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Como venda de TV 14 polegadas fez lateral parar no Real Madrid e na seleção

César Prates, ex-lateral do Real, hoje é pastor e vive em Balneário Camboriú-SC - Reprodução/Instagram
César Prates, ex-lateral do Real, hoje é pastor e vive em Balneário Camboriú-SC Imagem: Reprodução/Instagram

Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

28/03/2020 04h00

Nos últimos anos, o ex-lateral César Prates se acostumou a responder perguntas sobre sua relação próxima com o astro Cristiano Ronaldo nos tempos de Sporting Lisboa (POR): "Não que eu precise ser o foco, mas normalmente as pessoas só me ligam em momentos tipo o aniversário dele." Ex-Corinthians, Internacional, Real Madrid e seleção brasileira, ele completa dez anos longe do futebol em 2020 e conta ao UOL Esporte sua própria história, que só deu certo por causa da venda de um aparelho de TV de 14 polegadas.

Nascido na cidade gaúcha de Aratiba e, mesmo destro, forçado pelo pai a finalizar com o pé esquerdo nas peladas locais de negros contra brancos, Prates encarou mais de 400 km de viagem até Porto Alegre para fazer um teste no Internacional aos 17 anos. É justamente nessa aventura que o inusitado aparelho de televisão entra na história.

"Foi em 1997 que isso aconteceu: eu cheguei com 17 anos no Inter e minha chegada foi por causa de uma televisão de 14 polegadas preta e branca que o meu pai vendeu e comprou a passagem (risos). Pensa que loucura. Ele vendeu a televisão para completar o valor e disse que arrumaria o restante se caso precisasse voltar. Mas eu já saí determinado que eu não ia voltar. Mesmo que eu não passasse na avaliação, eu não ia voltar. Eu fiz o teste na segunda e na terça ou quarta-feira eu já estava aprovado", relembra o ex-jogador.

César Prates e André Cruz nos tempos de Sporting de Lisboa - Reuters
César Prates e André Cruz nos tempos de Sporting de Lisboa
Imagem: Reuters

César Prates atuou somente um ano nas categorias de base do Inter até ser promovido ao elenco profissional e estrear sob o comando de Antônio Lopes. Rapidamente se tornou titular e aos 21 anos já disputou o primeiro jogo pela seleção brasileira. Em seguida, foi negociado com o Real Madrid. Em tempos de quarentena no combate ao coronavírus, ele tem uma lembrança triste sobre sua chegada ao gigante espanhol.

"O Real Madrid sempre teve essa mentalidade de comprar jogadores jovens pra formar, emprestar, criar uma identidade europeia e colocar o lema deles, que se chama 'espírito Real Madrid de ser'. Então, não é simplesmente chegar e jogar. Quem me comprou essa semana faleceu com o coronavírus, o Lorenzo Sanz que era o presidente. Essa semana eu fiquei triste com isso tudo", lamenta o brasileiro.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com César Prates:

Logo após sua contratação pelo Lorenzo Sanz, como foi sua trajetória no Real Madrid?

"Na época ele, disse que eu era uma aposta para o futuro. Nesse período [da contratação], eu estava com a seleção e fiquei seis meses no Real Madrid jogando na equipe B, jogando no time principal, ia mesclando. O que aconteceu é que eu queria permanecer para ficar na seleção e aí o Vasco da Gama fez uma proposta para o Real Madrid, que me emprestou. O Real Madrid entendeu assim: 'vamos amadurecer ele no próprio país dele', então por isso que eu vim para o Brasil, para amadurecer. Eu fiquei dois anos no Brasil emprestado, e o Real Madrid não me deixando por mais de seis meses em cada clube, para não criar vínculo. Foram seis meses no Vasco, seis meses no Coritiba, seis meses no Botafogo e seis meses no Corinthians, e aí depois eu fui vendido para o Sporting de Lisboa."

Entre essas passagens, uma se destaca: campeão brasileiro pelo Corinthians em 1999. Como foi essa trajetória?

"O Vanderlei Luxemburgo tinha saído e quem ficou no lugar dele foi o Oswaldo Oliveira. O Corinthians foi campeão brasileiro em 1998 e em 99, nós fomos campeões brasileiros com o Oswaldo. A fase de Corinthians foi muito boa, porque eram os últimos seis meses que eu ficaria no Brasil e eu tinha vindo do Vasco, campeão brasileiro de 1997, no Coritiba, vice-campeão paranaense, vice da Copa do Brasil pelo Botafogo e campeão brasileiro pelo Corinthians. Então, eu estava adquirindo o 'espírito Real Madrid de ser', que era o espírito de conquista, dois anos e quatro finais pelos clubes emprestados."

