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Decisão da Libertadores mistura Champions com futebol raiz sul-americano

Torcedores do Flamengo observaram uma sessão de treino do River em casa vizinha ao estádio - Xinhua/Mariana Bazo
Torcedores do Flamengo observaram uma sessão de treino do River em casa vizinha ao estádio Imagem: Xinhua/Mariana Bazo

Leo Burlá e Rodrigo Mattos

Do UOL, em Lima (PER)

23/11/2019 09h00

É fato: a final única da Libertadores é uma tentativa deliberada de copiar o sucesso global da Liga dos Campeões da Europa. Isso significaria a morte do futebol sul-americano de raiz como tantos torcedores lamentaram? A primeira decisão em um jogo, entre Flamengo e River Plate, mostra que o jogo, sim, tem uma nova cara, mas isso ainda não apagou as características singulares do esporte no continente.

A "faceta Champions" pelo Monumental Universitário começa pelo estádio todo coberto por faixas e banners com logomarcas e frases oficiais do torneio. Estão lá a taça estilizada que é símbolo renovado da competição, o slogan "Glória eterna". Das caixas de som sai o hino, um trecho da Nona de Bethoven para abertura. Temos aí todo um empacotamento de marketing.

Mas a cara da América do Sul está lá pelas arquibancadas sem assentos no fundo do estádio, nas camisetas à venda amarradas na grade, na cara de Lolo Fernandez, ídolo do Universitario, desenhada na arquibancada, ou no próprio símbolo do clube Universitario cravado na montanha ao fundo.

Monumental de Lima - Raul Sifuentes/Getty Images - Raul Sifuentes/Getty Images
Rosto de ídolo do Universitario está na arquibancada do estádio
Imagem: Raul Sifuentes/Getty Images

A Champions "invade" a Libertadores com o show de Anitta na abertura e as restrições para torcedores na arquibancada: eles não poderão usar nem cinto e óculos (regra imposta pela lei peruana). Também cabe aqui a criação da "Embajada del Hincha", cópia do modelo da Fifa de "Fan Fest" para atender torcedores sem ingresso.

Já a torcida sul-americana se traduz na viagem de ônibus de torcedores do Flamengo por 145 horas e 6.030 kms para ir do Rio a Lima (uma saga contada pelo UOL Esporte) e na manifestação dos grandes grupos de rubro-negros e argentinos que tomaram o centro da capital peruana. E está em detalhes como o torcedor que colou um cartaz com o nome de seu bar carioca preferido na parede do bar adotado na capital peruana (Chico's, tradicional ponto de encontro de rubro-negros perto do Maracanã).

O jogo fica com jeito de Champions quando tem dois adversários do porte e do investimento desses Flamengo e River Plate. Foram mais de R$ 200 milhões de investimento feito pelo clube carioca em 2019, foram mais de R$ 100 milhões gastos pelo River em 2018 para base do time. E, por isso, haverá jogadores que atuaram na final da Liga dos Campeões, como Filipe Luís e Rafinha, e do outro lado um 'europeu' como Enzo Perez, além de diversos selecionáveis de Argentina e Brasil.

Mas a singularidade da América do Sul irrompe novamente nas pernas de Bruno Henrique, um jogador que atinge o seu auge apenas aos 28 anos. Era para nem ter sido profissional pois quase desistiu da profissão, podia ter interrompido a carreira por um problema no olho no Santos, foi e voltou da Europa sem ter sido bem-sucedido. E é agora o jogador com mais lances decisivos na Libertadores, quase um por jogo.

A Libertadores se aproxima da Champions quando sua decisão será transmitida em até 170 países —até a inglesa BBC faz parte desse pacote. Todas as imagens da final da Libertadores são feitas por uma produtora da Conmebol, e há restrição na distribuição para quem não adquiriu os direitos, algo que não acontecia antes. Essa é mais uma mudança seguindo o padrão das competições da Fifa.

A marca sul-americana, no entanto, aparece nas dificuldades que os torcedores têm para chegar a Lima por problemas na malha aérea ou na lona improvisada pedida por Jorge Jesus no campo de treinamento do Flamengo para se proteger de espiões. Lembrando que Lima não era nem mesmo a opção inicial para receber a partida. Ao fundo, enquanto o treino rubro-negro rolava, um torcedor peruano em um prédio baixo ao lado tocava um berrante. Para lembrar que um personagem assim não tem na Champions.

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