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Novamente, 11 "Dovais"

Adílio comemora gol do Flamengo pelo título do Mundial de Clubes de 1981; é hora de relembrar - Peter Robinson - PA Images via Getty Images
Adílio comemora gol do Flamengo pelo título do Mundial de Clubes de 1981; é hora de relembrar Imagem: Peter Robinson - PA Images via Getty Images
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

19/03/2020 13h44

Futebol parado, praticamente tudo paralisado mundo afora, por conta da pandemia do Covid-19, a atividade dos amantes do mundo da bola, por aqui, só segue frenética no Twitter, onde alguns dos meus seguidores, ora vejam só, deram de desencavar vídeos antigos de participações minhas em programas de TV ou reportagens sobre esportes.

O último foi pescado no excelente "Heróis de uma Nação", documentário emocionante de Eduardo Leite e Marcelo Camargo, que relembra, através de entrevistas, aquela gloriosa e inesquecível campanha do Flamengo que culminou com o título mundial, em Tóquio, em 1981.

Num dos trechos do meu depoimento, chego a me emocionar, recordando passagens com meu saudoso pai, rubro-negro apaixonado e autor da expressão time de 11 "Dovais", à qual me refiro naquela gravação e no título dessa coluna aqui no UOL. Explico.

Quando garoto, costumava ir sempre ao Maracanã com o "velho" e, invariavelmente, na volta, a bordo do nosso intimorato Fusquinha, enquanto escutávamos os comentários de João Saldanha e Rui Porto, papai cuspia marimbondos contra o time do Mais Querido que, naquela época, meados dos anos 60, início dos 70, era realmente duro de aturar.

- Bando de pernas-de-pau. De cegos. Tinha que botar guizo na bola, meu filho! - revoltava-se ele.

Verdade. Eram equipes formadas por "sumidades" como Michila, Fio, Buião, Néviton, Caldeira, Onça e que tais, nas quais destacava-se apenas o atacante argentino Narciso Doval, egressso do San Lorenzo de Almagro. Com pinta de galã, era realmente muito bom de bola, além de raçudo, bem do jeito que os rubro-negros gostam.

Apelidado de Diabo Louro, até hoje, anos após a sua morte precoce, Zico o reverencia como o seu melhor companheiro de ataque. Jogaram juntos no título estadual de 1974, quando o Galo finalmente virou titular e Doval ainda estava na Gávea - no ano seguinte, se mudaria para no Fluminense, num dos troca-trocas bolados pelo presidente tricolor Francisco Horta, mas essa já é outra história.

Voltando, então, ao tema principal dos 11 Dovais, papai se revoltava porque tinha visto timaços do Flamengo, como os que conquistaram os dois primeiros tricampeonatos cariocas, em 42/43/44 e 53/54/55, esquadrões onde pontificavam craques de verdade como Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho e Valido (no primeiro tri) e Dr. Rubens, Zagallo, Evaristo, Dequinha e Dida (no segundo). Formações que ele recitava do goleiro ao ponta-esquerda, na ponta da língua.

- No meu tempo, Alemão (era assim que ele me chamava), o Flamengo tinha 11 Dovais em campo! - garantia, com o rosto vermelho e a voz alta, alterada pela fúria.

E eu, após cada surra levada do Botafogo de Leônidas, Gerson, Rogério, Jairzinho e Paulo César Caju; ou até mesmo do Bangu, de Ocimar, Cabralzinho, Paulo Borges, Ladeira e Aladim, me pegava a sonhar com o dia em que o Flamengo teria de novo "11 Dovais".

Vida que segue, virei jornalista, repórter, e acabei tendo a fortuna de acompanhar, no dia a dia, a formação daquela que viria a ser a melhor equipe rubro-negra de todos os tempos: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. E o que conto, no tal trecho do "Heróis de uma Nação" é a vontade imensa que me deu de ligar para o velho, tão logo acabou a surra no Liverpool, em Tóquio. Ligar apenas para lhe dizer:

- Esse time é melhor até do que aquele de 11 Dovais, pai!

O telefonema só pode ser dado, no dia seguinte, após uma trabalheira infernal, mas extremamente prazerosa - o caderno de esporte do Globo, que reporta, em detalhes, o jogo e as comemorações em Tóquio, é praticamente inteiro escrito por mim. Mas, enfim, o meu maior prazer naquela ligação interurbana do Hotel Takanawa Prince, para nossa casa, em Ipanema, nem foi ele concordar comigo, mas eu perceber a enorme alegria que, como rubro-negro, meu pai estava sentindo naquele momento.

Agora, o mais curioso do ressurgimento desse vídeo, no Twitter, foi fazer com que vários torcedores mais jovens do Flamengo dividissem comigo histórias atuais mas bem semelhantes:

- Passei por isso, Renato! Meu pai era rubro-negro alucinado, louco pelo timaço de 81. Depois disso, pra ele, todo time era de perebas. Infelizmente, faleceu em setembro passado e não pode ver bem esse time do Mister jogar. Que vontade de poder ter curtido esse Flamengo de hoje com ele - escreveu André Thiago.

- Quando ouvia meu pai falar sobre o time de 81, eu me perguntava se algum dia veria um time que fosse possível comparar com aquele. Só sei que valeu a pena esperar - comentou, por sua vez, Antonio Maudonnet.

- Confesso que sempre tive medo disso acontecer comigo. De nunca ver um Flamengo supercampeão ao lado do meu pai. Graças a Deus, ano passado conseguimos, com esse timaço do Mister - disse Bruno Derengo.

Sim, se papai fosse vivo, aposto que ele consideraria essa equipe dirigida por Jorge Jesus também formada por 11 Dovais. Que nada mais é do que dizer que é constituída por muitos craques e nenhum perna-de-pau.

O atual campeão Brasileiro e da Libertadores nunca precisou, nem precisará, botar guizos na bola, não é velho? Que saudade! Tomara que você também possa estar curtindo tudo isso, de novo, agora aí de cima.

Errata: o texto foi atualizado
A coluna trouxe inicialmente duas vezes o nome de Lico. Na primeira citação, o correto é citar Júnior. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado