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Rio Open em 32 gotas

Fotojump
Imagem: Fotojump
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

24/02/2020 15h29

Com títulos de Cristian Garín nas simples e Horacio Zeballos / Marcel Granollers nas duplas, o Rio Open chegou ao fim ontem - um animado domingo de Carnaval, que teve cinco partidas diferentes em quadra, incluindo as semifinais adiadas pelo mau tempo. É hora, então, de repassar o que aconteceu durante a semana do maior (e, agora, único) torneio de nível ATP disputado no Brasil. Farei isso nas gotas (as tradicionais curtinhas, mas com o nome adequado ao tema dos últimos dias) abaixo:

1. Garín: solidez nas adversidades

Impossível questionar o mérito de Cristian Garín na semana. No começo do torneio, foi escalado para dois jogos de dia, no calor. Depois, teve de lidar com interrupções, adiamentos e o pouco tempo de descanso entre sábado e domingo. Lidou bem com tudo isso, mostrou um tênis sólido durante toda a semana e venceu jogos que apresentaram desafios diferentes, desde o consistente Federico Coria, passando pelas devoluções agressivas de Borna Coric e terminando com o tênis quase kamikaze de Gianluca Mager. O Rio Open 2020 não foi um torneio nada, nada fácil.

2. Mager: uma divertida surpresa

Quando a Quadra Central ficou super pesada por conta da chuva, as chances de Dominic Thiem conquistar o título diminuíram consideravelmente. É um roteiro que se repete no Rio de Janeiro. Não era esperada, contudo, essa derrota para Gianluca Mager. Não para um adversário de ranking tão baixo. Não em um jogo que foi interrompido na sexta-feira. O favorito certamente encontraria uma maneira de virar a partida no sábado. Não aconteceu. Mager e suas bombas foram longe - até a final - e renderam uma divertidíssima entrevista coletiva pós-final. Relatei os melhores momentos disso (e muito mais) no podcast Rio Open.

3. Na chave de duplas, Zeballos e Granollers aproveitaram bem as condições lentas e venceram mais um torneio - eles haviam conquistado Buenos Aires na semana anterior. É uma parceria que está bem afinada, foi vice-campeã do US Open no ano passado, e que já coloca Zeballos como número 4 do mundo (Granollers ainda é o 15º).

4. O começo da semana foi marcada por incríveis vitórias de brasileiros. Thiago Wild bateu o top 100 Alejandro Davidovich Fokina, Thiago Monteiro superou o cabeça 4, Guido Pella, e a dupla de Rafael Matos e Orlando Luz bateu os números 1 do mundo, Cabal e Farah. Foram dias interessantes e promissores - pena que a sequência não foi tão boa assim.

5. O nome do Brasil no torneio foi Thiago Wild. Não só pela vitória sobre Fokina em 3h49min - partida mais longa da história do Rio Open - mas pela apresentação madura diante de Borna Coric. Leitura de jogo, execução, escolha de golpes? Wild fez quase tudo certo naquela noite e, por pouco, não derrubou o ex-número 12 do mundo. Escrevi mais sobre Wild aqui.

6. O Rio Open 2020 teve, mais uma vez, bom público - apesar de apenas uma sessão com ingressos esgotados. No ano passado, a organização encontrou uma solução para ocupar os assentos da quadra principal (mesmo com muita gente circulando pela área externa durante as partidas). Este ano, a fórmula se repetiu e incluiu um pequeno avanço: mais pessoas ficaram no complexo durante as interrupções por chuva. A cobertura construída sobre a área de alimentação manteve as pessoas no complexo (e consumindo!) até o recomeço das partidas.

7. Mais torcida em um evento de tênis no Brasil, infelizmente, também significa maior chance de ter alguns espíritos de porco na arquibancada em jogos importantes. Aconteceu no quentíssimo jogo entre Wild e Fokina. Triste. O vídeo abaixo é um exemplo de muitos que ouvi.

8. Ainda sobre essa partida, que durou 3h49min, que foi uma das vitórias mais importantes da jovem carreira de Wild, que tinha arquibancadas cheias, o torneio errou feio ao realizar a entrevista pós-jogo com o tenista sentado em seu banco. Quando Ricardo Acioly, o mestre de cerimônias, sentou-se ao lado de Wild, decretou que metade da arena não veria a entrevista. Foi uma enorme falta de respeito com o público. Wild estava cansado? Claro que estava. Mas não podia ficar dois minutos em pé em respeito ao público? Duvido que não. Mas não é exatamente um problema novo no tênis brasileiro. A falta de ídolos faz com que muitos tenistas promissores sejam paparicados cedo demais - muitas vezes, por muito pouco.

