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Copa 2018

Brasil e México lutam há 4 anos pelo fim dos gritos homofóbicos em estádios

GUSTAVO GRAF/Reuters
Imagem: GUSTAVO GRAF/Reuters

Brunno Carvalho

Do UOL, em São Paulo

30/06/2018 20h14

Classificação e Jogos

Os quatro anos entre a Copa do Mundo de 2014 e a da Rússia tiveram algo em comum envolvendo Brasil e México: a luta pelo fim dos gritos homofóbicos nos estádios. O “puto”, uma tradição mexicana, foi importado pelos brasileiros principalmente após o último Mundial. Com uma adaptação mantendo o teor homofóbico (aqui se diz "bicha"), o grito se tornou um problema para os dois países, adversários nas oitavas de final desta segunda-feira, em Samara, às 11h (de Brasília).

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O grito "original", inclusive, foi entoado no duelo entre as duas seleções em Fortaleza, em 2014, no último duelo entre elas em uma Copa. Torcedores mexicanos se uniram no famoso coro quando o goleiro Julio César partia para os tiros de meta. Desde então, a ofensa ganhou mais força entre os brasileiros. Mundo afora, a preocupação com manifestações como essa também cresceu.

Durante as Eliminatórias para a Copa de 2018, a Fifa distribuiu mais de R$ 4 milhões em multas devido a cantos homofóbicos em partidas das mais variadas seleções. Brasil (R$ 336 mil) e México (R$ 422 mil) foram algumas das seleções mais punidas – o Chile liderou com R$ 794 mil.

O cenário se tornou uma dor de cabeça para a CBF. A entidade foi punida em cinco partidas da seleção nas Eliminatórias. Os torcedores infringiram o artigo 67 (conduta imprópria no estádio) do código disciplinar da Fifa em jogos contra Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Paraguai.

O México convive com investigações relacionadas ao tema desde a última Copa, quando a federação foi inocentada. Na época, o então técnico da seleção mexicana, Miguel Herrera, disse não ver problemas no grito. “Há coisas mais importantes que solucionar uma expressão de uma pressão ao goleiro adversário que o México faz há tempos”.

Para tentar conter a torcida, a Federação Mexicana de Futebol lançou uma campanha em 2016 com seus principais jogadores pedindo o fim do grito. A medida de nada adiantou e as ofensas continuaram até a Copa do Mundo da Rússia.

Na estreia do torneio contra a Alemanha, os gritos de “puto” continuaram a ser ouvidos no estádio. Os próprios jogadores da seleção chegaram a usar as redes sociais para pedir que a torcida não adote mais tal prática.

Durante participação no “Seleção SporTV”, o comentarista Walter Casagrande criticou a torcida mexicana. O ex-jogador defende que o árbitro paralise as partidas do torneio caso os gritos aconteçam.

Grito ficou famoso no Brasil como provocação a Rogério Ceni

A primeira vez em que o grito se destacou no Brasil foi no clássico entre Corinthians e São Paulo pelo Campeonato Paulista de 2014. Na ocasião, a cada vez que o goleiro Rogério Ceni ia cobrar um tiro de meta, os corintianos se preparavam e soltavam em uníssono o grito de “bicha”.

Um processo disciplinar chegou a ser aberto no TJD-SP (Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo), mas o órgão entendeu não se tratar de homofobia e arquivou o caso. Em sua decisão, Mauro Marcelo de Lima e Silva, presidente do órgão, disse não entender o ato como preconceito, mas um “deboche”.

“Foi mais um deboche público, uma zombaria, uma piada em coro, uma grande piada politicamente incorreta motivada pelo que a psicologia social e de massa chama de ‘efeito manada’, em que os torcedores – dentro de seu grupo e levados pela emoção do momento – esquecem qualquer tipo de ética, valor moral e bons costumes”.

Dois anos mais tarde, a própria Gaviões da Fiel, principal torcida organizada do Corinthians, chegou a se manifestar contra o grito. Na visão deles, contudo, o gesto contra Rogério Ceni não passava de uma “brincadeira”.

“É uma coisa natural gritar 'bicha' no tiro de meta, pela rivalidade com o Ceni. Mas ele nem joga mais, e nem era bicha. Nós não temos nada contra”, disse Chico Malfitani, um dos fundadores da organizada.

Nas partidas do Corinthians, o grito parou de ser disparado pela torcida organizada, mas seguiu firme entre outros torcedores presentes no estádio. O clube chegou a lançar um manifesto pedindo o fim da prática.

A torcida do Corinthians não foi a única a adotar esse grito. Logo após a Copa do Mundo, a ofensa se espalhou pelos estádios de todo o país. Durante um clássico entre Palmeiras e São Paulo no início deste ano, um palmeirense assumidamente gay jogou luz ao problema ao criticar o ato de sua própria torcida contra os são-paulinos.

“A torcida do Palmeiras, em sua homofobia típica, canta que 'todo viado nessa terra é tricolor'. Parece que encontrei uma exceção à regra: eu mesmo, viado e palmeirense, e que cola no estádio em todos os jogos”, escreveu William De Lucca no Twitter ainda durante o jogo. O caso viralizou e o torcedor chegou a ser alvo de ameaças.

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