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Como nova regra na F1 incentivou a Ferrari a gastar milhões em hipercarro

A Ferrari estará de volta a Le Mans em 2023, 50 anos depois da última vitória - Divulgação/Ferrari
A Ferrari estará de volta a Le Mans em 2023, 50 anos depois da última vitória Imagem: Divulgação/Ferrari
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

25/02/2021 04h00

O anúncio de que a Ferrari vai produzir um carro protótipo para competição pela primeira vez em 50 anos para disputar as 24h de Le Mans pode não parecer ter qualquer ligação com a Fórmula 1, mas na verdade não é apenas a Scuderia que está apostando em outras categorias justamente por conta de uma regra que começou a valer na categoria em janeiro deste ano: o teto de gastos.

Em 2021, cada equipe da Fórmula 1 pode gastar até 147.5 milhões de dólares (pouco menos de 800 milhões de reais), excetuando-se itens como os salários dos pilotos e dos três funcionários mais bem pagos, marketing e custos ligados à manutenção das fábricas. Esse limite vai cair ano que vem, e deve ser reduzido ainda mais (ou mudar de valor e incluir todos os salários) nas temporadas seguintes. Pode parecer um teto alto, mas as equipes maiores, como Mercedes, Ferrari e Red Bull, tinham orçamentos perto ou acima dos 400 milhões de dólares (mais de dois bilhões de reais) até o ano passado.

Manter um orçamento alto não é problema para eles, que têm boa visibilidade e parceiros injetando muito dinheiro no negócio, então o teto não visa ajudá-los a gastar menos, mas sim diminuir a diferença entre esses times mais ricos e aqueles que trabalham com menos recursos. Na outra ponta do grid, equipes como Haas e Williams trabalham com orçamentos perto de 100 milhões de dólares (540 milhões de reais).

É por conta disso que o teto de gastos da Fórmula 1 acabou gerando um subproduto que não tem nada a ver com seu objetivo inicial: as equipes grandes estão criando projetos em outras categorias e realocando seus profissionais altamente capacitados.

A Ferrari anunciou seu projeto nesta quarta-feira (24) de disputar a nova categoria de hipercarros de Le Mans a partir de 2023, data que marca os 50 anos desde que a Scuderia competiu (e venceu) pela última vez na tradicional prova com um protótipo fabricado por ela mesma. A Ferrari chegou a competir na década de 1990 com o 333SP, desenvolvido inicialmente para o IMSA, mas o carro em si foi feito pela Dallara. Então o novo projeto marca um retorno à Scuderia dos anos 1960 e começo dos 1970. Os italianos avaliaram também a entrada na Indy, mas isso acabou não se concretizando.

Já a McLaren não está entre as três mais ricas da Fórmula 1, mas também terá de cortar seu orçamento para ficar dentro do teto. A equipe inglesa é a que mais se aventura em outras categorias e já tem um projeto na Indy. Ainda assim, eles firmaram em janeiro um acordo de intenção para entrar na Fórmula E, categoria de carros totalmente elétricos, na temporada que começa no final de 2022. Eles já atuavam na categoria provendo as baterias para os carros, mas ter uma equipe implica em um comprometimento financeiro muito maior. O CEO da equipe, Zak Brown, inclusive disse que a adoção de um teto orçamentário também na Fórmula E seria imprescindível para que os britânicos pudessem se manter em todas as categorias ao mesmo tempo.

Na Mercedes, que recentemente optou por sair da DTM (campeonato de turismo alemão) também para focar na Fórmula E, o chefe Toto Wolff já abriu a possibilidade de expansão para outras categorias por conta do teto da F1.

‘'O teto significa que teremos de nos reajustar. Isso significa mudar a maneira como nós fazemos as coisas e alocamos nossos profissionais. Temos um departamento muito forte, chamado Mercedes-Benz Applied Science (ciência aplicada da Mercedes-Benz) em que trabalhamos com clientes de alta performance. E, quem sabe, talvez estudemos entrar em outras categorias para que nossos recursos humanos e propriedade intelectual permaneçam dentro da Mercedes.’'

Até mesmo internamente na F1 o teto orçamentário já beneficiou a estrutura de pelo menos uma equipe: a Haas vem recebendo alguns profissionais por empréstimo da parceira Ferrari e terá escritórios construídos junto da fábrica do time em Maranello, na Itália. Como disse Wolff, é uma forma de manter funcionários que querem se manter focados na F1 longe de possíveis propostas de concorrentes. Afinal, tudo o que uma equipe grande busca no mercado é um funcionário que sabe todos os segredos de alguma rival.