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Rafael Reis

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pinochet, Maduro, Médici: qual era o time de outros 7 ditadores famosos?

Augusto Pinochet ajudou o Colo-Colo a crescer no futebol chileno - Biblioteca del Congreso Nacional via Wikimedia Commons
Augusto Pinochet ajudou o Colo-Colo a crescer no futebol chileno Imagem: Biblioteca del Congreso Nacional via Wikimedia Commons

22/09/2022 04h20

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Há quem diga que política e futebol não se misturam. Pergunte para eles, então, por que a maioria dos regimes autoritários do século passado e também do início deste século fizeram (e continuam fazendo) questão de utilizar a popularidade da modalidade para agradar a população e tentar melhorar sua imagem tanto no cenário local quanto perante a comunidade internacional.

O que não faltam são exemplos dessa estratégia. Em 1934, a Itália fascista recebeu a Copa do Mundo. Em 1978, foi a vez da Argentina, em meio ao regime militar, ser sede da competição. Coincidência ou não, ambas foram campeãs das edições que organizaram.

Mas, quais eram (ou são) os times de coração dos ditadores e chefes de governos autocratas mais famosos do planeta? Na semana passada, o "Blog do Rafael Reis" começou a responder essa pergunta. Agora, publica a segunda parte do material, com as equipes preferidas de mais sete presidentes/primeiros-ministros avessos à democracia.

AUGUSTO PINOCHET

General do exército chileno, governou o país entre 1973 e 1990 e liderou uma ditadura que fez mais de 40 mil vítimas, entre mortos, refugiados, desaparecidos e pessoas que foram torturadas. Assim como aconteceu com Franco, na Espanha, e Mussolini, na Itália, Pinochet também tinha um time de coração (o Santiago Wanderers), mas acabou escolhendo outro para ser adotado pelo governo. No caso chileno, o Colo-Colo, que recebeu incentivos estatais e teve Pinochet como presidente honorário de 1984 até 2015, quando os sócios o destituíram do cargo.

MUAMMAR GADDAFI

O ditador Muammar al-Gaddafi - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

O ditador líbio durante 42 anos, que foi morto por oposicionistas em 2011, durante a Primavera Árabe, aparentemente era torcedor do Liverpool. Apesar de nunca ter falado abertamente sobre o assunto, há vários indícios que apontam essa ligação. Em 2002, um dos seus filhos, que inclusive foi jogador de futebol e defendeu Perugia, Udinese e Sampdoria, anunciou a intenção de investir nos Reds. Já após a morte de Gaddafi, fotos do local onde ele estava escondido mostraram uma caneca do clube inglês.

NICOLÁS MADURO

Nicolás Maduro rejeita relatório de direitos humanos do Departamento de Estado dos EUA - gettyimages - gettyimages
Imagem: gettyimages

Sucessor de Hugo Chávez no comando da Venezuela, Maduro está na presidência desde 2013. Como parte da construção de uma imagem positiva do seu regime, o ditador já jogou futebol com Diego Maradona e chegou a convidar o craque argentino (morto em 2020) para comandar a seleção do país. Mas, assim como seu antecessor no cargo, o presidente venezuelano não é tão fã assim da modalidade e prefere o beisebol, esporte número um no seu país. Maduro talvez até tenha um time que mais admira (há rumores de que seria o Boca Juniors, por conta da amizade com Maradona), mas sempre que é perguntando sobre o tema limita-se a responder que é torcedor apenas da seleção venezuelana.

VIKTOR ORBÁN

 Viktor Orbán declara vitória na Hungria  -  O Antagonista  -  O Antagonista
Imagem: O Antagonista

Aliado de Bolsonaro, ocupa o cargo de primeiro-ministro da Hungria desde 2010. Apesar de eleito democraticamente, Orbán produziu tantas mudanças no país que, de acordo com o parlamento da União Europeia, ele já não pode mais ser considerado uma "democracia plena". Na juventude e durante seu primeiro mandato como líder húngaro (entre 1998 e 2002), o político chegou a jogar no Felcsút, clube que disputa as divisões inferiores da liga magiar e que hoje o tem como presidente. Mas, apesar de ser dirigente de um time, a "equipe oficial" do governo Orbán é outra: a Puskás Akadémia, não coincidentemente que também possui sede na cidade de Felcsút. Comandada por integrantes do mesmo partido do primeiro-ministro, o clube que homenageia o maior nome da história do futebol húngaro (e que nunca teve nada a ver com o projeto) nasceu neste século, mas já se firmou na primeira divisão e está disputando competições europeias há três temporadas (na atual foi eliminado na fase preliminar da Conference League).

EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI

Pelé levanta a taça da Copa do Mundo de 1970 ao lado do então presidente Médici - Roberto Stuckert/Folhapress - Roberto Stuckert/Folhapress
Imagem: Roberto Stuckert/Folhapress

Terceiro presidente da ditadura militar no Brasil, Médici estava no comando do país quando a seleção conquistou o tricampeonato mundial e fez de tudo para transformar o título conquistado no México-1970 em uma vitória do regime. O ditador recebeu os "heróis da equipe canarinho", como Pelé, Jairzinho e Carlos Alberto Torres, no Palácio do Planalto e os associou à ordem de um país governado com punhos de ferro. Mas, apesar do uso político do esporte, Médici realmente gostava muito de futebol. Durante toda a vida, ele frequentou estádios. Gaúcho de Bagé, ele sempre se declarou torcedor do Grêmio. Depois que se mudou para o Rio de Janeiro para fazer carreira militar, apaixonou-se também pelo Flamengo e virou rosto frequente no Maracanã.

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

Antônio Salazar - Ditador - Portugal - History Channel Brasil.jpg - History Channel Brasil - History Channel Brasil
Imagem: History Channel Brasil

O ditador português entre 1932 e 1968 tinha um regime que se apoiava na popularidade dos "Três F": Futebol, Fado e Fátima. Mas, curiosamente, Salazar nunca curtiu muito futebol. Até por isso, não se sabe muito exatamente se ele tinha um time de coração. Fato é que, dentro de Portugal, a maioria das pessoas associa o regime militar do país com o sucesso que o Benfica experimentou no período, sobretudo na década de 1960. No entanto, ex-jogadores da equipe sempre negaram qualquer envolvimento de Salazar com o clube.

NICOLAE CEAUSESCU

 Nicolae Ceausescu, ditador comunista da Romênia, implementou política de estímulo à natalidade, que acabou inchando os abrigos estatais infantis  - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

O comandante linha dura da Romênia socialista durante 24 anos não economizou esforços para transformar seu time preferido em uma das potências do futebol mundial na década de 1980. Dirigido por seu filho mais velho, Valentin, o Steaua Bucareste foi o primeiro clube do Leste Europeu a vencer a Liga dos Campeões, em 1986, e ainda disputou outra final, três anos depois. O sucesso do clube teve uma ajuda danada do poder estatal. Todos os candidatos a jogador de futebol da Romênia precisavam passar necessariamente pela base do Steaua, que ficava com os melhores e descartava os outros para seus rivais locais.