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Por que o Brasil é uma exceção na venda e divisão de direitos de TV

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

12/07/2020 04h00

A edição da MP do governo federal que mudou os direitos de televisão no Brasil gerou uma discussão sobre o modelo de negociação e gestão do Campeonato Brasileiro. Pois bem, um estudo da consultoria EY aponta que as práticas nacionais são raras no mercado mundial: negociações individuais, grande número de jogos na TV Aberta, fatiamento por mídia e distribuição de verbas mais desigual.

Assinada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, a MP deu aos times mandantes os direitos de televisão sobre seus jogos. Antes, isso era compartilhado entre os dois times como previsto na Lei Pelé. Ainda haverá votação no Congresso.

Neste caso, a mudança seguiu uma tendência mundial. O levantamento da EY confirma que as ligas europeias de futebol e de esportes norte-americanos seguem a lei do mandante.

"Na verdade, a questão do mandante faz sentido. Em nenhum lugar do mundo você tinha que ter os direitos do mandante e visitante", afirmou o consultor da EY, Pedro Daniel, que participou do estudo. "A questão da centralização (negociação coletiva) é o que precisamos discutir. A MP vai nessa linha de centralização. A Lei Pelé como estava nunca beneficiou uma negociação coletiva."

Há dois países com obrigação de negociação coletiva dos jogos de futebol, Itália e Espanha. Nos EUA, as vendas dos direitos nacionais da NFL, NBA e liga de Baseball (MBL) são feitas centralizadas - a duas últimas fazem comercialização de direitos regionais de forma individual. A venda do campeonato, e não apenas de jogos de um time, permite que seja feita uma estratégia comercial para toda a competição.

Por exemplo, ao contrário do que ocorre aqui, a maioria das ligas vende pacotes de jogos, e não todos os direitos sobre uma plataformas de mídia, como foi feito no Brasil. A Premier League tem jogos em TV Fechada e em streaming coletivo. A Bundesliga segue a mesma linha, com um número pequenos de jogos em TV Aberta. A Série A da Itália divide-se em TV Fechada e streaming. A TV Aberta, portanto, tem direito a poucas partidas do bolo.

"É um momento que já aconteceu há muito tempo na Europa. A TV Aberta é minoria. La Liga só tem um jogo de TV Aberta. A gente tem a cultura de ter o jogo de graça. Tanto que tem dificuldade no pay-per-view. Isso é cultura. Há uma tendência do mercado como um todo de cobrar para ver o jogo", analisou Pedro Daniel.

Essa estratégia se aplica também a horários de jogos, tabelas. No Brasil, a dona dos direitos, a Globo, tem influência direta sobre esses itens. No exterior, depende da estratégia da liga. O estudo da EY aponta que a La Liga escolhe dois horários distintos para o jogo entre Real Madrid e Barcelona, El Classico, para atender os mercados chinês e americanos, os que mais geram dinheiro internacionalmente.

O Brasileiro só fechou parceria para comercializar direitos internacionais neste ano, mas isso sequer foi posto em prática. No exterior, até 30% da receita dos campeonatos é gerado por vendas para fora do país.

Um terceiro ponto é relacionado à divisão dos recursos de televisão gerados pelo Brasileiro. Por conta do pay-per-view, o Brasil tem uma divisão em que o time que mais ganha leva entre 5,2 e 6,4 vezes o valor do que menos ganha (dependendo de Globo ou Turner). Na Série A da Itália, a equipe que mais ganha leva 4,6 vezes do que o time de menor arrecadação. Essa diferença é de 1,6 na Premier League que tem a divisão mais igualitária do futebol.

Nos EUA, a NFL distribui todos os recursos de televisão igualmente. Enquanto isso, a NBA e a MLB dividem igualmente os direitos nacionais, mas os direitos regionais são de cada um. Então, o Lakers, ganha seis vezes mais do que o Miami Heat. No beisebol, essa diferença é ainda maior com o Los Angeles Dodgers faturando 12,5 vezes o valor do Miami Marlins regionalmente. Uma parte das receias, no entanto, é devolvida à liga para um bolo dividido igualmente.

"Primeiro ponto, sem uma estratégia do produto como um todo, qualquer divisão será discutível. Para crescer o bolo, tem que ter uma situação mais madura. Na La Liga, tinham a estratégia de dar mais dinheiro para Real Madrid e Barcelona para eles viraram marcas globais. De 2015 para cá, eles mudaram a estratégia e era importante que o produto fosse mais competitivo. O pay-per-view que causa a distorção muita grande no Brasil", disse Pedro Daniel.

De fato, a La Liga, agora, tem uma divisão de 3,5 vezes do time que mais ganha para o que menos ganha. Mas, no passado, Real e Barcelona já arrecadaram mais de 10 vezes o que ganhavam os outros times.

Como conclusão, os dados do estudo da EY mostram que o Brasil vive um ambiente único em relação à negociação de direitos de televisão. A MP que dá os direitos ao mandante é apenas um ponto desse cenário.

Blog do Rodrigo Mattos