez.

E tudo porque, por trás daquela indiferença para com os marinheiros caídos ao mar e abandonados, estava o verdadeiro motivo daquele incidente no mar do Caribe: o pesado contrabando de eletrodomésticos (as tais caixas, que desestabilizaram o navio), que os militares colombianos traziam dos Estados Unidos.

Família Robertson
As lições de uma tragédia

Família Robertson - Reprodução/BBC - Reprodução/BBC
Família Robertson
Imagem: Reprodução/BBC

No início dos anos 1970, o escocês Dougal Robertson decidiu vender tudo, comprar um veleiro e sair navegando pelo mundo, com sua família: mulher e quatro filhos pequenos.

Um deles, a mais velha, desembarcou meses depois para voltar para a escola e foi substituída por um jovem marinheiro, que buscava aventuras nos mares - mas o que ele encontrou foi bem mais do que isso.

Em junho de 1972, quando navegava na direção das Ilhas Galápagos, no Pacífico, o barco dos Robertson foi atingido por um grupo de orcas e afundou rapidamente, deixando os seus seis ocupantes espremidos em um pequeno bote salva-vidas por longos 38 dias, até serem resgatados por um barco pesqueiro japonês - e todos em surpreendente bom estado de saúde.

Inclusive as crianças.

O que mais impressionou no caso não foi apenas a habilidade de Dougal, que conduziu o bote na direção de áreas onde havia mais chances de chuvas abundantes (portanto, água para beber), mas também a técnica que ele desenvolveu para capturar peixes e tartarugas com relativa facilidade - tanto que, em momento algum, o grupo passou fome.

Mais tarde, com base no que aprendeu naquele infortúnio, Dougal escreveu um livro-manual, chamado Sobreviva ao mar selvagem, que, nove anos depois, ajudaria a salvar a vida de outro náufrago: o americano Steven Callahan, cuja história você lerá mais abaixo.
Sua tragédia deixou um legado.

Maralyn e Maurice Bailey
Naufrágio sem ressentimentos

Maralyn e Maurice Bailey - Reprodução - Reprodução
Maralyn e Maurice Bailey
Imagem: Reprodução

Apenas um ano depois do infortúnio da família Robertson, outro casal britânico, Maralyn e Maurice Bailey, viveu o mesmo drama, na mesma região e pelo mesmo motivo: o veleiro deles foi atingido por uma baleia e afundou, deixando os dois náufragos à deriva, em dois botes infláveis.

Mas, como Maralyn era uma mulher precavida, antes de abandonar o barco que afundava, ela coletou tudo o que julgou que o casal precisaria enquanto estivesse no mar: água, mantimentos, equipamentos de navegação e até dois livros, para ajudar a passar o tempo.

Depois, habilidosa, criou outros instrumentos, como anzóis feito com pinos de metal dos botes, e aprendeu a capturar filhotes de tubarão com as próprias mãos, puxando-os para dentro do barco, com movimentos rápídos.

Maralyn nunca perdeu as esperanças de que os dois seriam salvos, mesmo quando barcos e navios passavam reto, sem vê-los na água.

Um dia, porém, o seu otimismo foi recompensado - e os dois foram avistados por um barco de pesca, quando Maurice, doente, já estava quase morrendo.

Quando isso aconteceu, eles já estavam no mar há 118 dias - quase quatro meses.

De volta à Inglaterra, o casal, longe de ficar traumatizado com o episódio, decidiu construir outro barco e passou a se dedicar ao estudo do comportamento do causador da maior lição de vida que eles tiveram: as baleias.
Sem nenhum ressentimento.

Steven Callahan
Salvo por um livro

Steven Callahan - Reprodução - Reprodução
Steven Callahan
Imagem: Reprodução

O americano Steven Callahan já tinha boa experiência de mar quando decidiu construiu o seu próprio veleiro, e com ele navegar pelo mundo.

Mas, logo na volta da primeira viagem, a travessia do Atlântico, em janeiro de 1982, uma tempestade abriu um rombo no casco do seu barco, que afundou em seguida.

Callahan só teve tempo de recolher alguns itens de sobrevivência, incluindo um exemplar do livro-manual escrito por Dougal Robertson, anos antes.

E foi graças a isso — além de uma boa dose de sorte — que, 76 dias depois, ele foi dar em uma ilha do Caribe, onde foi resgatado e internado, já que estava seriamente desidratado e desnutrido.

Callahan sobreviveu, escreveu um livro de sucesso sobre o seu martírio, e, até hoje, aos 80 anos de idade, é reverenciado como um herói da resistência.

Tami Ashcraft
Guiada por um espírito

Tami Ashcraft - Reprodução - Reprodução
Tami Ashcraft
Imagem: Reprodução

Em outubro de 1983, o velejador inglês Richard Sharp e sua namorada, a americana Tami Ashcraft, aceitaram a incumbência de conduzir um veleiro do Taiti a San Diego, onde seria entregue ao seu dono.

Mas, na segunda semana da viagem, quando cruzavam o Pacífico, foram colhidos por um furacão, que arrancou o mastro do barco, inutilizou o seu motor e fez Richard desaparecer no mar, levado por uma onda.

Tami, que estava dentro da cabine no momento do acidente, ficou, então sozinha a bordo de um barco que não sabia manejar, nem tinha como, porque velas e motor estavam destruídos.

Mas, após um longo período em estado de choque, ela passou a ouvir "uma voz interior", que lhe dava "instruções" sobre o que fazer.
E ela fez.

Improvisou uma vela e apontou o barco na direção do Havaí, a ilha mais próxima, onde chegou 41 dias depois, sendo recebida com um misto de espanto, admiração e incredulidade, pela história que ele contou sobre como chegara até ali.

A história de Tami, que, aos 72 anos, ainda está viva, rendeu um livro, um filme lançado pouco tempo atrás nos cinemas, e muitos questionamentos sobre a tal "voz" que a guiara até a salvação — que ela jamais duvidou que fosse a do espírito do seu namorado, que o mar levou.

Richard Van Pham
Herói ou farsante?

O barco de Richard Van Pham - U.S. Navy - U.S. Navy
O barco de Richard Van Pham
Imagem: U.S. Navy

Em maio de 2002, Richard Van Pham, um vietnamita naturalizado americano, de 62 anos, partiu sozinho da Califórnia, com seu veleirinho de apenas oito metros de comprimento, disposto a navegar até a Ilha Catalina, ali mesmo, na costa no estado.

Mas, no meio do caminho, enfrentara uma tempestade, que quebrou o mastro e danificou o motor do seu barco.

Como ele não tinha rádio para pedir socorro, nem como regressar por meios próprios, teria vagado à deriva durante impressionantes três meses (em uma das áreas mais intensamente frequentadas por embarcações da costa americana), até ser encontrado a mais de 4 000 quilômetros dali, já próximo ao litoral da Costa Rica.

Para sobreviver durante todo esse tempo, Van Pham disse ter usado a carne de uma tartaruga que conseguiu capturar, quando o animal subiu para respirar, e dela produziu iscas, que espalhava pelo convés do barco, a fim de atrair aves marinhas, que eram abatidas a pauladas.

Engenhoso, contou também que bolara uma maneira de fazer evaporar pequenas porções de água do mar dentro de um recipiente fechado, tornando-as assim potáveis.

Ao ser resgatado, pela sua bravura, Van Pham ganhou outro barco de presente, como doação.

Mas, logo em seguida, voltou a ter problemas no mar e teve que ser novamente resgatado.

Quando a Guarda Costeira Americana chegou para ajudá-lo, constatou que faltavam vários equipamentos de segurança no barco, que ele confessou ter vendido para ganhar dinheiro.

Dessa vez, em vez de presenteado, Van Pham foi multado.

Com isso, aumentaram as suspeitas de que Van Pham teria mentido sobre o seu primeiro incidente, e passado boa parte do tempo escondido em algum porto, para só voltar a navegar pouco antes de ser "encontrado" - o que configuraria um golpe ainda mais baixo do que vender os equipamentos do barco que a ele fora doado.

Isso nunca foi comprovado.

Mas a suposta saga de Van Pham levanta suspeitas até hoje.

Pescadores mexicanos
Levados pela tempestade

Jesus Vidana Lopez, Salvador Ordonez, Lucio Rendon - Reprodução - Reprodução
Jesus Vidana Lopez, Salvador Ordonez, Lucio Rendon
Imagem: Reprodução

Em novembro de 2005, cinco pescadores mexicanos foram para o mar, com um pequeno barco aberto, para pescar tubarões.
Mas foram colhidos por uma tormenta com fortes ventos, e arrastados para o alto-mar -- de onde não conseguiram mais voltar, porque acabou o combustível do motor.

E o que aconteceu em seguida superou até mesmo os piores pesadelos.

Durante mais de nove meses, eles vagaram à deriva no Oceano Pacífico, sem água nem comida, até que só três sobreviventes (Salvador Ordoñez, de 37 anos, Jesus Vidana e Lucio Rendon, ambos de 27) foram resgatados por pesqueiro taiwanês, já perto das Ilhas Kiribati, a quase 8 000 quilômetros do ponto de onde haviam partido.

Dois pescadores morreram de inanição, porque não suportaram a esquálida dieta à base de água de chuva, peixe cru, tartarugas e gaivotas — quando o grupo conseguia capturar alguma coisa para comer.

Quando voltou para sua casa, um dos sobreviventes, Jesus Vidana, descobriu que era pai de uma menina de seis meses, que nascera enquanto todo mundo achava que ele e os demais companheiros há muito estavam mortos.

Jose Alvarenga
O pior de todos os náufragos

Jose Alvarenga  - YouTube - YouTube
Jose Alvarenga
Imagem: YouTube

Apenas sete anos depois do calvário dos pescadores mexicanos, um caso muito parecido — mas pior ainda no sofrimento — acometeu outro pescador que partiu do México e não voltou.

Em 2012, o salvadorenho Jose Alvarenga partiu, com outro pescador, de uma vila na costa mexicana, e, também por problemas no motor, foi arrastado pela correnteza até o outro lado do Pacífico, em uma inacreditável saga de 438 dias ou 14 meses e meio no mar, sem água nem comida no barco.

Milagrosamente, Alvarenga sobreviveu, graças às tartarugas que capturava com as mãos.

Mas seu colega não.

E isso lhe rendeu a injusta suspeita de ter matado e devorado o companheiro de infortúnio, em um caso que ficou mundialmente famoso — clique aqui para conhecê-lo em detalhes.