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Thiago Monteiro: desconforto, evolução e emoção com técnico argentino

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Imagem: Fotojump
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

19/02/2020 04h38

Em meados de 2018, depois de duas temporadas sem a evolução esperada, Thiago Monteiro decidiu que precisava buscar algo novo. Deixou a Tennis Route, academia onde treinava no Rio de Janeiro, e formou parceria com o técnico argentino Fabian Blengino - o mesmo que treinava Guillermo Coria durante a campanha até a final de Roland Garros/2004.

Em 2019, os resultados começaram a aparecer. Após dois anos fora do top 100, o cearense ganhou um Challenger em Punta del Este, furou qualifyings em Miami, Roland Garros e Wimbledon, foi campeão do forte Challenger de Braunschweig e terminou o ano como 89º do mundo. Não apenas de volta ao top 100, mas mais maduro e com um tênis mais bem estruturado.

A temporada 2020 veio e, com ela, mais boas atuações. Oitavas no ATP de Auckland, um belo jogo diante de John Isner no Australian Open e uma vitória sobre o #31 do mundo, Borna Coric, no ATP de Buenos Aires. Após este jogo, uma demonstração de que a parceria era um mais do que uma relação contratual jogador-técnico. Blengino, na beira da quadra, chorava ao festejar o triunfo de seu pupilo (confira no vídeo abaixo).

Aqui no Rio de Janeiro, antes de Monteiro estrear, conversei com Blengino, que voltou a se comover ao lembrar daquele momento.

"Eu me emocionei por várias coisas. Por ver um Thiago jogar em um nível que eu queria vê-lo jogar, ver um jogador completo, que podia usar uma direita alta, uma direita angulada, um revés, dar uma curtinha, fazer um ponto de voleio… Ver a personalidade dele, ver um jogador completo, que fez tudo para conseguir aquilo, ganhar aquela partida. É uma pessoa excelente. Temos um grupo muito bonito com ele e o preparador físico. Atrás de mim [no camarote] estava minha mulher, estava minha filha. Não sei. Vejo tênis e jogadores há 30-35 anos e nunca me emocionei assim. Tive um momento com [Guido] Pella, que treinei por 14 anos, é como um filho meu, que também me fez chorar, mas assim… Se você perguntar por quê, não sei. Foi tudo. Tudo junto. E não conseguia parar. Abracei Thiago, minha filham o preparador físico. E chorava. Não sei. Fiquei encantado com ele ganhando. Ele é nota 10 como pessoa."

Também pedi a Blengino que me contasse como foi a primeira conversa e o começo da relação com Monteiro. A resposta tem muito a ver com o que o cearense vem mostrando em quadra - e exibiu na vitória desta terça-feira sobre Guido Pella, na primeira rodada do Rio Open - e com o que o próprio Thiago contou em conversa com jornalistas na sala de imprensa do Jockey Club Brasileiro antes do início do torneio carioca.

"Vi um jogador muito potente, mas incompleto, que tinha muitas coisas a melhorar. Tinha que melhorar sua ordem dentro da quadra, não era só bater muito forte. Tinha que melhorar sensibilidade, voleio, slice, jogar melhor os pontos longos. Eu gosto de um tênis completo, sem buracos. Se tem uma boa direita, vamos melhorar a direita, mas vamos melhorar a esquerda. O jogador tem que ser o mais completo possível. Se você enfrenta um jogador que se incomoda com slices, que nós possamos usar slices. Que se o outro te manda uma bola difícil, que você consiga devolver essa bola. Trabalhamos muito. Ele é um jogador que se esforça de uma forma incrível. Quer ficar na quadra, quer melhorar, não tem nada que atrapalhe sua meta de ser um grande jogador de tênis. Ele vai fazer tudo. Não vai deixar nada por fazer. Eu gosto. Acho que sou mais professor do que técnico de tênis às vezes. Gosto de ensinar. Tenho uma academia há 35 anos Gosto de ensinar técnica, e acho que Thiago está cada vez mais completo."

Blengino disse ainda que espera ver o brasileiro entre os 50 melhores do mundo porque Monteiro está "muito bem de cabeça, muito bem de físico" e evoluiu, além de aspectos técnicos, na compreensão dos momentos da partida e do que fazer em ocasiões específicas.

"Antes, sua cabeça ia embora com pouco tempo. Errava uma bola e perdia três games. Agora ele errou um smash [no tie-break contra Coric em Buenos Aires], não disse uma palavra e foi correndo trocar de lado para estar mais forte para terminar a partida. Peço muita claridade e ordem porque ele se desordena e não quer ganhar o ponto, mas matar o adversário. E manda a bola fora, fora, fora. Quero que jogue o ponto. É preciso continuar nesse trabalho. Os pontos devem ser preparados. Se vem uma bola funda e você está muito atrás, não pode tentar um winner. Eu também queria fazer um winner, mas não dá. A bola vai para fora. É preciso aprender a jogar. A bola pede o que você tem que fazer com ela. Se a bola está aqui, no meio da quadra, eu faço um winner. Se não dá, não dá. É preciso jogar os pontos, entender melhor o jogo, quando sim e quando não [fazer as coisas]."

