PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Mattos

Maradona é amado porque se abriu ao mundo até em suas falhas

maradona argentinos - Reprodução YouTube
maradona argentinos Imagem: Reprodução YouTube
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

25/11/2020 18h05

Quando a Argentina fez o gol da classificação diante da Nigéria, ainda na Copa-2018, Maradona fez gestos ofensivos para o público da tribuna do estádio de São Petesburgo. Antes disso, divertindo-se, dançara no local ou era agarrado por seguranças pendurado no vidro. Depois, foi levado para o hospital passando mal. Mais tarde, houve boatos infundados de que tinha morrido, sua filha teve que desmentir.

Do setor de imprensa, jornalistas tratavam de acompanhar a tribuna tanto quanto olhavam para o campo. Por que Maradona chamava a atenção para si até quando Messi estava em campo, e ele fora. Era algo que lhe era natural: atrair os olhares do público.

Essa é só uma das cenas públicas dentro e fora de campo que revelam um misto de Deus e humano exposto em todas as suas qualidades inigualáveis e em seus defeitos. Seu maior golpe, um gol de mão, se tornou na "mão de Deus". Seu maior feito é talvez o gol mais visto de todos os tempos do futebol mundial em que desfila sobre os ingleses como uma vingança pela Guerra das Malvinas.

Esse ser falho e aberto dava a cada um direito de se sentir um pouco parte de sua história. Não era um ídolo distante e inalcançável como os astros atuais no Instagram cujos defeitos só se revelam em uma indiscrição ou em momentos no campo onde suas imagens ainda não são tão controladas.

A esse respeito, o escritor Eduardo Galeano, um fã confesso, foi quem descreveu melhor a relação do craque argentino e o público: "Diego Armando Maradona foi adorado não só por seus prodigiosos malabarismos, se não também por que era um Deus sujo, pecador, o mais humano dos Deuses. Qualquer um podia se reconhecer nele uma síntese ambulante das debilidades humanas, ou ao menos as masculinas: mulherengo, trapaceiro, cachaceiro, bêbado, mentiroso, fanfarrão, irresponsável. Mas os Deuses não se aposentam, por muito humanos que sejam. Ele não pode regressar à multidão anônima de onde vinha. A fama, que o havia tirado da miséria, o havia deixado prisioneiro."

Quando Galeano morreu, em 2015, Maradona o agradeceu por lhe ensinar a ler o futebol.

A humanidade do craque argentino torna ainda mais impressionantes as suas façanhas em campo. Por que foi com uma vida desregrada que conduziu um Napoli à glória no então principal futebol de clubes mais difícil do planeta. Foi um time argentino meia-boca que ele levou à taça do mundo. E já meio alquebrado por contusões quase repetiu o feito na Copa de 1990 quando carregou a Argentina (inclusive por cima do Brasil) até a final do torneio.

O Mundial dos EUA, em 1994, seria sua última participação em campo no grande palco, também em um jogo contra a Nigéria. Saiu banido da Copa por doping, nada mais Maradona. Se formos recapitular todos os episódios do argentino, chega-se à conclusão que ele viveu 600 anos no período de 60 anos em que esteve por aqui. Sempre fazendo um malabarismo diferente no topo da montanha e à beira do precipício, enquanto todos nós o amávamos ali debaixo.

Rodrigo Mattos