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Salada de nacionalidades no esporte ganhou força nos anos 1990

O tombo de Sifan Hassan, de laranja, com vitória na semifinal dos 1.500m - Matthias Hangst/Getty Images
O tombo de Sifan Hassan, de laranja, com vitória na semifinal dos 1.500m Imagem: Matthias Hangst/Getty Images

Denise Mirás

Colaboração para o UOL, de São Paulo

03/08/2021 04h00

A espetacular chegada de Sifan Hassan, 28 anos, nascida na Etiópia e refugiada aos 15 na Holanda, certamente será uma das imagens mais marcantes destas Olimpíadas de Tóquio-2020. Levou um tombo na última volta da semifinal dos 1.500m no Novo Estádio de Tóquio, levantou e simplesmente arrumou forças para dar uma arrancada e vencer. Doze horas depois estava de volta - e foi ouro nos 5.000m. Incrível.

Holanda, principalmente, e Turquia são exemplos de países, nestas Olimpíadas, que vêm com muitos atletas naturalizados. Mas boom mesmo foi anos 1990. As Federações Internacionais Esportivas não obedecem a regras do Comitê Olímpico Internacional (COI), ao contrário: cada uma decide sobre as suas. Algumas aceitam troca de nacionalidade imediata, outros definem uma quarentena. Outras não admitem. Outras ainda dependem da constituição dos países envolvidos. E, claro, as regras também mudam.

A Austrália, quando ganhou a sede dos Jogos-2000 com Sydney, preparou um plano de oito anos que determinava importação de técnicos e ícones internacionais para várias de suas províncias, criando núcleos específicos de esportes (e esse foi apenas um dos itens brilhantes do projeto, que ainda tinha, por exemplo, convocação por rádio, em todo país, para "peneiras"; adaptação de campeões já veteranos para outros esportes, levando sua experiência — por exemplo, puxando alguém de basquete para tiro esportivos, e olho em filhos de casais de atletas olímpicos).

Fato é que dos anos 1980 para 1990 cresceu uma onda enorme de migração, com atletas da África (principalmente fundistas) mudando para a Europa. Por melhores condições de vida - além do treinamento. Ainda havia estranheza de se ver, por exemplo, um negro representando a Dinamarca.

Outra onda surgia do Oriente: com seus milhares de jogadores de tênis de mesa sem vaga nas seleções nacionais, países como o Canadá começaram a abrir espaço para naturalizações que facilitavam a conquista de medalhas para o país.

A queda do Muro de Berlim provocou algumas novidades no esporte: a Itália, com seus fortíssimos campeonatos de vôlei, passou a receber levas de atletas do Leste Europeu, que agora podiam se deslocar para fora da União Soviética estilhaçada em países independentes.

Seleção de polo aquático da Croácia em Tóquio-2020 - BSR Agency/Getty Images - BSR Agency/Getty Images
Seleção de polo aquático da Croácia, que leva o quadriculado na cabeça
Imagem: BSR Agency/Getty Images

Liberdade para o quadriculado

Até nos uniformes aparecia essa "libertação", com os ex-soviéticos que agora eram russos vestindo camisas no vôlei que execraram a sobriedade. Com desenhos rabiscados e muito mais coloridas, atravessaram a linha do bom-gosto para estonteante. Aliás, a Croácia ganhou a liberdade do visual quadradinho.

Ao mesmo tempo, as conversas se davam com palavras misturadas de italiano com inglês com polonês com... uma salada linguística na levada. Talvez só mandarim tenha ficado fora dessa.

Em Tóquio-2020, outra imagem emblemática reuniu dois atletas, um do Oriente Médio e outro da Europa, não no mesmo pódio... mas dividindo nacionalidades no mesmo degrau mais alto do pódio: Mutaz Essa Barshim, do Catar, e o italiano Gianmarco Tamberi.

O Brasil também teve "importados". E tem. Nestes Jogos de Tóquio-2020, Yoandy Leal faz parte da seleção de vôlei. Depois de anos de rivalidade, a torcida é por medalha de ouro para... cubano! Ops! Para cubano que agora é brasileiro. É... Quantas reviravoltas nesta terra (não-plana)!