César Prates acumula 29 partidas e dois gols marcados pelo Corinthians em 1999 - Lili Martins/Folhapress
César Prates acumula 29 partidas e dois gols marcados pelo Corinthians em 1999
Imagem: Lili Martins/Folhapress

E depois aconteceu sua chegada ao Sporting de Lisboa. Como foi?

"Chegando no Sporting teve que estipular o valor do meu passe, e ao estipular o valor eu fiz um contrato de seis meses também lá. E o que aconteceu: eu disputei a final da competição e com três meses da estreia eu fiz gol, 1 x 0 foi gol meu. O lateral não passava do meio-campo e eu acabei fazendo os dois setores, eram os duelos com os extremos e eu ajudava, então, mudou todo o estilo de jogo. O Campeonato Português era uma loucura, porque os portugueses gostam de estudar o futebol, e eu cheguei com uma característica diferente, marcando e apoiando, eu não falhava atrás e ainda chegava na frente, eu me tornei o melhor assistente do time. Então, o que aconteceu, mudou tudo, o Sporting efetuou a minha compra e eu nem sabia."

E foi a época do surgimento do Cristiano Ronaldo para o futebol. Você viu?

"Sim, eu acompanhei tudo, ele estava lá conosco, era um menino que tinha 16 anos na época, eu tenho 10 anos mais do que ele, hoje ele completa 35 e eu 45. Ele tinha 16 anos, era um menino, e eu tinha 26 anos, era um período que ele estava lá. Ele era um menino que gostava de aprender desde cedo, então juntou a fome e a comida, porque eu também gostava de aprender e ele gostava de aprender. A gente sentava, eu conversava muito com ele. Eu era próximo, quando eu ia cobrar falta, ele estava sempre junto. Foi muito interessante o convívio com ele."

Ele aprendeu com você a cobrar faltas?

"É porque os dois batedores que tinha no Sporting era eu e o André Cruz. Para aprender a bater com o pé esquerdo, o André Cruz tinha uma característica, a minha característica era diferente, a minha batida na bola era diferente. Por ser destro, eu ensinava, ajustava o corpo dele, mostrava onde se posicionar para poder alcançar os dois lados do gol para poder bater, tanto do lado direito ou esquerdo do goleiro, o tempo de partida quando o juiz apita você já parte para a bola, você quebra o tempo do goleiro, o ventinho da bola, como ajustar ela por baixo de como você bate, vai virar a bola também... São detalhes que eu aprendi com o Dorinho, no Internacional. O Dorinho foi jogador do Internacional, ele quem me ensinou isso aí e eu fui passando para frente. A fase que ele estava ali conosco, nós ganhamos o título no primeiro ano, e no segundo ano houve a transição, mudou o treinador e não era uma fase boa do Sporting, aquele ano nós só fomos campões da Taça de Portugal. Nós vimos ele, torcedor do Sporting, com 16 anos, às vezes indo para o banco de reservas, estava sendo amadurecido, então ele chorava, chorava, porque nós perdíamos e o time não estava numa fase boa. A gente estava sempre por perto passando a mão na cabeça ajustando ele, ajudando ele."

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Você e o Cristiano Ronaldo já conversaram depois dessa época?

"Você não vê nada de mim relacionado a futebol, às vezes eu atuou num jogo de seleção brasileira de masters, principalmente nos jogos beneficentes que são feitos, mas ligado a futebol, a um jogo que eu vá comentar, coisas assim? Não, eu estou totalmente fora, o César Prates pós-atleta ele é totalmente voltado ao ministério pastoral que ele tem e por isso eu não tive contato com mais ninguém, com mais nada relacionado com o futebol e com o Cristiano também não. Um que eu falo, que eu tive contato, é com o Filipe Luis, do Flamengo, poucas vezes eu converso com ele, mas senão....eu gosto de ficar no meu lugar secreto."

O que você diria a ele se o visse?

