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Blog do Rodrigo Mattos

CBF esculhamba início do Brasileiro por interesse político

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

09/08/2020 04h04

É certo que vivemos tempos anormais no futebol por conta da pandemia do coronavírus e, portanto, algumas adaptações no calendário são necessária. Dito isso, não faz nenhum sentido que o Brasileiro, principal competição do país, comece neste final de semana com uma rodada capenga para priorizar duas finais de Estaduais. Pior, já tenhamos previsão de rodadas com apenas 48 horas de intervalo. A única explicação para essa medida está fora de campo: política.

Quando se decidiu que o futebol voltaria, o presidente da CBF, Rogério Caboclo, prometeu para as federações que haveria prioridade para as conclusões dos Estaduais. Mais adiante, determinou que os campeonatos que teriam decisão de título teriam jogo no final de semana de estreia do Nacional, com os jogos dos envolvidos adiados.

Portanto, a Série A tem apenas sete dos dez jogos marcados, com as estreias de Palmeiras, Corinthians e Bahia adiadas e, por consequência, de seus adversários. A definir onde entrarão esses jogos em calendários apertados. Finais de outros Estaduais como o Mineiro e o Gaúcho também poderão adiar jogos do Brasileiro no futuro.

Ora, o Brasileiro é o campeonato que sustenta a temporada dos principais clubes nacionais com um contrato de R$ 1,1 bilhão, mais dinheiro do pay-per-view. Esportivamente, quando chega o final da temporada, nenhum clube pode usar um título de Estadual para justificar que teve uma temporada vencedora.

Houve, sim, festa do campeão paulista Palmeiras pelo confronto com o rival. Mas, se o time for mal no Brasileiro, torcedores vão ironizar se um dirigente apresentar o Paulista como sinal de sucesso.

Em todos os lugares da elite do futebol, a liga nacional tem prioridade sobre qualquer outra competição, salvo jogos do principal torneio continental. Aqui, por promessa para seus eleitores presidentes das federações, dá-se o inverso.

Se o cenário de pandemia apertava mais as datas, cabia à CBF impor limites e exigir adaptações para que não se chegasse ao conflito de datas. Não faz o mínimo sentido final de Estadual em dois jogos se não há datas. Ou decisões de turno. Sem desequilibrar o campeonato, a federação estadual deveria adaptar seu regulamento, com a concordância de todos.

Pouco antes do Brasileiro, a confederação ainda determina que os intervalares de jogos poderão até de 48 horas, uma redução em relação ao período anterior de 66 horas. Ou seja, espreme-se o principal campeonato do país de forma que afeta o desempenho dos jogadores.

A ver o que a mesma CBF fará ano que vem quando o Brasileiro acaba em fevereiro e certamente as federações pressionarão por manter seus Estaduais intactos. O ideal é que sejam reduzidos a torneios do menor tamanho possível para dar tempo para pré-temporada.

Fato é que já passou da hora de se tratar o futebol brasileiro como profissional, priorizando o que tem valor de fato em detrimento do que só é interesse político. Para que não vejamos mais uma vez um início de Brasileiro mal tratado como este de 2020. Detalhe: por circunstâncias alheias à CBF - uma escolha da Turner -, a estreia da Série A entre Fortaleza e Athetico sequer foi transmitida em meio a uma pandemia que impede público estádio. Ou seja, o início do campeonato foi clandestino.

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