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Rodrigo Mattos

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como o Barcelona passou de clube poderoso a quebrado com buraco de R$ 3 bi

Dembélé comemorando o gol feito pelo Barcelona no Sevilla pela La Liga - GettyImages
Dembélé comemorando o gol feito pelo Barcelona no Sevilla pela La Liga Imagem: GettyImages
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

07/10/2021 04h00Atualizada em 07/10/2021 12h22

Em junho de 2015, o Barcelona atingia seu ápice como um dos clubes mais poderosos do mundo ao ganhar a Champions com o trio Messi, Neymar e Suárez. Em outubro de 2021, a diretoria barcelonista anuncia que o clube estaria falido se fosse uma empresa. Foi preciso apenas uma gestão para fazer ruir as bases da agremiação que mais encantava e gerava renda no mundo.

O ex-presidente Josep Maria Bartomeu, dirigente de 2014 e a 2020, foi o responsável pela condução do clube neste período. Até renunciar no ano passado. O quadro real do Barcelona, no entanto, só foi revelado nesta quarta-feira pela nova diretoria ao anunciar os resultados das contas e da auditoria feita no clube.

As perdas do Barcelona na última temporada (déficit) foram de 481 milhões de euros (R$ 3,05 bilhões). Esse montante é decorrência de receitas abaixo do esperado e gastos bem acima do que era viável. Para se ter ideia, a despesa total do Barcelona foi de 1,1 bilhão de euros, enquanto a receita atingiu 631 milhões de euros.

Trata-se de um dos clubes que mais arrecada no mundo —no ano passado, foi a agremiação de maior renda. Mas seus números estão em queda: houve redução do dinheiro da TV, comercial e obviamente de bilheteria por causa da pandemia de coronavírus.

Mais importante do que isso, a despesa do Barcelona é recorde, com crescimento de 19% em relação ao ano anterior. Por quê? A auditoria identificou um aumento de 61% na folha salarial durante três anos. Explica-se: a agremiação passou a oferecer benefícios extras a atletas contratados —bônus de lealdade, prêmios por fim de contrato. A folha do clube fecharia 835 milhões de euros no ano (R$ 5 bilhões).

Além disso, um clube que vendeu Neymar por cifra recorde estava no vermelho em transações entre atletas. O que se explica por contratações como Coutinho, Dembelé, Griezmann.

Por isso, foi necessário que a nova diretoria cortasse a ponto de perder o maior ídolo da história do clube, Messi. Além dele, foram atletas como Griezmann, Suárez (este no meio do ano passado).

Ainda assim, a redução não foi suficiente para equilibrar as contas. O Barcelona não cumpriu os requisitos de fair play financeiro nem da UEFA, nem da La Liga. A dívida explodiu: atingiu a marca de 1,350 bilhão de euros em compromissos, em março de 2021.

Desse total, há processos movidos contra o clube que provavelmente serão perdidos, contingência que só foram descobertas na auditoria, antecipações de TV. Lembra certos clubes brasileiros. Os compromissos a curto prazo (isto é, para serem pagos em um ano) somam 470 milhões de euros. Isso significa que o clube tem de gerar uma receita para pagar salários, suas outras contas, mais um extra deste montante.

Por isso, o CEO do Barcelona, Ferran Reverter, falou em caixa zero e dificuldade até para pagar salários quando a nova diretoria assumiu o clube. Foi preciso fazer empréstimos de emergência para evitar parar de vez a agremiação.

No sufoco, e com o elenco desmantelado, o Barcelona faz um plano para longo prazo, até 2026, para se reorganizar. Um dos primeiros passos é pegar empréstimos em torno de meio bilhão de euros com bancos americanos. Terá de usar seus ativos como garantia. Assim, espera sair do sufoco imediato para se ajeitar.

A longo prazo, a aposta é usar a base —estipulou que 12 atletas do elenco teriam de ser de La Masia—, consertar os problemas estruturais no CT e estádio, e aumentar as receitas com projetos como Espai Barcelona. O programa, que atualmente representa mais despesas, tem o objetivo de se transformar em um atrativo para turistas.

A dívida do Barcelona tem uma proporção em torno de 2 para 1 com a sua receita e há acesso a linhas de crédito internacional, algo impensável para clubes nacionais. Portanto, a salvação é plausível, mas não sem sofrimento. Será preciso esquecer a megalomania dos últimos anos e reconstruir o clube nas bases que o elevaram até o patamar de 2015.

Rodrigo Mattos