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Rodrigo Mattos

Flamengo permite visita de Bolsonaro para autopromoção e fica com prejuízos

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

24/01/2021 04h00

Em uma sexta-feira feira à tarde, horário de expediente, em meio a uma pandemia de coronavírus, o presidente da Republica, Jair Bolsonaro, decidiu visitar um CT em Brasília para ver o treino do Flamengo. O clube, cuja diretoria tem mantido estreita relação com seu governo, abriu as portas e parte dos jogadores apareceu em vídeo confraternizando com o presidente.

A visita foi surpresa, não tinha nenhum sentido prático e foi avisada ao Flamengo quando faltava uma hora para acontecer, segundo relatou o colega Léo Burlá. Embora não estivesse presente, a cúpula do clube decidiu permitir a visita e pediu que o departamento de futebol o recebesse. O Flamengo optou por não divulgar imagens.

Obviamente, pouco tempo depois, aliados do presidente já divulgavam as imagens do encontro de Bolsonaro com os jogadores, com fotos sem máscaras e clima descontraído com os jogadores. Não é a primeira vez que Bolsonaro cola sua imagem à do Flamengo: costuma usar camisa, fazer reuniões e até editou uma MP por influência do clube. Já fez isso com outros clubes também como o Palmeiras. Mais recentemente, foi com o Santos na Vila Belmiro. Não tem nada de espontâneo: é uma estratégia de se manter conectado ao povo que assiste futebol.

Decidiu voltar a usar esse expediente justamente no dia em que a pesquisa Datafolha apontava um aumento considerável da rejeição de Bolsonaro. Sua desaprovação saltou de 32% para 40% por conta do boicote e erros cometidos no combate ao coronavírus. Sua aprovação caiu de 37% para 31%. Já há um esforço do governo para melhorar a comunicação e imagem de Bolsonaro. A visita ao Flamengo, portanto, está longe de ser gratuita e ajuda sua campanha.

Há outro que pode se beneficiar do encontro: Marcus Braz é vereador no Rio de Janeiro e, como político, é bom estar próximo do presidente. Estava sorridente nas fotos. Jogadores que indicam simpatia com o presidente, casos de Gabigol, Filipe Luís, Diego Alves, Arão, provavelmente também ficaram satisfeitos ao encontra-lo. Óbvio que têm todo direito de gostar do político que quiserem, mas ali era um ambiente de trabalho.

E o Flamengo: o que ganha nisso? O time rubro-negro tinha obtido uma vitória diante do Palmeiras que poderia ser um ponto de virada no Brasileiro. Enfrentará o Athletico, neste domingo, para tentar se afirmar. Neste contexto, a diretoria do Flamengo desviou a atenção dessa campanha ao permitir um encontro que quebrava qualquer protocolo para prevenção de coronavírus já que quase todos aparecem nas imagens sem máscaras. O técnico Rogério Ceni vai cumprimentar um dos ministros do presidente. O elenco já passou por um surto de Covid - lembremos que a reinfecção é bem possível.

Em relação à imagem, o Flamengo também sofreu prejuízo. No sábado, após o encontro, o clube postou uma campanha para ajudar com abastecimento de oxigênio de Manaus. A reação de seus torcedores foi quase inteiramente de críticas por verem uma contradição entre a campanha e a recepção a Bolsonaro que tem grandes responsabilidades no caos da saúde no Amazonas. É só ler as notícias que mostram que o governo federal sabia antes do problema e nada fez com antecedência. Lembremos que o torcedor do Flamengo é também o consumidor e seu gerador de renda. Qual o sentido em contrariar uma boa parte deles sem ganho nenhum para o clube?

De saldo, só sobram prejuízos para o clube, e benefícios para o presidente do encontro. O argumento de que não se recusa uma vista de presidente não faz nenhum sentido. Se for assim, o Flamengo vai se deixar usar politicamente sempre que for conveniente para Bolsonaro? Difícil entender que alguém que teoricamente deveria preservar os interesses do clube tenha permitido a visita.

Errata: o texto inicialmente deu a impressão que o vice-presidente de Futebol, Marcus Braz, tinha autorizado a visita e não quis divulgar imagens. Na realidade, a visita foi aprovada pela diretoria do clube que decidiu por não mostrar imagens. O texto foi corrigido.

Rodrigo Mattos