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Quem é o"melhor jogador desconhecido" do mundo que morreu na Argentina

O ex-jogador argentino de futebol Tomás Carlovich - El Gráfico
O ex-jogador argentino de futebol Tomás Carlovich Imagem: El Gráfico

Thiago Varella

Colaboração para o UOL, em Campinas

09/05/2020 04h00

Você já ouviu falar dos grandes ídolos argentinos do futebol como Maradona, Messi, Di Stéfano, Kempes, Batistuta e Passarela. Outro deles, desconhecido do grande público, morreu ontem (8) em Rosário. Trata-se de Tomás Carlovich, mais conhecido como El Trinche, que chega a ser apontado por alguns como o maior da história do país.

Sua pouca fama é consequência da carreira de El Trinche, que nunca jogou em um grande clube de Buenos Aires, jamais vestiu a camisa da seleção argentina e preferiu passar a maior parte da carreira no pequenino Central Córdoba, de sua cidade natal, onde conquistou por duas vezes o título da Primera C (1973 e 1982), a quarta divisão argentina.

Maradona já disse que El Trinche foi melhor do que ele. Carlovich tem também como fãs treinadores do quilate de César Luis Menotti, José Pekerman e Marcelo Bielsa.

Mas se ele era assim tão craque, por que nunca explodiu? A resposta envolve uma mistura de realidade e lenda, de um tempo em que o futebol das divisões menores era semi-amador. Existem poucos vídeos de El Trinche disponíveis, e a mística sobrevive graças aos relatos de quem o viu jogar nas arquibancadas dos estádios de Rosário.

El Trinche teve uma carreira de 15 anos como jogador. Era um meia clássico, apesar de vestir a camisa 5, e foi descrito pela revista El Grafico como "elegante, virtuoso e um pouco displicente."

Jogou duas vezes na primeira divisão: pelo Rosario Central no começo da carreira e anos mais tarde pelo Colón de Santa Fé. Mas disputou poucas partidas em ambos porque não gostou daquilo. Preferia curtir a vida e costumava faltar aos treinos e, até mesmo, a algumas partidas.

Na Argentina, dizem que El Trinche inventou a "caneta dupla", um drible que levava os torcedores à loucura. José Pekerman é uma das testemunhas oculares do lance. O jogador dava um "rolinho" no adversário, esperava, e quando o rival vinha, enfurecido, levava outro no sentido contrário.

Outra história curiosa, que El Trinche adorava contar, era da vez em que ele foi expulso de campo após um choque com um zagueiro e teve de voltar ao campo por pressão das arquibancadas. Assustado, o árbitro voltou atrás em sua decisão.

Há também a história de que El Trinche passou 10 minutos seguidos com a bola nos pés durante um jogo, um provável recorde mundial se fosse confirmado oficialmente.

Sua história mais famosa foi quando ele enfrentou a seleção argentina em um amistoso. As estrelas estavam prestes a embarcar para a Copa de 1974 quando enfrentaram um combinado de atletas de Rosário — cinco do Rosario Central, cinco do Newell's Old Boys e El Trinche — como preparação.

O jogo já estava 3 a 0 para os rosarinos quando El Trinche foi substituído, aos 15 minutos do segundo tempo. A partida terminou 3 a 1.

"Foi um baile impressionante. Nesse dia, todo o combinado de Rosário jogou muito bem, mas Carlovich verdadeiramente se superou. A partir daí, começaram a dizer que era um jogador de seleção", disse Daniel Bertoni, ex-astro da seleção argentina que participou do jogo, ao jornal La Nación.

Maradona tinha El Trinche como um de seus ídolos. Em 1993, quando foi jogar pelo Newell's, ouviu de um jornalista que Rosario estava orgulhosa de receber "o melhor jogador de todos". O ídolo respondeu que "achava que era o melhor, mas desde que cheguei a Rosario escutei maravilhas de um tal Carlovich, e assim já nem sei mais".

Em fevereiro deste ano, Maradona viajou a Rosario como técnico do Gimnasia y Esgrima para enfrentar o Rosario Central. El Trinche foi até o hotel e, enfim, conheceu Diego, que entregou uma camisa de presente a ele e escreveu: "Trinche, você foi melhor do que eu".

"A única coisa que pude responder foi: 'Diego, você foi o maior que vi na minha vida. Agora posso morrer tranquilamente'", disse El Trinche.

El Trinche Carlovich faleceu de forma trágica. Ele levava uma vida simples em Rosario e foi agredido por um ladrão que quis roubar sua bicicleta. Depois de dois dias em coma, acabou morrendo aos 74 anos.

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