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OPINIÃO

Com novas regras na F1, dá para esperar um conto de fadas como o da Brawn?

Rubens Barrichello, da Brawn GP, é seguido pelo companheiro de equipe, o inglês Jenson Button, na vitória no GP da Itália, em Monza, em 2009 Imagem: AFP PHOTO / MARIO LAPORTA
Julianne Cerasoli

Colunista do UOL

17/01/2022 04h00

A temporada de 2022 da Fórmula 1 será marcada por uma das maiores mudanças de regulamento da história: a parte aerodinâmica e, consequentemente, o visual dos carros vai ser bem diferente, assim como os pneus, de aro 18 ao invés de 13. Na última vez que algo similar aconteceu, uma equipe que tinha sido nona colocada no ano anterior acabou fazendo o carro campeão do ano seguinte, em uma história quase de conto de fadas. Mas é difícil acreditar que isso possa voltar a acontecer.

O tal conto de fadas da Brawn GP, um time vendido por um preço apenas simbólico ao engenheiro Ross Brawn pela Honda depois que os japoneses decidiram sair da F1 no final de 2008, começou já na pré-temporada quando eles foram um segundo mais rápidos que os rivais. Com menos dinheiro para desenvolver o carro, a Brawn foi perdendo essa vantagem ao longo da temporada, mas ainda assim conquistou o título e fez Jenson Button campeão entre os pilotos. Foi pela Brawn, inclusive, que o Brasil teve sua última vitória na F1, com Rubens Barrichello no GP da Itália de 2009.

Seria como se a Alfa Romeo surgisse no início da temporada como o time a ser batido. Com regras que vão obrigar os times a encontrar outras maneiras de tornar os carros mais rápidos (já que muito da pressão aerodinâmica, que é basicamente a força que permite que os carros mantenham a estabilidade em alta velocidade, agora terá de ser gerada mais do assoalho do carro e muito menos por meio da carenagem), por que não imaginar que o grid vá virar de ponta-cabeça?

Muita coisa mudou de 2008-2009 para cá. E essa nova revolução nas regras também tem diferenças importantes em relação ao que foi feito lá atrás, embora a meta seja parecida: diminuir a turbulência gerada pelos carros e gerar mais chances de ultrapassagens.

A F1 passou por outra grande mudança em 2014, mas ela foi focada no motor. Foi naquela época que a Mercedes pulou de segunda/terceira força para primeira.

A Brawn GP não era time pequeno

A Honda não tinha feito nenhum ponto em 2007 e foi a nona colocada em 2008 Imagem: Bryn Lennon/Getty Images

Não foi à toa que Ross Brawn assumiu o risco de comprar um time que estava perdendo sua grande fonte de receita com a saída da Honda. Ele sabia que o carro de 2009, que tinha sido desenvolvido com a ajuda de dois túneis de vento funcionando quase 24h por dia e orçamento de 400 milhões de dólares, se aproveitava de uma brecha no regulamento.

Ou seja, a história da Brawn GP tem muito mais a ver com o que o dinheiro da Honda investiu, dando a oportunidade de os engenheiros explorarem várias soluções, inclusive uma que permitiu que eles encontrassem uma brecha no regulamento, do que um milagre operado por uma equipe com menos mais capacidade técnica e financeira que os demais.

É mais difícil encontrar brechas em 2022

Mesmo não tendo sido exatamente um conto de fadas, a história da Brawn é na verdade de uma montadora que não tinha se encontrado com o regulamento anterior, mas que teve a chance de dar a volta por cima quando uma mudança extensa foi feita, fazendo todos começarem do zero. Então por que algo do tipo não poderia ocorrer com uma Alpine, Ferrari ou McLaren, por exemplo?

É claro que é possível. Porém, fatores bastante importantes mudaram de 2009 para cá. Já faz tempo que o desenvolvimento em túnel de vento e digital é bastante restrito, e os limites foram, inclusive, apertados para este regulamento. Além disso, agora está em vigor um limite orçamentário de 140 milhões de dólares, focado justamente na parte técnica (marketing e os salários mais altos ficam de fora). Isso quer dizer que, embora todos comecem do zero, há muito menos recursos para se fazer a diferença, então quem já tem uma fábrica bem estruturada, trabalha com equipamentos de ponta e já vem tendo uma boa correlação entre simulação e pista (que, via de regra, são os times que vinham andando na frente no campeonato, uma vez que isso ajuda a fazer com que as ideias sejam bem executadas e funcionem na pista) tenham vantagem.

E há outro fator que será colocado à prova: este foi o primeiro conjunto de regras feito a várias mãos, com atuação direta das equipes visando evitar brechas. Ele é muito mais específico que o regulamento de 2009 justamente para evitar o efeito Brawn GP.

Tudo isso, é claro, é teoria. As equipes ainda farão muito mistério até os carros irem para a pista em duas baterias de três dias de testes de pré-temporada, entre o final de fevereiro e o início de março. E a primeira corrida será dia 20 de março, no Bahrein.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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