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Renato Maurício Prado

Na quarentena, o duelo do Fla: 81 x 19

Jorge Jesus e Zico se encontram - Alexandre Vidal/CRF/Divulgação
Jorge Jesus e Zico se encontram Imagem: Alexandre Vidal/CRF/Divulgação
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

29/03/2020 04h00

Sonhei que a pandemia tinha acabado e que o futebol estava de volta. E num Maracanã engalanado e completamente lotado, dois times rubro-negros entravam em campo, lado a lado. Um, de camisa branca, de mangas compridas; o outro com a tradicional rubro-negra, mangas curtas. Na tribuna de imprensa, igualmente repleta, me vi ao lado de Armando Nogueira que, com um sorriso maroto, me provocava.

- E aí, Renatinho, quem ganha?

No meu sonho, eu ainda nem sabia direito quem jogava. Mas quando o velho parceiro de jornalismo e de vôlei, na praia de Ipanema, Oscar Eurico, sentado do outro lado, me passou as escalações, senti o sangue gelar nas veias. O time de branco: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. O de rubro-negro: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Mari e Filipe Luís; William Arão, Gérson, Everton Ribeiro e Arrascaeta; Gabigol e Bruno Henrique.

E agora? Olhando em direção ao gramado, vi os trepidantes Danilo Bahia, entrevistando Paulo César Carpegianni, e Loureiro Neto, ouvindo seu compatriota Jorge Jesus. Próximo deles, Zildo Dantas (aquele cujo slogan era "nem o sol cobre melhor o Flamengo") falava com Zico e Gabigol, para a Rádio Nacional. Deus Meu! Estava prestes a presenciar o duelo entre os dois times do Flamengo campeões da Libertadores, em 1981 e 2019. E ainda revia tantos colegas queridos que já se foram. Um acontecimento literalmente, dos sonhos!

Esticando o pescoço pude enxergar também a cabine da Rádio Globo com os locutores Waldir Amaral e Jorge Curi, ao lado do comentarista João Saldanha, o João sem medo, e Mário Vianna, com seus dois enes, pronto para comentar a arbitragem de Armandinho Marques. Que momento!

A Suderj informava as escalações, que iam sendo mostradas no velho telão eletrônico, enquanto "um vendaval de bandeiras rubro-negras" festejava o jogão que estava por vir. Eletricidade pura nas arquibancadas, cadeiras e geral porque, sim, era o Maraca de antigamente, com quase 200 mil pessoas. Havia gente até na marquise do velho estádio.

E rolou a bola, tocada por Zico para Adílio e daí para Andrade. O passe longo do Tromba para Lico, porém, acabou interceptado por Rafinha, que partiu célere para o contra-ataque. Bola para Éverton Ribeiro, daí, num toque de primeira, para Gabriel, que evitou o combate de Mozer e cruzou na cabeça de Bruno Henrique, que se antecipou a Marinho. Testada firme e sem defesa, bola na rede de Raul, que nem se mexeu: 1 a 0 no placar, a favor da turma de 19. Com menos de um minuto de jogo!

- Ô, véio! Se não for pra pular, vou eu pro gol... - provocou Zico, enquanto, no radinho de pilha, Waldir Amaral dizia com seu vozeirão rouco que tinha "chovido na horta do Flamengo de Jesus". E logo em seguida, Saldanha, com sua conhecida verve irônica, emendava:

- Prepara a garganta, Waldir. Porque esse jogo vai ter chuva de gols...

Dito e feito. Claro que os campeões de 81 não iam deixar barato e quando a bola voltou a rolar, a pressão sobre o gol de Diego Alves se tornou infernal. Primeiro foi uma cabeçada de Nunes, que o goleiro espalmou à corner, com a ponta dos dedos; depois uma triangulação infernal entre Zico, Adílio e Tita, que acabou com um chute do Galo, tirando tinta da trave e, por fim, um tirambaço de Tita que explodiu no travessão. No rebote, a bola caiu nos pés de Leandro, um pouco além da entrada da área. Lembra daquele golaço do Peixe Frito, num Fla-Flu? Foi igualzinho. Bomba santa, 1 a 1 no placar.

Encantado, notei que a torcida comemorava igualmente os gols dos dois times. Natural, de um lado e do outro eram gols do Flamengo! E Mário Vianna enchia os pulmões:

- Gols LEGAIS!

Dada a nova saída, Arão se mandou para frente, Arrascaeta ciscou em frente de Adílio e enfiou para Gabigol, dentro da área. Mozer fez a antecipação e o corte, esticou para Zico e o passe, de 30 metros, do Galo para Nunes, às costas de Rodrigo Caio e Pablo Mari, saiu perfeito. O João Danado esperou a saída de Diego Alves e tocou por cobertura. 2 a 1 pros mais antigos.