9. Tão ruim quanto é permitir que o SporTV faça uma (longa) entrevista sem que o áudio seja liberado para a quadra antes da entrevista oficial do torneio - aquela que o público escuta. É um protocolo que privilegia quem está vendo pela TV em detrimento de quem pagou ingresso. Nos slams, as entrevistas para TV são as mesmas que o público na arena assiste. Não sei se é possível reproduzir isso no Rio Open, mas o protocolo atual deixa a desejar.

10. Para ilustrar os dois parágrafos acima, deixo aqui o vídeo da entrevista de Nick Kyrgios após um jogo de 4h27min contra Karen Khachanov no último Australian Open. Um jovem tenista da casa, frequentemente criticado por seu comportamento, esgotado, mas de pé, no meio da quadra, falando o pouco que conseguia, em respeito ao público.

11. O Rio Open manteve a tradição de homenagear nomes ilustres do tênis brasileiro, e o nome da vez foi Jaime Oncins, atual capitão do Brasil na Copa Davis. Foi uma bela homenagem, embora a Quadra Guga Kuerten estivesse um tanto vazia quando aconteceu. É, aliás, uma peculiaridade do evento carioca: o público sai de quadra muito rápido (talvez já sabendo que precisaria esperar muito pelas entrevistas pós-jogo). No caso de Oncins, o locutor ainda foi ágil e avisou que haveria a homenagem, mas não adiantou muito.

12. Em papo com os jornalistas, Oncins falou sobre a próxima Copa Davis. O capitão ressaltou o período de renovação e se mostrou otimista com o material que terá para trabalhar nos últimos anos, mas não quis descartar ninguém em momento algum. Tudo indica que os veteranos continuarão, digamos assim, convocáveis.

13. A surpresa mais agradável do início da semana foi o triunfo de Rafael Matos e Orlando Luz sobre os colombianos Juan Sebastian Cabal e Robert Farah. Ainda que Farah estivesse sem ritmo de jogo, voltando de uma suspensão provisória por doping (acabou inocentado), serviu para mostrar que Matos e Luz não estão tão longe assim da elite das duplas. Orlandinho segue dando prioridade à sua carreira de simples, mas nesse ritmo, pode ser que os dois rankings (simples e duplas) fiquem tão distintos a ponto de exigir uma dedicação exclusiva por parte de Orlandinho.

14. Fiquei especialmente feliz por Matos, o menos badalado da turma Luz/Zormann/Menezes/Matos desde a transição para o profissional. É um jovem super querido no meio e que tem um tênis muito interessante de ver - e escrevo isso há pelo menos dois anos no blog. Se lhe falta potência para definir pontos mais rápido, sobram toque, habilidade, reflexos e inteligência para construir pontos.

15. O Rio Open 2020 também marcou a estreia oficial de um sistema eletrônico de revisão em um ATP no saibro. O sistema FoxTenn (mais preciso que o Hawk-Eye e único apto a ser usado no saibro) funcionou sem problemas durante a semana e o número de reclamações dos tenistas foi mínimo. Veja abaixo como ele funciona:

16. A queixa mais enfática veio de Federico Coria, que comemorava a vitória sobre Carlos Alcaraz quando o FoxTenn, no match point, mostrou bola boa em um lance que Coria considerava bola fora. O argentino reclamou com o árbitro, mas teve de voltar ao jogo e, dois pontos depois, finalmente selou a partida. É importante ressaltar que Coria chegou à zona mista sem convicção, perguntando aos jornalistas se a bola havia mesmo sido boa. A transmissão de TV mostrou uma marca no saibro, mas de um ângulo do qual era impossível cravar dentro ou fora.

17. Aproveitando o embalo, que belíssimo tenista já é o ainda promissor Carlos Alcaraz Garfia, de 16 anos. Mostrou belos golpes, um tênis agradavelmente ofensivo e muito controle emocional - especialmente para sair de 0/3 e 0/40 para virar um terceiro set contra o experiente Albert Ramos na madrugada carioca. Esse jogo foi o segundo mais longo da história do Rio Open. A campanha de Alcaraz foi um belo tapa nos que reclamaram do wild card concedido ao adolescente espanhol.

18. Não foi a semana dos sonhos de Dominic Thiem, que começou sua participação no torneio perdendo um set para Felipe Meligeni. Aconteceu quando o austríaco ficou assustado com uma dor no joelho que reapareceu do nada, durante a partida. Thiem se contundiu quando bateu o joelho em uma porta no Jockey Club, mais cedo, naquele mesmo dia.

19. O austríaco não encontrou seu melhor tênis em momento algum da semana. Ele ressaltou - com razão - o quanto é difícil dar sequência à temporada em fevereiro após fazer um longo Australian Open (ele foi vice-campeão). Thiem ainda desistiu de Buenos Aires para se preparar melhor, mas as condições do Rio - calor, umidade, chuva, rain delays, etc. - não facilitaram sua tarefa.

