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Documentário contrapõe Pelé no auge a idoso Edson e cobra ídolo sobre Ditadura

Pelé, de costas, comemora gol da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 - Divulgação/Netflix
Pelé, de costas, comemora gol da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 Imagem: Divulgação/Netflix

redacao@gazetaesportiva.com (Redação)

23/02/2021 07h00

Na primeira cena do documentário "Pelé", o Rei usa um andador para chegar até uma cadeira e, logo depois de sentar, se livra do objeto com desdém. Lançado mundialmente pela Netflix hoje, o documentário contrapõe o idoso Edson a Pelé no auge e cobra o ídolo sobre sua relação com os governantes no período da Ditadura Militar.

Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, com tom nostálgico, o documentário mostra um senhor com limitações físicas e momentos de emoção. Em duas passagens, o mito que se acostumou a dividir a própria personalidade entre "Edson" e "Pelé" vai às lágrimas.

Em um belo momento do filme, de cadeira de rodas, Pelé encontra antigos companheiros como Pepe, Dorval, Mengálvio e Edu para um almoço. Após ver os amigos dos tempos de Santos se agacharem para cumprimentá-lo, o ídolo procura demonstrar bom humor ao manejar a cadeira com destreza e garante estar bem.

A vulnerabilidade de Edson, hoje com 80 anos de idade, contrasta com o vigor físico sobre-humano de Pelé. O documentário destaca as participações do astro nas Copas do Mundo, com ênfase no tricampeonato conquistado no México em 1970, mas sem esquecer da decepção vivida na Inglaterra em 1966.

O reinado de Pelé coincidiu com parte da Ditadura Militar, iniciada em 1964 e encerrada apenas em 1985. Criticado pela ausência de posicionamento político e considerado "submisso" pelo ex-companheiro Paulo Cezar Caju, o astro é indagado de maneira direta sobre o tema - algumas perguntas, com ares de cobrança, foram mantidas no filme.

De volta a 1969, o documentário mostra o histórico 1.000º gol e, após três dias, um encontro em Brasília de Pelé com Emílio Garrastazu Médici. Meses depois, o general, presidente do Brasil no auge da repressão, exploraria largamente o feito da Seleção na Copa do Mundo do México.

"Eu não era super-homem, não era milagroso, não era nada. Era uma pessoa normal, a quem Deus deu o dom de jogar futebol. Mas tenho absoluta certeza que ajudei muito mais o Brasil com meu futebol e com minha maneira de viver do que muitos políticos que ganham e trabalham para fazer isso", justifica Pelé em um de seus depoimentos.

Desde a redemocratização, o ídolo esteve com presidentes de diferentes matizes políticos, de Fernando Collor a Lula, passando por Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ministro do esporte. FHC, aliás, está entre os entrevistados do documentário da Netflix. Assim como Zagallo, Jairzinho, Gilberto Gil, Benedita da Silva e Juca Kfouri, entre outros.

Sem declarações de Zagallo sobre o assunto, o filme aborda a demissão de João Saldanha antes do Mundial de 1970. Embora tenha a questão política como um de seus pilares, o documentário não mostra que a ideologia de esquerda foi decisiva para a queda do então treinador.

Com imagens maravilhosas do icônico uniforme da Seleção e da bola com gomos pretos e brancos, "Pelé" revisita detalhadamente a Copa de 1970 e dá aos adoradores de Messi e Cristiano Ronaldo a chance de ver o que o camisa 10 era capaz de fazer. No final, a quem interessar possa, o documentário informa que o Rei marcou 1.283 gols.

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