Pintava o vencedor? Pois sim. O jogo seguia frenético e, cinco minutos depois, uma linda tabelinha de Éverton Ribeiro e Gabigol deixava o artilheiro sozinho, na marca do pênalti. Hoje tem? Teve. Dessa vez, Raul saltou e chegou a tocar na bola, mas essa raspou na trave e foi dormir no fundo do véu da noiva. 2 a 2! Que espetáculo maravilhoso eu assistia, torcendo para não acordar.

A segunda igualdade no placar (com menos de 25 minutos) diminuiu o ritmo alucinante da partida e começou a ser disputado, então, um xadrez tático dos mais interessantes. Tentando empurrar o time de Carpegianni para o seu próprio campo, a equipe de Jorge Jesus avançava a zaga e colava Arão em Zico, para evitar seus lançamentos em profundidade para Nunes.

Bem postados, os campeões de 81, mantinham Andrade, como um atento cão de guarda, na entrada da área, enquanto Tita e Lico recuavam, reforçando o combate no meio-campo e auxiliando na marcação dos laterais. Por sua vez, Gerson pegava Adílio e apesar da qualidade do toque de bola de um lado e do outro, as chances de gols começaram a rarear - lembrava muito a metade final do primeiro tempo do duelo da turma de 19, contra o Liverpool, em Doha.

Veio o intervalo e, no bar da imprensa, no Maracanã, encontrei Oldemário Touguinhó atracado com um portentoso sanduíche de queijo e presunto. Perguntei-lhe o que estava achando do jogo e, enquanto o melhor repórter da história do jornalismo esportivo deglutia, com vontade, um naco do pão, ensaiei a minha análise.

- Não é isso, não; não é isso, não! - me cortou ele, com seu jeitão típico de fazer prevalecer sempre a própria opinião. Esse jogo não é pra se analisar assim. É feito Botafogo e Santos, nos anos 60. Só tem craque. E são eles que vão decidir em campo. Mas tem um fator de desequilíbrio aí, hein? Como tinha também naquela época. E isso costuma fazer a diferença - concluiu, como de hábito, prenhe de razão.

Na volta para a Tribuna de Imprensa sentei ao lado de um trio de jornalistas e amigos botafoguenses, da maior qualidade: Cláudio Mello e Souza, Luís Carlos Melo, o "jefe" Lulu, e Luís Roberto Porto, o Robertão ou Conde D'Andrea. A resenha era deliciosa, quando a bola rolou de novo. E os dois Flamengos retornaram com a corda toda.

Após a cobrança de um corner, Marinho desviou de cabeça para a entrada da área, onde Arrascaeta acertou uma bicicleta de placa: 3 a 2. Em desvantagem, a equipe de Carpegianni apelou para uma velha arma, dos tempos de Cláudio Coutinho: overlapping perfeito de Tita com Leandro, cruzamento na medida e Zico cumprimentou Diego Alves: 3 a 3.

- Golaço, aço, aço! - esgoelava-se Cúri.

- Esse jogo não devia acabar - comentava Rui Porto, na cabine da Tupi, ao lado de Doalcei Bueno de Camargo.

Não devia mesmo. Cada lance era uma pintura, uma pequena obra de arte. Como a triangulação de Júnior, Lico e Adílio, até o chute rasteiro do Brown, que Diego Alves espalmou e Andrade completou, no rebote: 4 a 3. Ou a jogada de pé em pé de Gerson, Everton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e... Gabigooooooooool. Mais um pra conta de Jesus: 4 a 4. O jogo ia chegando ao fim e todo mundo parecia satisfeito.

- Que jornada, Baudelaire! - gritou de longe Amauri Mello, outro velho parceiro, que usava e abusava desse bordão, para saudar grandes epopeias.

Já estávamos nos acréscimos. Zico recebe no meio-campo, mete a bola entre as pernas de Arão e arranca. Na corrida, evita Gerson, dribla Mari e é derrubado por trás, por Rodrigo Caio. Armandinho apita! E a torcida, em coro, canta, a plenos pulmões, a velha música de Jorge Ben:

- É falta na entrada da área! Adivinha quem vai bater? É o camisa dez da Gávea... É o camisa dez da Gávea...

Oldemário tinha razão. Havia um fator de desequilíbrio entre os dois timaços. Diego Alves nem pulou. A bola foi lá onde a coruja dorme. E Armando Marques não deixou que o jogo recomeçasse, encerrando-o com o placar em 5 a 4 para os campeões de 81.

Na saída de campo, os 22 jogadores confraternizaram alegremente e trocaram camisas. Menos Zico, que tinha prometido a dele para Jesus, com quem saiu de campo abraçado. Ambos tinham um sorriso aberto no rosto.

- Se jogasses no meu time, ganhava eu - disse o técnico português, no ouvido do craque.

Óbvio, ó pá! - digo eu.

Que sonho! Pena que acordei. E a quarentena continua. Fique em casa!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado