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Davis: cancelamento precoce mostra má vontade de Piqué e cia

TF-Images/Getty Images
Imagem: TF-Images/Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

29/06/2020 12h39

Na última sexta-feira, a Federação Internacional de Tênis (ITF) distribuiu um comunicado informando que as finais da Copa Davis de 2020, inicialmente marcadas para novembro deste ano, não vão mais acontecer. O evento mudará de nome, passará a levar "2021" no rótulo e começará no dia 22 de novembro do ano que vem, em Madri, na Caja Mágica.

A entidade informa que passou três meses avaliando os desafios logísticos e legislativos que surgiram como consequência da pandemia do novo coronavírus e que deu prioridade à saúde e à segurança de todos envolvidos na competição. Por isso, adiou também as finais da Fed Cup, que pela primeira vez seriam disputadas nesse novo formato com sede única e vários países.

No entanto, o que foi vendido como "prioridade à segurança" foi recebido por boa parte do mundo do tênis com estranheza. Afinal, é possível argumentar que se é possível disputar o US Open em agosto, com mais de 300 atletas competindo no mesmo local, por que não daria para fazer a final da Copa Davis, com menos de 100 atletas, em novembro e na Europa, quando espera-se que os números de covid-19 sejam bem mais modestos? Por que tomar a decisão de adiar cinco meses antes da competição?

A resposta talvez esteja em uma reportagem do jornal francês L'Équipe, em que a organização da nova Copa Davis, comprada por um valor bilionário pelo grupo Kosmos, encabeçado por Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona. Segundo o diário, o grupo Kosmos perdeu mais de € 50 milhões com a organização das finais da Copa Davis de 2019 e perderia mais € 18 milhões este ano. Logo, a decisão por cancelar o evento poupou os bolsos dos investidores. A pandemia teria sido a justificativa perfeita para esconder a má vontade de Piqué e cia. com um evento que não deixa de acontecer desde a Segunda Guerra Mundial.

Os ataques são contundentes. O francês Nicolás Mahut, duplista #3 do mundo, afirmou: "Gostaria que Piqué pusesse tanta energia em defender a realização de 2020 quando ao destruir a fórmula tradicional." É uma mágoa conhecida de muitos tenistas. Como condição para o investimento bilionário, o grupo Kosmos exigiu mudanças radicais no formato da Copa Davis. O torneio deixou de ser jogado em confrontos diretos ao longo do ano, com um país sediando cada duelo, para ter um playoff no início da temporada e uma fase final em novembro, com sede única (neutra) e 18 países em quadra ao longo de uma semana de partidas. As alterações não caíram no gosto de muitos tenistas, e o público não foi o esperado pelos organizadores. Vários duelos foram disputados em quadras quase vazias. Os números só não foram piores porque a Espanha, dona da casa, contou com Rafael Nadal e conquistou o título, garantindo arquibancadas cheias pelo menos nesses confrontos.

O capitão da França na Davis, Sébastian Grosjean, também criticou pesadamente: "Sinceramente, não esperava que o torneio fosse cancelado tão rapidamente. Não sei se poderíamos ter jogado em novembro, mas vendo que pensam que a situação estaria boa nos EUA em agosto e em grande parte da Europa em setembro, acredito que deveriam ter esperado algum tempo." Grosjean também lembra que o torneio de Madri está confirmado nos calendários de ATP e WTA e será disputado antes de Roland Garros, em setembro. "A Copa Davis na Caja Mágica coberta, não, mas o Masters 1000 de Madri, dois meses antes, no mesmo lugar, sim. É ridículo."

O francês Louis Borfiga, vice-presidente de desenvolvimento de alto rendimento da federação canadense, a Tennis Canada, também foi incisivo no que disse: "Não houve conferências para debater o cancelamento da Copa Davis e da Fed Cup. A ITF tem estado estranhamente ausente dos debates nos últimos meses. Onde ela está? A ITF não cumpre seu papel. É chocante."

Coisas que eu acho que acho:

- As críticas fazem sentido, e a antecipação com que a decisão foi tomada leva a crer que os números citados pelo L'Équipe são mesmo o fator decisivo. Piqué e seus investidores descobriram em 2019 que não é tão simples assim fazer dinheiro com a Copa Davis (e isso vale para qualquer formato) e preferiram tirar um ano de folga para pensar no que fazer em 2021. De qualquer modo, vai ficando mais e mais evidente que: 1) Piqué sempre teve interesses mais financeiros do que esportivos; e 2) o novo formato não trouxe o sucesso prometido pelo grupo Kosmos e pela ITF.

- Pequeno, mas curioso detalhe: o texto da ITF que anuncia o cancelamento da Davis de 2020 começa com a seguinte frase: "Kosmos Tennis e a Federação Internacional de Tênis..." Além disso, o comunicado traz uma declaração de Piqué antes da frase do presidente da ITF. Parece que deixam claro quem está mesmo dando as cartas na Davis.

- Muitos dos presidentes das federações nacionais que votaram a favor da mudança de formato o fizeram baseados na promessa de que o dinheiro extra que entraria para a ITF seria repassado e engordaria os caixas de todas essas entidades ao redor do planeta (que, lembremos, é redondo). Sem Davis em 2020, como ficam esses cartolas? Será que pesa a consciência?

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