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Mandar técnico embora é a melhor saída? 5 exemplos mostram que nem sempre

Técnico Tite reage durante eliminação do Corinthians para o Tolima, em 2011, na Colômbia - Felipe Caicedo/LatinContent
Técnico Tite reage durante eliminação do Corinthians para o Tolima, em 2011, na Colômbia Imagem: Felipe Caicedo/LatinContent

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

10/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Mandar o técnico embora é o caminho mais utilizado pelos dirigentes no Brasil
  • Na contramão disso, UOL relembra times e seleções que mantiverem técnicos...
  • ... mesmo sob pressão e colheram frutos depois, como Tite no Corinthians
  • Alex Ferguson, no Manchester, e Klopp, no Liverpool, são outros exemplos

A rotina continua no Brasil: o técnico que perde alguns jogos seguidos ou é eliminado de um torneio sendo favorito tem grandes chances de ser demitido. Porém, na contramão dessa linha adotada pela grande maioria dos dirigentes brasileiros, alguns exemplos ao longo da história mostram que mandar o treinador embora nem sempre é o melhor caminho a ser seguido.

O UOL Esporte recorda cinco momentos do futebol em que clubes (ou seleções) resistiram à pressão, mantiveram seus treinadores quando a permanência já parecia improvável e tiveram sucesso em seguida. E não tem como não começar essa lista com a permanência de Tite no Corinthians após a histórica queda para o Tolima, não é mesmo? Confira:

Tite no Corinthians

Tite ergue a taça da Libertadores, conquistada pelo Corinthians em 2012 - Yasuyoshi Chiba/AFP Photo - Yasuyoshi Chiba/AFP Photo
Imagem: Yasuyoshi Chiba/AFP Photo

Em 2011, o Corinthians, então comandado por Tite, tornou-se o primeiro time brasileiro da história a ser eliminado na fase pré-Libertadores — depois de empate sem gols no Brasil e derrota por 2 a 0 fora de casa contra o Tolima.

Antes do jogo na Colômbia, a equipe vinha de três empates consecutivos no Paulistão — contra Bragantino, Noroeste e São Bernardo — e a situação do treinador alvinegro já não era nada favorável. Gritos de 'fora, Tite' foram ouvidos até mesmo no duelo no estádio em Ibagué (Colômbia), mas o presidente Andrés Sanchez não cedeu à pressão e manteve o técnico no cargo.

Ainda na mesma temporada, os resultados começaram a aparecer com o time sendo campeão brasileiro. Já em 2012, o clube viveu o melhor ano de toda sua história com o título inédito da Libertadores (sobre o Boca Juniors) e o Mundial de Clubes (sobre o Chelsea).

Alex Ferguson no United

Alex Ferguson, na época de técnico do Manchester United - Clive Brunskill/Getty Images - Clive Brunskill/Getty Images
Imagem: Clive Brunskill/Getty Images

Talvez não haja exemplo melhor na Europa do que Alex Ferguson no Manchester United para reforçar a tese de que demitir o treinador nem sempre é a melhor decisão a ser tomada.

Na temporada 89/90, já com três anos de United, Alex Ferguson acumulou uma sequência de oito jogos sem vitórias no Campeonato Inglês, sendo quatro derrotas e quatro empates. A saída do técnico parecia questão de tempo, mas então veio uma suada vitória contra o Nottingham Forest, por 1 a 0, pela Copa da Inglaterra.

Em uma entrevista para o jornal Mirror, da Inglaterra, o então dono do Manchester United admitiu que Ferguson ficou bem perto do adeus: "Se não tivéssemos ganho do Forest, o Ferguson teria sido demitido. Tenho 100% de certeza disso."

O time começou a melhorar e, apesar de ter ficado apenas com o 13º lugar no Inglês, conquistou a Copa da Inglaterra, o primeiro título de Ferguson no Manchester United. Era o início de uma longa e vitoriosa parceria entre o técnico e os Red Devils, que durou 26 anos. Foram inúmeros títulos, entre eles 13 do Inglês, cinco da Copa da Inglaterra, dois da Liga dos Campeões e dois mundiais. Ao todo, foram 1497 jogos à frente do United.

Jürgen Klopp no Liverpool

Jurgen Klopp vibra muito após o gol de Salah para o Liverpool - Dave Thompson/AP - Dave Thompson/AP
Imagem: Dave Thompson/AP

Quem vê os resultados recentes do Liverpool — como os títulos da Liga dos Campeões (2018/10) e da Premier League (2019/20) — talvez não lembre que Jürgen Klopp não começou fazendo um trabalho tão bom assim nos Reds. Ele chegou ao clube em outubro de 2015 e teve uma temporada regular. Apesar do vice na Copa da Liga Inglesa e na Liga Europa, o Liverpool terminou a Premier League na oitava colocação, portanto sem vaga sequer para a Liga Europa, e ainda foi eliminado pelo West Ham na quarta fase da Copa da Inglaterra.

