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Opção do Flamengo por técnico estrangeiros deveria ser alerta para CBF

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

01/08/2020 04h00

Quando Jorge Jesus confirmou que voltaria para Portugal, foi até natural a opção da diretoria do Flamengo por ir buscar de novo um técnico na Europa. O estilo de jogo e os métodos implantados que levaram ao Brasileiro e à Libertadores não tinham similar entre os treinadores nacionais. Ao final de um processo, o clube anunciou o espanhol Domènec Torrent, ex-auxiliar de Guardiola.

Sempre haverá quem questione a preferência do Flamengo por um estrangeiro em mesas redondas. Mas a pergunta deveria ser outra: por que o Brasil não é capaz de formar técnicos para reproduzir os novos modelos de jogos do futebol mundial em alto nível?

Bem, até sermos acordados por um 7x1 em uma semifinal de Copa do Mundo estávamos em nosso berço esplêndido alheios ao que ocorria na elite da bola. Boa parte de nós assistia a jogos da Liga dos Campeões maravilhado como se aquele futebol praticado fosse puramente fruto de talentos individuais.

Não era. A Europa deu um salto no desenvolvimento do jogo coletivo enquanto estávamos presos a técnicos que se formaram com conceitos dos anos 90. Pior, eles entendiam que não era necessário aprender nada.

A partir daí, o Brasil virou a terra da retranca porque o primeiro passo foi copiar os modelos defensivos de fora, as linhas de quatro, jogo reativo. E as ideias mais elaboradas e ofensivas? Nossos técnicos, velhos e novos, não eram capazes de reproduzi-las.

Não era só culpa deles, havia falta de interação com a nova elite da bola. Interação de fato, não fotos tiradas em CTs europeus. Poucos iam se formar como técnicos na Europa. Milton Mendes foi um exemplo: não deu certo, mas era um só nome.

E aí entra a CBF. A entidade só articulou de fato seu curso de técnico nos últimos dois anos. No curso de licença A, ainda constam basicamente nomes de professores nacionais. Estrangeiros vêm para cá para seminários esporádicos. Ainda não há uma escola estruturada e forte como feito na Alemanha que passou a ser uma referência de técnico depois de intervenção de federação.

Para ser justo, não faltam jovens treinadores ou auxiliares interessados e com potencial para se aprimorar - e já conhecedores dos conceitos do futebol modernos. Há exemplos em clubes grandes e médios. Nem é possível dizer que não tenham talento. O que falta é um ambiente mais sólido de formação, de referências, no Brasil. Por que não há quase nada a aprender com os veteranos.

Caberia a CBF, portanto, buscar soluções. Uma delas poderia ser começar a pagar bolsas para os técnicos brasileiros fazerem cursos lá fora. Ou pagar para que esses fossem se formar como professores nos cursos europeus. Não há como desenvolver nossa formação de técnicos nos limitando ao nosso mundinho, é preciso aprender primeiro antes de ensinar.

Não é um problema que o clube mais rico do país busque um técnico estrangeiro. Isso é normal em todas as ligas de elite. Mas o fato de não haver opções nacionais remotamente prontas para dirigir o Flamengo no nível de exigência atual é, sim, um problema. A ser resolvido por quem tem a tarefa estatutária de desenvolver o futebol nacional, a CBF.

Blog do Rodrigo Mattos