PUBLICIDADE
Topo

Pole Position

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Acidente na largada da F1 frustrou protesto perigoso pelo meio ambiente

Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

06/07/2022 04h00

O acidente na largada do GP da Grã-Bretanha que envolveu vários carros e ficou marcado pelas cenas impressionantes de Guanyu Zhou capotando várias vezes e indo parar entre o alambrado e a barreira de pneus acabou frustrando um protesto potencialmente ainda mais perigoso. Enquanto a décima etapa da temporada começava, um grupo de manifestantes contra o uso de combustíveis fósseis preparava-se para invadir a pista em outra parte do circuito.

Estas pessoas conseguiram entrar na pista, mas apenas depois que a corrida já estava neutralizada devido ao acidente e após a maioria dos carros ter passado na reta Wellington, que fica entre as curvas 5 e 6 do circuito. Os únicos que tiveram de desviar dos manifestantes foram Esteban Ocon e Yuki Tsunoda, envolvidos no acidente da largada. Mas eles estavam lentos na pista e conseguiram evitar facilmente manifestantes e fiscais de pista que tentavam conter a invasão.

A polícia já sabia da intenção do grupo Just Stop Oil (simplesmente parem com o petróleo, em uma tradução livre do inglês) de invadir a pista durante a corrida, e havia pedido publicamente que isso não acontecesse por causa do risco para todos os envolvidos, lembrando que o governo britânico garante o direito de protesto e pedindo para que ele fosse feito de outra forma.

Sabendo apenas que o grupo em questão protestava pelo fim do uso de combustíveis fósseis, mas sem ter conhecimento do método, Lewis Hamilton disse: "Amo que as pessoas estejam lutando pelo planeta e precisamos de mais gente assim". Depois, o inglês esclareceu que o acidente da largada tinha mostrado o quão perigoso o esporte é e "ainda que sempre apoie aqueles que lutam pelo que acreditam, isso tem de ser feito de maneira segura. Por favor, não entrem nos nossos circuitos para protestar".

Sebastian Vettel foi mais enfático. O alemão disse que "qualquer um que entenda o tamanho do problema que está se aproximando de nós pode compreender" por que os manifestantes estão usando métodos tão sérios, embora tenha lembrado que, ao entrar na pista, eles também colocaram em risco a vida dos fiscais de pista, que são voluntários, e dos próprios pilotos. "Mas acho que a mensagem foi bem clara, e eu simpatizo com seus medos e ansiedades".

É justo protestar na F1 pelo fim do uso de combustíveis fósseis?

Curiosamente, o protesto do Just Stop Oil ocorreu dias depois que a categoria reforçou seu compromisso de neutralizar a pegada de carbono do campeonato até 2030, em uma campanha lançada há três anos e que ainda engatinha. Dentro da pista, os carros estão entre os mais eficientes do automobilismo, caminhando justamente para banir totalmente o uso de combustível fóssil em 2026, na próxima mudança de regulamento de motores. As novas unidades de potência continuarão sendo híbridas, mas com mais potência vinda da energia elétrica e combustível 100% obtido de fontes renováveis. Atualmente, essa porcentagem é de 10%.

Mas os carros representam apenas 1% da poluição gerada pela categoria, que visita, todo ano, pelo menos 21 países, para os quais são transportados mais de mil toneladas de equipamentos. E, mesmo dentro do plano de neutralizar a pegada de carbono, a F1 não fala em diminuir seu campeonato. Apenas cita medidas mais vagas como "adotar uma logística mais eficiente" e "regionalizar o campeonato para facilitar o transporte".

Não há nada, por exemplo, visando enxugar a estrutura que viaja para os eventos, como os escritórios das equipes, formados por de oito a até 24 caminhões, dependendo do time.

Então, ao mesmo tempo em que a F1 é importante no sentido de desenvolver tecnologias de alta performance que vão ajudar a diminuir a dependência de combustíveis fósseis, o que acaba gerando o maior impacto mundial, também é verdade que a própria natureza do campeonato dificulta seu caminho rumo à sustentabilidade.