A temporada seguinte (16/17) foi ainda pior, com exceção feita ao quarto lugar na Premier League. Entre os meses de janeiro e fevereiro, os Reds acumularam cinco jogos sem vitória no Inglês - incluindo uma derrota em casa pro Swansea e um empate com o Hull City - e ainda foram eliminados em casa por times menores em dois torneios de mata-mata: caíram para o Wolverhampton, na quarta fase da Copa da Inglaterra, e na semi da Copa da Liga Inglesa pelo Southampton.

As coisas só começaram a melhorar na temporada 2017/18, quando o time de Klopp chegou à decisão da Liga dos Campeões - foi derrotado pelo Real Madrid. Ainda assim, conseguiu só um quarto lugar na Premier League e caiu para o West Bromwich, em casa, na quarta fase da Copa da Inglaterra e para o Leicester, pela terceira fase da Copa da Liga.

Parreira na seleção brasileira

Parreira amarra tênis durante treino da seleção em 1994 - Antônio Gaudério/Folhapress - Antônio Gaudério/Folhapress
Imagem: Antônio Gaudério/Folhapress

A pressão em cima de Carlos Alberto Parreira durante as Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994 era grande. O técnico já estava em baixa por conta do mau desempenho do Brasil na Copa América de 1993: o time começou a fase de grupos com um empate contra o Peru e uma derrota para o Chile; a classificação para o mata-mata só veio depois de uma vitória sobre o Paraguai, na terceira e última rodada. Só que, logo nas quartas de final, a seleção acabou eliminada pela Argentina, nos pênaltis.

Menos de um mês depois já vieram as Eliminatórias, ainda sem Romário, que era destaque no PSV e estava acertando sua transferência para o Barcelona. Logo na estreia, o time de Parreira empatou sem gols com o Equador, fora de casa. Uma semana depois, veio a histórica derrota para a Bolívia, por 2 a 0, resultado que aumentou ainda mais a pressão sobre Parreira.

Tudo jogava contra o técnico. Além dos resultados ruins e da ausência de Romário, que tinha o nome pedido pela torcida e pela imprensa e só acabou convocado para a última partida das Eliminatórias, contra o Uruguai, o time vinha apresentando um futebol burocrático e nada convincente. A pressão era quase insustentável, mas Parreira foi mantido no cargo, com direito até a um pacto entre os jogadores para garantir a sua permanência. Com a sequência do trabalho, o Brasil alcançou o tetra no Mundial dos Estados Unidos.

Felipão na seleção brasileira

Romário e Felipão em treino da seleção brasileira em 2001 - Antônio Gaudério/Folhapress - Antônio Gaudério/Folhapress
Imagem: Antônio Gaudério/Folhapress

Luiz Felipe Scolari também não escapou da pressão da torcida e da imprensa antes da conquista da Copa do Mundo de 2002. Sua trajetória começou com derrota para o Uruguai por 1 a 0, em 1º de julho de 2001, pelas Eliminatórias. Logo em seguida, um vexame: a queda para a modesta seleção de Honduras ainda nas quartas de final da Copa América, com derrota por 2 a 0 e um futebol fraco dentro de campo.

A vitória por 2 a 0 sobre o Paraguai em Porto Alegre, nas Eliminatórias, deu um respiro a Felipão, mas a derrota para a Argentina por 2 a 1 no Monumental de Nuñez voltou a colocar pressão no treinador. Não apenas pelo desempenho ruim da equipe, Luiz Felipe Scolari era bastante criticado pela não convocação de Romário. Apesar do forme clamor popular, o técnico não se rendeu e acabou chamando o Baixinho apenas para o seu jogo de estreia, contra o Uruguai.

A classificação do Brasil para a Copa do Mundo de 2002 veio depois de mais três jogos: vitória sobre o Chile (2 a 0), derrota para a Bolívia (3 a 1), em mais um jogo que rendeu críticas e muita pressão ao treinador, e vitória sobre a Venezuela (3 a 0), resultado que finalmente garantiu a vaga da seleção brasileira para o Mundial que deu ao país o pentacampeonato.

A trajetória de Felipão em seleções, aliás, evidencia a diferença de cultura que existe no futebol do Brasil e da Europa. No comando de Portugal, o técnico não se sentiu pressionado como nos tempos de seleção brasileira nem mesmo com a zebra em 2004, quando sua seleção foi derrotada em casa pela Grécia, na decisão da Eurocopa.

O mesmo pode ser dito a respeito de Joaquim Löw, que encarou três eliminações (entre Euro e Copa do Mundo) até o título mundial em 2014, ou de Didier Deschamps, que perdeu a Euro de 2016 em casa na final diante de Portugal sem Cristiano Ronaldo (na maior parte do jogo) e, dois anos depois, conquistou o bicampeonato mundial para a França.

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