"Olha, o Cristiano foi exemplo de uma obsessão focada e a minha carreira também foi isso. Se eu não tivesse a obsessão focada por aquilo que eu entendia, que era usar toda a minha força e velocidade e a aliar com técnica e com sabedoria dentro de campo para jogar bem posicionado, eu não teria chegado em lugar nenhum. O Cristiano foi essa obsessão focada e o que eu dou para ele é os parabéns. A gente fica feliz que ele tenha chegado no lugar que ele me falou um dia que chegaria. Tem uma coisa que ficou muito clara para mim foi aquilo que eu ouvi do Cristiano, talvez poucas pessoas ouviram, depois ouviram publicamente ele falar, mas eu pessoalmente, estando com ele naquele dia e eu ouvi ele falando assim: 'que ele iria se tornar o melhor jogador do mundo'. Então, isso aí é uma loucura e você vê ele se transformar no melhor jogador do mundo. Entre ele e Messi, o Messi é um talento, nasceu para aquilo, mas o Cristiano não, ele nasceu com uma condição, um dom para jogar futebol, e ele se tornou nessa obsessão focada um jogador de alto nível. E é por isso que o considero o melhor do mundo. O talento já está em você, no caso o Messi, o dom está dentro de você também, mas tem outros casos que você precisa desenvolver. Eu aprendi na minha vida a desenvolver as coisas, por exemplo, eu estou aqui na minha casa, eu estou com o violão, tenho o meu sistema de som aqui, a minha família toda toca e canta, todos os meus tios, avós e o que acontece? Eu não, eu só queria o futebol, mas chegou um tempo que eu desenvolvi isso que estava dentro de mim, eu tinha o dom para tocar e pra cantar, e o que eu fiz? Desenvolvi, com o Cristiano foi a mesma coisa, não é como alguns que não fazem técnica vocal, não fazem nada e já acontece, não, eu desenvolvi isso e com o Cristiano foi isso. Entre ele e o Messi, o Messi nasceu com aquilo, você vê que ele treina normalmente, e o Cristiano não treina normalmente, o Cristiano chega antes e sai depois."

Além de Real Madrid e Sporting você também defendeu Galatasaray, Livorno e Chievo fora do Brasil. Você viveu episódios de racismo?

"Eu passei pelas piores coisas no futebol. Não é culpar os alemães e nem os italianos, mas jogando a Champions League na Alemanha, eu peguei a bola no estádio, moderno já, o pessoal me cuspia, me chamava de negro do diabo, eu entendia muita coisa. Eu vim de uma colônia italiana, polonesa e alemães em Aratiba e também joguei também com jogadores que me diziam o que estava sendo dito pelos torcedores. Na Alemanha, eles me chamavam de 'negro do diabo'. Primeiro, eu sou negro. Nunca fui favorável a essas ideologias ou orgulho negro, nós não temos que ter orgulho de nada. Na verdade, agora eu tenho orgulho de ser negro, mas eu me sinto ferido com isso? Nada disso. Eu jogava no Sporting de Lisboa e nós fomos jogar na Alemanha, quando eu peguei a bola e me cuspiram, me xingaram. Eu lembrei que Jesus passou por aquilo, para mim era motivo de honra ser cuspido (risos). O que eles queriam é que eu perdesse o foco, o rendimento que eu estava tendo, queriam me bloquear. Mas eu tinha a obsessão focada, o meu nível de concentração era muito grande. Na Itália também, no Olímpico de Roma, tinha mais de 60 mil pessoas, e eu jogando contra a Lazio. Toda a vez que eu ia tocar na bola o estádio todo, uuu uuu uuu [som de macaco]. Eu nunca peguei a bola, desci corredor abaixo, nunca joguei a bola contra a torcida, nunca mandei um cala a boca, isso nunca, nada disso. Um dia disseram que eu não ia chegar a lugar nenhum. Naquele dia, eu dei mais duas voltas no campo, eu aprendi a canalizar isso tudo para eu crescer nesses momentos de adversidade. Naquele jogo nós estávamos com um jogador a menos e eu fui o melhor jogador em campo. Nosso time ganhou da Lazio lá e eu fui escolhido o melhor jogador em campo com todo esse nível de hostilização. Isso aconteceu quando eu jogava no Livorno. Na Turquia, jogando pelo Galatasaray ,a gente foi jogar com um time menor fora de casa, a bola na lateral, quando eu vi uma garrafa e uma pedra pegou na minha mão, me sangrou a mão. Mas eu não me escondi, entendeu?".

E por que você parou tão cedo, em 2010, aos 35 anos?