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Desconforto pela evolução

No papo que teve com a imprensa, Monteiro, atual número 88 do mundo aos 25 anos, deu exemplos de como a evolução de seu jogo vem acontecendo e contou que tudo fez parte de um processo em que ele precisou brigar contra seus próprios instintos. Foi necessário sair de sua zona de conforto para alcançar outro patamar.

"Sempre soube os déficits do meu jogo e sempre buscava chegar mais à rede ou devolver [o saque] mais dentro [da quadra] ou buscar devoluções agressivas, só que no momento do jogo, eu realmente sempre ia para a parte mais cômoda, onde eu me sentia bem. Ao mesmo tempo, era onde o pessoal mais me pegava. Eu ia pra trás, o cara fazia um saque aberto e vinha para a rede. Eu não tinha tanto essa coragem de executar o que tinha que ser executado, mesmo errando. Eu pensava que errar era o pior e que eu deveria sempre buscar me sentir bem onde eu me sentia bem, só que no nível que hoje em dia se joga, é muito difícil você estar muito defensivo ou muito atrás e ganhar de um cara como o Isner. A gente planejou realmente entrar na devolução ou até atacar alguns segundos saques, algo que eu raramente fazia, principalmente na quadra dura. Eu vi que se eu tivesse uma convicção no que eu estava fazendo, as coisas entravam, encaixavam porque estava bem treinado. Acho que evoluí muito nessa parte do amadurecimento, de entender o jogo e saber que realmente tem pontos que se você vai para uma bola e ela sai um pouco… É coisa do jogo. Uma ou duas devoluções que você arrisca, o cara já vai pensar onde vai sacar depois."

Como diz o popular clichê esportivo contemporâneo, é preciso acreditar no processo, e Monteiro é um grande exemplo disso.

"Em qualquer alteração, primeiro você tem que acreditar no que o seu treinador diz, aceitar e, depois, executar. No começo, nunca é confortável fazer uma mudança, mas depois que você sente que está evoluindo e vê que está no caminho certo, quando você entra de cabeça nisso e começa a executar e vai melhorando cada vez, se torna automático e aí confortável de novo. Com qualquer jogador acontece. Você tem que sempre buscar alternativas. Eu joguei com o [Cameron] Norrie este ano, em Auckland, e ele tem um revés muito reto, a bola vai muito pra baixo. Eu estava sentindo bem o meu revés lá também, só que revés com revés, o dele me incomodava mais, então eu tive que buscar uma maneira de tentar anular essa vantagem dele e tentar jogar mais com a minha direita. Comecei a usar um pouco mais o slice, aí pegava mais de direita, e o revés acabou não conseguindo fazer mais tanto efeito. Eu consegui ganhar o jogo, fazia tempo que eu não ganhava uma rodada em ATP até o torneio de Auckland. Antigamente, se fosse para manter o conforto, eu ia tentar, sei lá, bater cada vez mais forte e ver se eu conseguir "furar" ele (risos), mas ia acabar cometendo mais erros. Então saí um pouco da minha zona de conforto, que é bater, tentai usar o slice, e aí mudar a dinâmica do jogo. Como com a devolução também. Eu ia sempre mais para trás e achava que seria o melhor para mim no momento, mas ao mesmo tempo é difícil você ver uma evolução voltando para o seu lado de conforto e que você acha que vai te trazer bons frutos, mas na verdade para o alto nível, ainda mais na quadra rápida, é mais difícil, né?"

O duelo desta terça-feira, que terminou com vitória por 5/7, 6/4 e 7/6(3) sobre Guido Pella depois de 3h03min e com o match point muito além da meia-noite, foi outro belo exemplo do que Monteiro descreveu. Não foi uma atuação de gala do começo ao fim - ele próprio admitiu tensão no primeiro set, quando sacou para fechar e levou a virada. Foi, contudo, uma jornada em que o cearense tirou seu melhor no fim. No tie-break decisivo, sacou bem, jogou solto, agredindo e usando variações - entre elas, o slice. Coube a Pella o papel de atleta mais tenso e errático do game de desempate.

Assim, Monteiro avançou para as oitavas de final e será favorito contra o húngaro Attila Balazs, número 106 do mundo. O azarão encarna o papel do "vilão" sem nada a perder. Entrou na chave do Rio Open como lucky loser após a desistência do atual campeão, Laslo Djere, e estreou derrubando o perigoso uruguaio Pablo Cuevas. Resta saber como o húngaro reagirá na quadra principal, diante de tanta torcida contra. O cenário é muito favorável a Thiago.

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