20. É justo imaginar que Thiem possa repensar seu calendário e tirar a América do Sul de sua sequência de torneios em 2021. Vale notar, porém, que ele sempre frisou o fato de ir longe no Australian Open para justificar as atuações abaixo do esperado no Rio. Em caso de derrota precoce em Melbourne no ano que vem, aposto que Dominic volta. Se voltar a ir longe na segunda semana, aí a coisa muda de figura.

21. Quem não reclamou das condições foi Borna Coric. O croata, assim como Garín, encarou os rain delays de forma profissional, sem reclamar ou culpar o torneio. Disse até que jogar o Rio Open é uma ótima preparação física e mental para Indian Wells e Miami.

22. Aplausos para Felipe Meligeni, que encarou de cabeça erguida a árdua tarefa de encarar Dominic Thiem na primeira rodada e foi recompensado com o ponto mais espetacular do torneio.

23. O tio, Fernando Meligeni, além de aplaudir o filho, teve uma semana cheia de compromissos com patrocinadores. Deu clínicas, autógrafos e selfies, parou para tomar uma cervejinha na sala de imprensa (da série "fotos que guardarei para a eternidade") e anunciou um novo projeto: uma série de web-aulas de tênis.

24. Thiago Monteiro deixou um sabor de "desperdiça chance" ao cair nas oitavas de final diante do húngaro Attila Balazs depois de aplicar 6/1 no primeiro set contra o rival. O cearense, atual número 1 do Brasil, teria a oportunidade de alcançar a final do Rio Open enfrentado apenas um top 100 (Pella, que ele encarou e superou na primeira rodada). Seu caminho teria, depois de Balazs, Pedro Martínez e Gianluca Mager.

25. Ainda assim, é possível dizer que Monteiro mostrou evolução em sua vitória contra Pella. O cearense é, hoje, um atleta com golpes mais sólidos e um tênis mais organizado. Melhorou na leitura de jogo e na escolha de golpes. A evolução é fruto do trabalho com o ótimo técnico argentino Fabian Blengino.

26. Bati um papo rápido com Blengino logo antes da estreia de Monteiro no Rio Open. Falamos sobre o momento em que o argentino chorou em Buenos Aires (quando Monteiro bateu Coric), mas o que eu queria mesmo era ouvir seu conceito de tênis. Dá para entender por que Monteiro deu vários passos à frente no ranking. Leia aqui.

27. Lembram do Paulo André Saraiva, filho de pedreiro e diarista que, em 2018, conquistou seu primeiro ponto na ATP? Contei sua história aqui. Pois aquele ponto foi obtido em um torneio da antiga série Future, patrocinado pelo Santander. Agora, no Rio Open, o banco levou Paulo André até a Cidade Maravilhosa para mostrar que, às vezes, uma oportunidade muda tudo.

28. Por mais oportunidades assim.

29. Ainda no tema "oportunidades", Federico Coria derrotou Corentin Moutet em três sets, vencendo dois tie-breaks, na primeira rodada do Rio Open e, em seguida, eliminou Carlos Alcaraz. Chegou felicíssimo à zona mista. Número 116 do mundo na semana passada (#104 hoje), comemorava o fato de se aproximar do top 100 e ganhar dinheiro suficiente para custear parte de sua temporada. Alegria de quem vai chegando a um outro patamar na profissão, onde a grama é certamente mais verde. Com as quartas no Rio Open, Coria embolsou US$ 48.050. Um belo prêmio.

30. A última coletiva da semana terminou com o diretor do Rio Open, Lui Carvalho, confirmando a possibilidade de o Brasil voltar a ter um torneio de nível WTA. Existe a chance de o evento de Budapeste, que foi "alugado" pela IMG/IMM a um promotor húngaro, retornar ao Brasil, desta vez como evento independente, em outra data, separado do Rio Open. Lui deixa claro que isso é uma das possibilidades que estão sendo consideradas. Em momento algum, ele fala que isso é provável ou que existe uma grande chance. A declaração do diretor está no finzinho do podcast Rio Open de hoje.

31. Muito obrigado aos companheiros de cobertura. Ainda existe a turma que só aparece pelos jabás, mas a sala de imprensa do Rio Open tem ótimo ambiente para trabalhar. Desde a assessoria do torneio, chefiada por Diana Gabanyi, até os companheiros da "concorrência" (a gente mais se ajuda do que concorre). As horas de trabalho foram muitas (o único dia que saí do Jockey antes de 1h foi o domingo da final), mas as risadas também foram. Sim, é possível rolar de rir num ambiente assim. Literalmente.

32. Aos que não gostam de tênis ou não entendem o quão especial é acompanhar uma rodada que acaba às 3h, um beijo. Naquela segunda-feira, com as vitórias de Wild (3h49min) e Alcaraz (3h36min), não havia lugar melhor no mundo para ver tênis.

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