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Lito Cavalcanti

Como Ferrari pode expandir negócios e passar a correr em Le Mans

Ferrari
Imagem: Ferrari
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

24/04/2020 04h00

A notícia veiculada nessa quarta-feira (22) pelo The Guardian de que a Ferrari pode olhar para outras categorias despertou entusiasmo e preocupações nos dois lados do oceano Atlântico. Segundo o jornal inglês, o chefe da histórica equipe italiana, Mattia Binotto, afirmou que, se for estabelecido um limite de gastos abaixo de US$ 148 milhões (cerca de R$ 815 milhões), a Scuderia Rossa se veria obrigada a competir em outras categorias.

Inicialmente, a declaração de Binotto foi recebida como uma ameaça de abandonar a Fórmula 1, categoria em que está presente desde seu primeiro campeonato, em 1950. Não é essa a intenção, esclareceu nesta quinta-feira a própria equipe. O comunicado esclareceu, contudo, que essa eventual diversificação seria a melhor maneira de evitar cortes em seu corpo de 3.380 funcionários.

Em primeira análise, isso significaria um provável retorno da Casa de Maranello às corridas de longa duração, onde construiu uma história de enorme sucesso. Sua trajetória nas provas de longa duração foi documentado em dois filmes clássicos: 24 Horas de Le Mans, com Steve McQueen, e o recente Ford X Ferrari, a visão norte-americana da batalha entre as duas marcas na edição de 1966 da tradicionalíssima corrida francesa.

Mesmo derrotada pela gigante de Detroit, a Casa de Maranello permaneceu na categoria, então denominada Campeonato Mundial de Carros Esporte-Protótipos, e chegou a contar com o brasileiro José Carlos Pace em 1973. Até hoje a Ferrari corre oficialmente no Mundial de Endurance (esta a nova denominação), mantendo uma equipe na subdivisão Grã-Turismo - e tem o brasileiro Daniel Serra entre seus pilotos oficiais.

O sonho americano

A outra opção seria a Fórmula Indy, categoria de monopostos dos Estados Unidos. Conhecida pelas provas em circuitos ovais, vista com reserva pelos europeus por causa da violência de seus acidentes, a Indy por muito pouco não teve a Ferrari entre seus concorrentes. Seria em 1986, depois da FIA impor à F1 o uso exclusivo de motores de oito cilindros em V, os populares V8, jogando na ilegalidade os potentíssimos V12 da Casa de Maranello.

Em represália, a Scuderia chegou a construir e testar em Fiorano, sua pista particular, um carro feito para as peculiaridades da categoria. Na iminência de perder sua marca mais famosa, a FIA voltou atrás e a Ferrari manteve sua dedicação exclusiva à F1, como já vinha fazendo desde 1974.

Desde então, a importância da Ferrari só aumentou, e tem sido importantíssima na consolidação da Fórmula 1 como a principal categoria do automobilismo mundial, o que nem sempre foi tão evidente. Além de ser a única equipe que participou de todas as edições de todos campeonato da F1, a Ferrari tem em sua história nada menos de 16 títulos do mundial de construtores e 15 do de pilotos, com um total de 238 corridas.

Uma marca do tamanho do mundo

Ferrari Prost - Patrick Behar/Corbis via Getty Images - Patrick Behar/Corbis via Getty Images
Ferrari, que contou com Alain Prost, possui projeção mundial e é a equipe mais famosa da Fórmula 1
Imagem: Patrick Behar/Corbis via Getty Images

Nenhuma outra equipe na história da Fórmula 1 chega sequer perto destes números. Na verdade, o destaque da Ferrari não se verifica apenas entre as escuderias da Fórmula 1. No ranking mundial de marcas mais valiosas do mundo, o Global 500, publicado anualmente pela consultoria inglesa Brand Finance, a Ferrari foi a primeira colocada em 2020, batendo concorrentes como a gigante do comércio eletrônico Amazon, a petroleira saudita Aramco e até a Disney.

Para a Fórmula 1, perder a exclusividade da Ferrari significaria ver crescer a categoria, ou categorias, escolhida (s) pela fábrica italiana. Para a Indy, seria a chance de voltar aos anos 90, quando contava com estrelas consagradas na F1 como Emerson Fittipaldi e Nigel Mansell. Para a Ferrari, competir nos Estados Unidos seria uma oportunidade nada desprezível de estar presente no principal mercado mundial.

O Mundial de Endurance também parece ser uma escolha sedutora. Um dos argumentos a seu favor é a inclusão dos hipercarros em sua próxima edição. Tendo como base os carros de Grã-Turismo (como os que a Ferrari produz e vende mundo afora), eles utilizam propulsão híbrida similar à adotada pelos carros da F1. O que permitiria à Ferrari aprofundar seu conhecimento de tecnologias que poderiam beneficiar, mesmo que indiretamente, seus motores de F1.

Para a categoria, essa volta seria uma ótima oportunidade de reviver o tempo em que era capaz de atrair marcas como a Ford e a Porsche. Todas com a firme determinação de vencer a Ferrari. Como já aconteceu em outros tempos.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado anteriormente, a Ferrari não correria em Maranello e não mudaria de categoria, e sim expandiria seus negócios para além da Fórmula 1. Os erros foram corrigidos.