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Final entre Fernandez e Raducanu no US Open é triunfo da imigração

Emma Raducanu ao conquistar uma vaga na final do US Open de 2021 - Getty Images
Emma Raducanu ao conquistar uma vaga na final do US Open de 2021 Imagem: Getty Images
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

11/09/2021 04h00

A decisão da chave feminina do US Open, marcada para este sábado, às 17h (de Brasília, com transmissão de SporTV, ESPN e Star+), é encantadora por vários motivos. A canadense Leylah Fernandez, 19 anos e número 73 do mundo, vai enfrentar a britânica Emma Raducanu, 18 anos, #150 do mundo, e que se tornou a primeira pessoa da história a alcançar a decisão de um slam saindo do qualifying - e fez isso sem perder sets! É apenas a oitava final de slam na história entre duas adolescentes e a primeira desde Serena Williams x Martina Hingis no US Open de 1999. Mas essa é só uma parte da história.

Meu motivo preferido é ver uma canadense chamada Fernandez, filha de pai equatoriano e mãe de família filipina (saiba mais aqui), e uma britânica chamada Raducanu, também nascida no Canadá e filha de um pai romeno e uma mãe chinesa que se mudaram para o Reino Unido quando Emma ainda era pequena. Não foram tenistas "compradas" pelas federações desses países. Não mudaram de federação e nacionalidade em busca de recursos para financiar suas carreiras. São, sim, uma geração originada por gente que deixou seu país em busca de trabalho e oportunidades melhores.

Não são casos isolados no tênis. Como já escrevi num texto anterior e ressaltei no UOL Esporte News nesta semana, toda excelente nova geração do tênis canadense é composta por filhos de imigrantes. Denis Shapovalov, atual número 10 do mundo, nasceu em Israel filho de um russo e uma ucraniana. O pai de Félix Auger-Aliassime, #15 e semifinalista deste US Open, nasceu em Togo. Bianca Andreescu, campeã do US Open de 2019, tem pais romenos.

Até os tenistas de sucesso mais velhos do país são filhos de imigrantes. Gabriela Dabrowski, 29 anos e parceira de Luisa Stefani, tem origem polonesa. Milos Raonic, 30 anos a ex-número 3 do mundo, nasceu na Iugoslávia e foi levado ao Canadá quando o país viveu conflitos étnicos e sua família buscava melhores emprego e condições dignas de vida.

Não é coincidência. Em lugar nenhum. Quando um país (ou uma cidade) recebe de braços abertos e trata como sua uma gente disposta a arregaçar as mangas, os resultados aparecem em todos os campos. Na ciência, na economia e, claro, no esporte. Cria-se uma cultura de trabalho, e um povo que não tem medo de pegar pesado - pelo contrário, orgulha-se disso - faz uma nação melhor.

É fácil de entender por que um país liderado por um presidente que respeita imigrantes e minorias (veja o tweet de Justin Trudeau acima) e vibra com seus compatriotas em várias áreas de atuação, verdadeiramente sem preconceito ou viés político, esteja na frente de tantas e tantas nações em diversos campos.

Para terminar, a frase de Gaby Dabrowski dita na entrevista logo depois de conquistar uma vaga nas semifinais resume bem:

"É fenomenal o que o Canadá está fazendo. Somos, literalmente, um país de imigrantes, então somos pessoas que trabalham duro, que viemos do nada e fizemos algo de nós mesmos, então tem sido incrível compartilhar esse momento com eles [outros tenistas canadenses]".

Exemplos não faltam. Quem não tiver preconceito que aprenda o caminho.

Coisas que eu acho que acho:

Um dia depois de escrever este texto, vi este trecho de uma entrevista com Jorge Fernandez, pai de Leylah. A pergunta é sobre o que significa para ele e a família representar o Canadá. Ele responde "significa tudo" antes de fazer uma pausa, visivelmente emocionado. "Fala-se muito nas notícias sobre imigrantes. Entendo o sentimento nacionalista e que precisamos proteger e que temos recursos limitados. Eu entendo tudo isso. Não quero entrar em política, não é isso que estou fazendo. O que estou dizendo é que somos uma família imigrante e não tínhamos nada. O Canadá abriu suas portas e se não tivessem feito isso, eu não teria as oportunidades que tive e não poderia ter dado isso para a minha filha. É isto. Então significa muito."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL