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Rafael Reis

REPORTAGEM

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"Melhor coração", Kanté sentiu vergonha por presente em festa de brasileiro

Kanté é um dos destaques do Chelsea, finalista da Champions - Getty Images
Kanté é um dos destaques do Chelsea, finalista da Champions Imagem: Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

25/05/2021 04h00

O ex-zagueiro brasileiro Felipe Saad jogou durante duas temporadas com N'Golo Kanté no Caen e, desde então, construiu um forte vínculo com o meio-campista francês que já dura oito anos. Apesar dessa longa relação, admite: não ouviu a voz do amigo tantas vezes assim.

Um dos destaques individuais do Chelsea, adversário do Manchester City na final da Liga dos Campeões da Europa desta temporada, o camisa 7 foge do estereótipo de jogador de futebol bem-sucedido dos dias atuais.

Enquanto a maioria dos grandes astros da bola contemporânea adora uma ostentação, enche suas redes sociais de propagandas e posts patrocinados, trata o público como um mercado consumidor a ser explorado e ama falar de si mesmo, Kanté apenas joga, sorri e se cala.

"O NG [apelido derivado das iniciais do seu nome] é um dos melhores corações que conheço. É um perfil que não existe mais no futebol. Por isso, é unanimidade entre os jogadores. Dentro do vestiário, ele é igualzinho o que vocês observam pela televisão: está sempre com um sorrisinho tímido no rosto e não fala quase nunca. É um poço de humildade", disse Saad, por telefone, ao "Blog do Rafael Reis".

Os dois se conheceram em 2013, quando ambos chegaram ao Caen para a disputa da segunda divisão francesa. A diferença é que o brasileiro estava acostumado a jogar na elite do país, enquanto Kanté estava recebendo a "oportunidade da carreira" depois do início na "Série C" local.

"Desde o início, já o coloquei debaixo da minha asa. Em setembro, chamei ele para o meu aniversário. A festa era pequena, tinha só mais dois ou três jogadores, e foi em um restaurante inglês. De repente, ele chegou no restaurante com uma caixa de chocolates na mão, todo envergonhado. O NG pediu desculpas pelo presente e disse que não sabia o que dar porque nunca havia sido convidado para um aniversário antes."

Na época, um patinete era o meio de locomoção preferido de Kanté. Era em cima do veículo, com um capacete na cabeça e uma mochilinha nas costas que ele se locomovia pela cidade, ia aos treinos e aproveitava seus momentos de lazer.

Quem o via desse jeito, dificilmente imaginava que lá estava alguém que se transformaria em um dos melhores meio-campistas do mundo. Mas, assim que o francês pisava nos gramados, a impressão mudava completamente.

"Tem muito jogador do perfil do NG na França: negro, baixinho, magrinho. Então, ele não chamava muita atenção. Só que no primeiro treino, todos ficaram assustados. Era um teste de corrida até a exaustão. Depois que todos os jogadores pararam de correr, ele continuou lá mais um tempão."

Saad diz que, já naquele dia, percebeu que Kanté não era um jogador para passar a carreira toda na segunda divisão francesa. Ele só não imaginava que o amigo teria uma ascensão tão meteórica.

Em 2015, NG deixou o Caen para jogar no Leicester. Logo na primeira temporada na Premier League inglesa, conquistou (com um time pequeno) o título do campeonato nacional mais poderoso do mundo e, com isso, descolou uma transferência para o Chelsea.

Quando chegou a Copa 2018, Kanté já era um dos protagonistas da seleção francesa que conquistou o bicampeonato mundial. Durante a festa em campo depois da final da Croácia, o meia não tinha nem coragem de pedir aos seus companheiros o direito de pegar no troféu. Foi preciso que um companheiro de time, o volante Steven N'Zonzi, adivinhasse o desejo do tímido parceiro para que ele pudesse tirar a tão sonhada foto com a taça mais desejada do futebol.

Agora, o consagrado jogador do Chelsea já tem no currículo um título de Copa do Mundo, dois de Campeonato Inglês e um de Liga Europa. Falta a Liga dos Campeões. Mas, talvez, até o fim de semana, já não falte mais...

A decisão da edição 2020/21 da Champions será disputada neste sábado (29), no estádio do Dragão, no Porto (POR). Originalmente, a partida seria jogada em Istambul, mas, assim como no ano passado, a sede teve de ser alterada por causa da pandemia de covid-19.

Em Portugal, o jogo que decidirá o campeão europeu desta temporada poderá contar com a presença de público (ainda que reduzido). Doze mil ingressos foram colocados à venda, seis mil para torcedores de cada time.

Essa será a terceira final 100% inglesa na história da competição. Em 2008, o Chelsea foi derrotado nos pênaltis pelo Manchester United após empate por 1 a 1 com a bola rolando. Duas temporadas atrás, o Liverpool se sagrou campeão europeu com vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham.

O torneio teve outras cinco decisões entre clubes do mesmo país: três espanholas (todas vencidas pelo Real Madrid, em 2000, 2014 e 2016), uma italiana (Milan 0 x 0 Juventus, em 2003, com triunfo rossonero nos pênaltis) e uma alemã (Bayern de Munique 2 x 1 Borussia Dortmund, em 2013).