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Lito Cavalcanti

Na Fórmula 1, um ano de muitas possibilidades

Lewis Hamilton no novo carro da Mercedes; piloto é favorito de novo em 2020 - Reprodução / Twitter
Lewis Hamilton no novo carro da Mercedes; piloto é favorito de novo em 2020 Imagem: Reprodução / Twitter
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

15/06/2020 12h06

Com bem menos etapas do que nos últimos quatro anos, este campeonato se configura como um dos mais imprevisíveis dos últimos tempos. Em princípio, e também em teoria, são grandes as chances de Lewis Hamilton e sua equipe, a Mercedes, se sagrarem campeões pela sétima vez. Mas é bem provável que este seja, também, o ano mais difícil tanto para o piloto quanto para a escuderia alemã.

Por seu número reduzido de corridas, provavelmente não mais do que 15, quebras ou acidentes não serão perdoados. Isso, em princípio, não seria um problema para a Mercedes. Nos últimos dois anos, ocorreram apenas duas desistências, ambas no Grande Prêmio da Áustria de 2018: Hamilton teve problemas de pressão de combustível, e seu companheiro Valtteri Bottas no sistema hidráulico.

Mas a pré-temporada mostrou um quadro diferente. Diante da maior potência exibida pela Ferrari no ano passado, a Mercedes forçou o desenvolvimento de seus motores e se defrontou com vários problemas de lubrificação ao longo dos seis dias. A maior parte deles nos carros da Williams, mas Hamilton também perdeu uma sessão devido a uma queda da pressão de óleo.

Esses problemas, logicamente, podem e devem ter sido contornados durante a quarentena, mas é de se esperar que, nela, a Honda tenha aprimorado seus motores - que mostraram forte evolução na pré-temporada. Isso, associado à excelência aerodinâmica dos carros da Red Bull, fazem de Max Verstappen a principal ameaça a Hamilton. Que será ainda mais intensa caso a Mercedes se veja forçada a reduzir potência para afastar a possibilidade de quebras.

Mas essa não parece ser a única ameaça à hegemonia de Hamilton. A exemplo do que tem feito ano a ano, Bottas se empenhou a fundo em seu aperfeiçoamento. Determinado a lutar mais de perto com o colega e a afastar a possibilidade de perder o lugar na equipe, ele vem trabalhando com seus engenheiros em busca de uma técnica ainda mais eficiente.

Ao fim da pré-temporada, o finlandês se disse satisfeito com o progresso feito. Seu otimismo se justificava pelo melhor tempo dos testes: 1min15s732, obtido no terceiro dia. Para efeito de comparação, Hamilton fez apenas o quinto, com 1min16s410 no sexto dia, usando o mesmo tipo de pneus, o C5. O segundo mais rápido, Verstappen, ficou a mais de meio segundo, 1min16s269, mas seu melhor tempo foi com os pneus C4, não tão aderentes quanto os C5.

Tendo como base o desempenho de cada equipe naquele período, a grande perdedora é a Ferrari. Charles Leclerc fez o quatro tempo, 1min16s360 no sexto dia com pneus C5, mas o de Sebastian Vettel foi apenas o nono, 1min16s841 no quinto dia, com o mesmo tipo de pneus.

Ele ficou atrás não apenas das Mercedes, de Verstappen e de seu companheiro Leclerc, o que seria normal; foi batido também pelos dois carros da Renault, pela Racing Point de Sérgio Perez (com os C3, bem menos aderentes) e pela McLaren de Carlos Sainz, com os C4. E foi apenas 0s030 mais rápido que a Williams de George Russell.

Para alguns, esse desempenho pode ter sido a gota d'água na relação do tetracampeão alemão com a Ferrari, sempre suscetível à pressão da nem sempre equilibrada imprensa italiana. Uma decisão que, sem dúvida, vai gerar momentos difíceis internamente, já que são bem poucas as chances de Vettel aceitar as previsíveis ordens da equipe para favorecer Leclerc, definitivamente entronizado como primeiro piloto.

Este ambiente pode jogar por água abaixo o esforço feito em Maranello para sanar os problemas detectados na pré-temporada. Uma carcaça de câmbio mais rígida foi introduzida para corrigir o desequilíbrio que fazia o novo SF1000 (sigla que celebra os 1000 GPs que a Ferrari completará daqui a nove corridas); a aerodinâmica foi modificada com a introdução de um novo bico mais largo, seguindo a linha da Mercedes; e o ganho de 15 a 20 cavalos com o aprimoramento da combustão dos novos motores.

Com essas evoluções, a Scuderia Rossa tem a chance de se tornar a segunda força nos dois primeiros GPs do ano. O favoritismo recai sobre a Red Bull, perfeitamente à vontade nas curvas de alta velocidade do circuito da Áustria - como comprovaram suas vitórias nos dois últimos anos. Já a Mercedes tem contra si os 700 metros de altitude, que a deixaram atrás inclusive da Ferrari nas duas últimas edições desta prova.

Um crescimento difícil

Para a promotora da Fórmula 1, a empresa norte-americana Liberty Media, a maior preocupação no momento é a ampliação do calendário. Ela sonha com um total de 18 etapas, mas se dará por satisfeita com 15 - um número inferior implicará na redução da receita dos direitos de televisionamento.

Esta meta sofreu um novo impacto na última semana, quando foram definitivamente cancelados os GPs do Azerbaijão e de Singapura, que exigem uma logística incompatível com os tempos atuais por serem disputados em circuitos de rua. Também foi excluído o do Japão, já que o país se mantém fechado a visitantes do exterior.

Até agora, porém, a única solução é a realização de provas repetidas, como ocorrerá na Áustria, no dias cinco e 12 de julho, e na Inglaterra, nos dias dois e nove de agosto. Existe o temor de que a segundo GP seja uma mera repetição do primeiro. Para amenizar, a Pirelli fez uma ligeira mudança na seleção de pneus que levará para a segunda corrida inglesa, reduzindo um grau na dureza dos modelos que disponibilizará.

Na Itália, a possibilidade é a de se correr em Imola ou Mugello após a etapa de Monza. Mas a solução que vem despertando mais interesse é a que foi aventada pelo diretor técnico da Liberty Media, o ex-chefe de equipe da Ferrari Ross Brawn. Ele propõe uma segunda prova no Bahrein em uma pista quase oval. Com dez curvas (quatro feitas a pleno acelerador), o circuito é visto como um primo próximo dos ovais norte-americanos.

Todos caminhos levam à Indy

A cada dia, a Fórmula 1 e a Indy se tornam mais próximas. Basta lembrar que, em 2022, a categoria norte-americana planeja adotar motores híbridos, tecnologia que a F1 vem usando desde 2014. E assim abrir suas portas para a Ferrari, que já vem mantendo conversações neste sentido com Roger Penske, o dono da Indy. Lá, a Casa de Maranello encontraria velhas conhecidas: a Honda, que está presente tanto na F1 quanto na Indy, e a McLaren, que se associou à Schmidt-Peterson sob a batuta de Gil de Ferran.

Mundinho pequeno esse do automobilismo...

A luta de Hamilton

Para Hamilton, ainda, a Fórmula 1 pode se revelar um ambiente substancialmente diferente do que foi até agora O motivo disso é ele ter-se firmado como uma das principais vozes na luta contra o racismo. Justamente indignado com a onda de violência que vitimou recentemente dois homens negros nos Estados Unidos, ele condenou publicamente o silêncio de toda a F1. Um dos principais dirigentes, Ross Brawn, e alguns de seus colegas aderiram abertamente, entre eles Lando Norris.

O gesto louvável do jovem Norris já deu uma amostra do que Hamilton pode esperar ao longo deste ano. Imediatamente após externar sua solidariedade às vítimas do racismo, Norris se tornou alvo de agressões em suas redes sociais e perdeu milhares de apoiadores. Logo ele, que era visto como um dos esportistas mais populares da Inglaterra nos últimos meses.

A pior parte, porém, deve cair sobre os ombros de Hamilton. Mesmo antes destes últimos fatos, ele já era criticado pesadamente por fixar residência em Mônaco e, assim, evitar os pesados impostos ingleses. Jenson Button, que também mora em Mônaco, e Nigel Mansell, que optou pelos benefícios fiscais da Ilha de Man, não recebem este tratamento.

Sem dúvida, Hamilton tem pela frente um dos anos mais duros da sua carreira.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.