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Título de Djokovic é mais um exemplo perfeito da soberania do Big 3

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

03/02/2020 04h00

Ele se perdeu no começo do segundo set, enfrentando problemas com o serviço, e sentiu-se sem energia na terceira parcial. Diante de um embalado Dominic Thiem, que vinha de vitórias maiúsculas sobre Rafael Nadal e Alexander Zverev, Novak Djokovic vivia uma situação delicada. O sérvio, no entanto, se recompôs fisicamente, se segurou na partida e esperou uma chance. No primeiro vacilo do oponente, deu o bote. Venceu o quarto seu e arrancou na frente na parcial decisiva rumo ao oitavo título em Melbourne.

As 3h59min da partidaça deste domingo, no Australian Open, são, em sua essência, uma resumo dos motivos que fazem o Big 3, grupo composto por Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer, tão dominante. Não é nada por acaso que o trio venceu os últimos 13 torneios do grand slam. A combinação de qualidades técnicas, físicas, táticas e mentais de cada um desses tenistas é tão poderosa que torna-se hercúlea a tarefa de derrotá-los em qualquer dos quatro maiores torneios do circuito, que são jogados em melhor de cinco sets.

Thiem foi soberbo para eliminar Nadal nas quartas de final do Australian Open e era o melhor tenista em quadra depois de três sets contra Djokovic, mas bastou o menor dos vacilos para que o veterano transformasse um buraco de fechadura em janelão. Entrou de volta no jogo, tomou o controle e não largou mais as rédeas. Recuperou-se fisicamente no intervalo entre o terceiro e o quarto sets, mostrou capacidade técnica para impedir Thiem de disparar no placar e teve a inteligência emocional para reconhecer o momento de instabilidade do rival e arrancar rumo à vitória.

A final deste domingo está longe de ser um caso isolado. Outra bela demonstração de superioridade do Big 3 sobre o resto do circuito foi dada por Rafael Nadal na final do US Open do ano passado, contra Daniil Medvedev. Primeiro, a experiência pesou: diante de um estreante em finais, o espanhol, mais habituado a esse tipo de situação, abriu 2 sets a 0 executando um plano de jogo inteligente e que minimizava os pontos fortes do russo.

A partir do terceiro set, contudo, Medvedev fez ajustes táticos, passou a errar menos e aproveitou-se de um par de games ruins de Nadal para empatar o jogo e forçar o quinto set. Quando a parcial decisiva começou, o russo tinha o momento a seu favor e parecia em melhores condições físicas do que o veterano. Medvedev teve três break points no primeiro game de saque de Nadal. A virada "impossível" já parecia um tanto provável.

Veio, então, mais uma prova da força de um Big 3. Rafa jogou três pontos perfeitos para manter seu serviço e tirou forças para pressionar o russo. Mais preciso do que nos sets anteriores e implacável como quase sempre, o espanhol venceu quatro games seguidos e disparou no placar enquanto Medvedev voltava a oscilar. O russo ainda tentou uma reação, devolvendo uma das quebras e conquistando um break point com Nadal sacando para o jogo. Rafa, claro, se salvou, venceu três pontos seguidos e levantou seu quarto troféu em Nova York.

Mais um exemplo? Que tal a final do Australian Open de 2018? Na ocasião, Roger Federer defendia o título contra um Marin Cilic super em forma e que havia superado Rafa Nadal nas quartas de final. O suíço, favorito, abriu 2 sets a 1, mas o croata reagiu e venceu o quarto set com uma sequência magnífica na reta final da parcial.

Dono de um tênis agressivo e perigoso, Cilic vivia seu melhor momento daquela noite quando o quinto set começou. Pressionando o suíço, o azarão teve dois break points já no game inicial. No primeiro, devolveu um segundo serviço no meio da rede. No segundo, devolveu de direita para fora. O croata errou mais uma direita, e o suíço confirmou o saque com uma esquerda vencedora. Foi a última chance real de Cilic no jogo.

Melhor em todos pontos importantes, Roger quebrou Cilic no game seguinte e confirmou num longo game para abrir 3/0. Enquanto o croata sentiu o momento, Federer percebeu a fragilidade momentânea do rival e disparou no placar para vencer o set por 6/1 e conquistar o título. Mostrou inteligência para reconhecer o momento e técnica para fazer valer sua experiência.

Desafio duplo

Na entrevista coletiva após a derrota, Thiem ressaltou o momento único que o tênis vive, com três grandes campeões. Pete Sampras (14) e Andre Agassi (8), os maiores vencedores de slam da era imediatamente anterior ao Big 3, conquistaram, juntos, 22 títulos. Federer (20) e Nadal (19), recordistas atuais, somam 39. Djokovic, o terceiro da lista, tem mais 17.

Além disso, existe a questão do desafio em dobro. Os três estão quase sempre bem ranqueados e, por isso, são os principais cabeças de chave nos slams. Isso significa que muitos dos desafiantes precisam superar dois integrantes do Big 3 no caminho até um título.

"É uma situação especial. Os três são quem têm, de longe, mais títulos de grand slam. É único na história dos esportes que os três melhores, de longe, estejam jogando na mesma era. É isso que torna tudo muito mais difícil para os outros quebrarem essa barreira. É preciso bater pelo menos dois deles para ganhar um título grande, e quase todos falham ao tentar isso. É isso que torna tudo tão difícil", disse Thiem.

O próprio austríaco já viveu esse dilema duas vezes. Em Roland Garros, no ano passado, superou Djokovic nas semifinais e caiu diante de Nadal na decisão. Agora, em Melbourne, bateu Rafa nas quartas, mas perdeu a final. Trata-se de um desafio tão grande que nem Roger Federer conseguiu passar por Djokovic e Nadal no mesmo slam. O único a bater Nole e Rafa no mesmo slam foi Stan Wawrinka, no Australian Open de 2014. Na ocasião, porém, o espanhol jogou a final com uma lesão nas costas e ofereceu pouca resistência.

Quem vai furar a barreira?

Não faltam nomes talentosos entre os jovens em ascensão no circuito. Além de Thiem e Medvedev, que já disputaram finas de slam, é preciso considerar Alexander Zverev, semifinalista em Melbourne, Stefanos Tsitsipas, campeão do ATP Finals, Denis Shapovalov, Andrey Rublev, Nick Kyrgios, Karen Khachanov e Alex de Minaur, entre outros.

A julgar pelo próximo slam, que será em Roland Garros, Thiem parece o principal candidato, mas como Nadal e Djokovic continuam ocupando os primeiros postos do ranking, é bem provável que o austríaco precise derrotar dois integrantes do Big 3 para chegar lá. Será?

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