"No Náutico já não era para eu ir jogar. Tinha um amigo, o Alexandre Gallo, nessa época ele era o treinador e ele me disse, 'César, vem aqui, nem é tanto pelo o que você vai jogar, mas é sim por tudo aquilo que você vai me ajudar a administrar grupo e administrar o crescimento de um projeto que eles querem fazer aqui no Náutico, então. você é perfeito'. Eu fui, mas o meu coração já não estava mais para isso e parei."

Hoje você é pastor. Quando se tornou evangélico?

"Em 1992, quando eu cheguei em Porto Alegre e fiz o primeiro gol mais importante na minha vida, que foi quando eu aceitei Jesus. Na minha cidade, as pessoas já diziam assim: 'Ah, ele é atleta de Cristo'. Mas eu não sabia o que era. Só que tinha aniversário e dava 22h eu ia embora porque tinha jogo para jogar lá no interior e eu ia para casa, não bebia, não me envolvia com as coisas que todo mundo faz. Eles diziam que eu era atleta de Cristo, quer dizer, já era o meu comportamento. Quando eu cheguei em Porto Alegre, eu entreguei a minha vida para Jesus e conheci esse amor que me cativou. Hoje ainda estou tentando entender esse amor, porque depois teve o segundo gol mais importante, foi quando eu disse: 'Agora, Senhor, tu deu início à minha carreira. Agora, o Senhor pode dar o fim'. Foi quando três meses depois que eu estava no Náutico eu senti no meu coração tudo isso, daí eu rescindi o meu contrato e sabia que eu já não serviria mais."

E quando virou pastor?

"Olha, deixa eu explicar, pastor a gente não se torna, a gente é, então, Deus me preparou para isso. Deus já tinha isso dentro de mim, e eu só fui me formando, o que eu dei de Bíblia para os meninos... Eu não me tornei pastor, eu me formei dia após dia até chegar o dia que eu fui reconhecido pelo homem, foi quando alguém, um pastor de uma igreja com a autoridade máxima coloca óleo na sua cabeça e diz assim: 'Agora, nós ordenamos diante dos homens e diante da congregação, pastor'. Mas as minhas atitudes já eram de pastor, primeiro a gente, depois a gente é reconhecido pelo homem. Já tem sete anos que eu sou pastor."

Como é sua vida hoje? Como você ajuda as pessoas? Quem é o pastor César Prates?

"No posto de gasolina que eu abasteço aqui em Balneário Camboriú [Santa Catarina], um dia eu fui lá e tinha um senhor cheirando a cigarro. Eu poderia simplesmente ignorar, mas Deus me ministrou algo no meu coração e senti que ele precisava de um abraço. Eu dei um abraço nele e ele começou a chorar, ele me disse que tinha muito tempo que ele não era abraçado. Hoje, o meu estilo de vida é esse, amar pessoas e não escolher quem. É o estilo de vida que Jesus me ensinou e é isso o que eu faço. Quando eu jogava dentro de campo, os caras tinham se machucado e eu passava por eles e dizia: 'seja curado em nome de Jesus', eram meus adversários. Mas não eram adversários para mim, eles estavam com dor, passando por um problema, e eu não queria que eles passassem por aquele problema. Na igreja eu sou conhecido como Pastor Chocolate para as crianças, as crianças não chamam de César, nem sabem quem é o César Prates. Eu entro na igreja onde eu me congrego e as crianças vêm correndo para me abraçar. No Instagram, você vai ver fotos minhas com os meus filhos, minha esposa, eu amo ficar em casa. E o que está acontecendo hoje no mundo? Todo mundo tem que ficar dentro de casa. Então, o meu maior legado, e eu faço parte de um ministério chamado família, é exatamente esse, mostrar o modelo de família: César Prates casado há 23 anos, César Prates pai de dois filhos, ex-jogador de futebol e casado há 23 anos com a mesma mulher. Será que Deus permitiu que um coronavírus se instalar no mundo inteiro para que todo mundo parasse e voltasse para dentro de casa e cuidasse da família outra vez?".

E você tem outros negócios?

"Eu tenho os meus negócios pessoais e, mesmo assim, eu aprendi a depender de Deus. Todo mundo depende do seu braço, depende da sua força, e eu, pelos princípios e fundamentos que eu aprendi na Bíblia, aprendi a depender de Deus. Mas, independente disso, eu comprei terras, comprei propriedades, apartamentos, tenho essas coisas e, mesmo com esse coronavírus, não atrapalhou e não vai atrapalhar."

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