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Tênis exige silêncio, mas jogar sem público é insanidade

Divulgação/FFT
Imagem: Divulgação/FFT
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

05/06/2020 04h00

A regra do tênis exige silêncio. Diante de uma frase assim, fria e isolada, parece que a modalidade que consagrou o caladão Bjorn Borg não precisa de arquibancadas cheias. É justamente o contrário. É o calor do público entre os pontos que, muitas vezes, dá o tom de um duelo. É a vibração que também consagrou o caliente John McEnroe e que agora, em 2020, pode deixar uma lacuna em dois dos torneios mais importantes do circuito.

As circunstâncias, contudo, são extremas. O mundo ainda vive sob a pandemia do novo coronavírus, há restrições de locomoção e o consenso - pelo menos por enquanto - é que realizar um slam como o US Open (marcado para 31 de agosto) ou Roland Garros (adiado para 20 de setembro) com casa cheia colocaria em risco a vida de milhares de pessoas. A solução passaria necessariamente por esvaziar os complexos, entre tantas outras medidas.

Soa paradoxal, mas é justamente o silêncio exigido durante os pontos que torna o público vital entre eles. De que adianta um gran willy de Roger Federer sem ninguém para levantar e gritar depois do ponto? Quanta graça perderia o match point salvo por Djokovic em Wimbledon sem aquela a torcedora do suíço de pé, levantando o dedinho, indicando que só faltava um ponto? Como soaria um grito de "Vamos" de Nadal sem a galera fazendo barulho junto? Será que o espanhol teria/terá a mesma empolgação? Receio que 2020 possa trazer respostas para situações como essas.

Imagine, caro leitor, o seguinte desenrolar de um jogo: um azarão qualquer vai derrotando Federer em Roland Garros (onde o suíço é especialmente amado) por 2 sets a 0 e saca em 4/4 na terceira parcial. O desafiante joga uma bola na rede: 0/15. Em seguida, comete uma dupla falta: 0/30. Todo mundo sabe o que acontece num torneio normal. Os fãs do suíço "acordam", o barulho aumenta e, de repente, parece que Federer está a dois pontos de fechar o jogo (e não apenas de uma quebra). A torcida muda o ambiente, empurra seus ídolos, aumenta loucamente a pressão sob os tenistas de ranking inferior. Faz parte do show.

Visualize, caro leitor, Nadal e Djokovic duelando em um Estádio Arthur Ashe, a maior arena já construída para o tênis, deserto. Ou pense como seria a atuação de Nick Kyrgios sem plateia. Ou Gael Monfils. Ou Dustin Brown. Que tristeza seria ver um backhand bombástico de Dominic Thiem passando pelo oponente para fazer "apenas" o som de uma bola batendo na parede? Sem o público, o tênis perde em pessoalidade. Seria/será mil vezes pior do que a lamentável frieza do Hawk-Eye Live, aquela máquina que simula uma pessoa gritando "out" no mesmo tom e no mesmo volume durante o jogo inteiro.

"Tênis, sem os fãs, perde quase tudo", diz Nadal no vídeo acima, publicado pelo Eurosport. Por outro lado, retirar os fãs dos torneios pode ser a única maneira de resgatar o esporte ainda em 2020. A pandemia coloca entidades, torneios, atletas, TVs e todos interessados em uma partida de "sem tênis" x "sem público" que será decidida num escritório qualquer - ou melhor, em vários escritórios conectados por Zoom ou Google Meet, um ambiente mais impessoal ainda. É mais um teste para a sanidade mental de todos, um dilema sem solução simples ou unânime. E, no fim das contas, a outrora insana e impensável opção por realizar eventos gigantes sem espectadores pode ser, infelizmente, necessária. Que os deuses - inclusive os do tênis - nos ajudem!

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