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Passo a passo, a Fórmula 1 prepara o seu retorno

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Imagem: Divulgação
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

20/04/2020 13h30

Aos poucos, a Fórmula 1 começa a enxergar a luz no fim do túnel. Em meio a infindáveis reuniões entre todos os envolvidos, desponta uma esperança de acordo entre as equipes quanto ao limite anual de gastos, questão que vem opondo as três equipes grandes às restantes.

Previsto para entrar em vigor em 2021, este teto veta gastos anuais superiores a US$ 175 milhões (cerca de R$ 920 milhões). Mas ele exclui gastos com convidados vips, salários dos pilotos e de três executivos, hospedagens, viagens e leasing de motores. Por isso, as escuderias menores estavam pleiteando uma redução deste limite para pelo menos US$ 130 milhões (cerca de R$ 682 milhões).

A proposta, feita em conjunto pela FIA e pela Liberty Media, a detentora dos direitos comerciais (o que faz dela praticamente a dona da F1), é de que, no ano que vem, este limite caia dos US$ 175 para 145 milhões (equivalentes a R$ 760 milhões) em 2021 e, no ano seguinte, para os US$ 130 milhões pretendidos pelas escuderias pequenas.

O fato, porém, é que mesmo prestes a concordar, as equipes menores ainda se mostram insatisfeitas. Isso porque as cinco maiores escuderias superaram amplamente os US$ 145 milhões no ano passado. Outras quatro passaram muito pouco e uma ficou abaixo.

Segundo a revista italiana Auto Sprint, o gasto total da Ferrari em 2019 foi de US$ 435 milhões (cerca de 2 bilhões e 280 milhões); da Mercedes, US$ 425 milhões (cerca de R$ 2 bilhões e 230 milhões); da Red Bull, US$ 335 milhões (cerca de R$ 1 bilhão e 760 milhões); da McLaren, US$ 250 milhões (cerca de R$ 1 bilhão e 310 milhões); e da Renault, US$ 210 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão e 100 milhões).

Os gastos de 2019 incluíram itens que serão excluídos do teto. Ferrari e Mercedes, por exemplo, pagaram a seus pilotos e três principais executivos um total não distante de US$ 100 milhões, US$ 50 milhões também não devem estar longe do que gastou a Red Bull neste quesito.

Despesas de viagens e hospedagens são comuns às 10 escuderias, mas os gastos com marketing e centros de hospitalidade estão excluídos do teto. Eles podem chegar a dezenas de milhões de dólares para as maiores, mas nem passam perto no caso das menores.

Como as cinco mais ricas dispõem de verbas muito superiores ao teto, têm margem para cobrir salários, viagens, hospedagens, vips e leasing de motores e ainda lhes restará o total permitido para investir na performance dos carros. As menores, ao contrário, têm verbas que mal ultrapassam o limite imposto pela FIA para fazer frente a todas essas despesas e, também, o desenvolvimento dos carros.

Para se ter uma ideia das dificuldades que elas enfrentarão, a Racing Point e a Toro Rosso (agora denominada Alpha Tauri) gastaram, cada uma, US$ 155 milhões (aproximadamente R$ 815 milhões) em 2019; a Alfa Romeo, US$ 150 milhões (cerca de R$ 790 milhões); a Haas, US$ 145 milhões (cerca de 760 milhões); e a Williams, US$ 125 milhões (perto de R$ 665 milhões).

Fica claro, então, que a desejada aproximação dos orçamentos da F1 ainda é uma meta distante. As equipes que gastaram em 2019 um total próximo (ou inferior) do que vai ser o limite em 2021, na melhor das hipóteses continuarão com a mesma verba para enfrentar todas suas despesas. Já as grandes, beneficiadas pela exclusão de despesas significativas, poderão concentrar todo o limite na performance de seus carros.

A volta é certa. Só não se sabe quando

Se a solução para as discordâncias sobre o limite de gastos parece a caminho, a dúvida sobre a viabilidade de se realizarem corridas em 2020 permanece. As sugestões são muitas, mas as definições ainda se mostram impossíveis. Nem mesmo um calendário é possível elaborar.

Com a proibição de eventos de grande público até 11 de julho imposta pelo presidente Emmanuel Macron, são praticamente nulas as chances de realização do Grande Prêmio da França, previsto para o dia 28 de junho. A prova seguinte é o GP da Áustria, no dia cinco de julho. Lá, o governo se mostra simpático à ideia, mas com portões fechados.

A estratégia é levar em voos charters os membros das equipes e os profissionais considerados indispensáveis, que somam um total de 1.400 pessoas. Todos ficariam em dois grandes hotéis próximos da pista, que pertence à Red Bull, e permaneceriam relativamente confinados.

A ideia de Helmut Marko, o cérebro por trás do programa de automobilismo da Red Bull, é limitar a 45 os componentes de cada equipe e limitar a cobertura às televisões, excluindo outros tipos de mídia. Todos teriam de usar máscaras em tempo integral e manter entre si uma distância ainda a ser definida. Ele propõe também fazer uma segunda corrida na quarta-feira, mas ainda não há nada definido.

A prova seguinte seria em Silverstone. A data seria 19 de julho, e ventila-se a hipótese de duas corridas no fim de semana. A segunda utilizaria parte do circuito onde se disputa o GP. Tudo isso com portões fechados, repetindo-se a receita no fim de semana seguinte, o que elevaria o total para quatro etapas em solo inglês.

Há bons argumentos a favor. Sete das 10 equipes têm sede em um raio de 200 quilômetros de Silverstone, o que reduziria significativamente as despesas. O único argumento contra, porém, é fortíssimo: a Inglaterra foi fortemente golpeada pela pandemia e não se sabe qual seria a reação do governo ao ingresso de estrangeiros nesse período.

Caso se concretizem esses planos, já se teria seis provas em julho. Seria um bom começo para a conclusão de um campeonato em 2020. Mas é bom ter em mente que, para ser oficializado, um campeonato precisa não só de oito corridas, elas devem ser disputadas em três continentes. Até agora, só se falou em provas na Europa.

Por enquanto, tudo se limita a conjecturas.

Corridas virtuais mantêm a chama

Uma das maiores preocupações da F1 nesses dias de isolamento é a reação do público quando a vida voltar ao normal. Para alguns, entre eles o presidente da FIA, Jean Todt, existe o risco do público não se mostrar tão receptivo quanto antes de se instalar a pandemia do vírus Corona.

Pelo que se tem visto nas corridas virtuais, que se multiplicam nas telas dos computadores, a chama continua acesa. São pelo menos quatro de vulto por fim de semana, da F1 à Indy, à NASCAR e à Fórmula E, passando por diversas outras categorias. E a resposta do público tem-se mostrado muito positiva.

A última iniciativa, idealizada pelos pilotos jovens da F1, levantou nada menos de US$ 70 mil (cerca de R$ 370 mil) para o fundo de solidariedade contra a Covid-19 da Organização Mundial da Saúde. Várias outras têm patrocinadores investindo nos campeonatos ou nos carros. Todas com enorme número de espectadores.

Por mais que haja uma enorme distinção entre o automobilismo virtual e o da vida real, não se pode negar que o público é exatamente o mesmo. O que permite a esperança de que talvez o futuro não seja tão árido como se chegou a temer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.