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Há 29 anos, Senna acabava com sina no GP do Brasil com vitória histórica

Senna durante GP do Brasil em 1991 - Jorge Araujo/Folhapress
Senna durante GP do Brasil em 1991 Imagem: Jorge Araujo/Folhapress
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

24/03/2020 04h00

Quem viu, não esquece. Para quem não lembra ou era nascido, vale a pena ir atrás dos vídeos do GP do Brasil de 1991 para entender por que a lenda de Ayrton Senna superou números e fronteiras: com sérios problemas nas marchas, o já bicampeão do mundo se esforçou tanto para vencer pela primeira vez em casa que nem conseguiu dar retornar ao boxes. E terminou nos braços da galera que invadiu a pista de Interlagos.

Não ter um bom resultado em casa já estava virando uma sina para Senna. Tirando o segundo lugar em 1986 de Lotus, quando o GP Brasil ainda era disputado em Jacarepaguá, Senna tinha tido abandonos em 84, 85 e 87 e fora desclassificado da corrida de 1988, quando já corria pela então poderosa McLaren. Em 89, não passou de 11º e só voltou ao pódio em 1990, com o terceiro lugar. Pior: seu algoz, Alain Prost, sempre andou bem no Brasil e ganhara em seis oportunidades. Estava claro que Senna faria de tudo para vencer em casa em 91.

Como já havia ocorrido em anos anteriores, tudo parecia correr bem para o brasileiro. Com a pista úmida, Senna dominou a primeira qualificação, que na época era realizada na sexta-feira. O grid era decidido pelos tempos combinados com a sessão do sábado e o sol forte fez o rendimento dos carros da Williams, que seriam os grandes rivais de Senna na temporada, melhorarem de rendimento. Era a hora de Senna dar sua tradicional volta matadora no final da classificação, uma de suas grandes marcas: com o cronômetro já zerado, Senna tirou um de seus costumeiros coelhos da cartola e colocou 0s385 no rival mais próximo, Riccardo Patrese, uma diferença considerável para uma pista curta como a de Interlagos.

Na largada, o brasileiro manteve a ponta, enquanto aquele que seria seu algoz na temporada, Nigel Mansell, deixava o companheiro de Williams, Patrese, para trás. O britânico parecia mais rápido e tentava pressionar o brasileiro, que após algumas voltas até conseguiu abrir certa vantagem. Na 25ª volta, contudo, o "Leão", como era conhecido, precisou entrar nos boxes para trocar um pneu furado e Senna pôde respirar.

Mas o refresco não durou muito: Mansell voltou andando muito mais rápido que Senna até que rodou devido a um problema no câmbio e abandonou. Senna, então, passou a liderar com uma diferença confortável para Patrese. Faltavam 12 voltas e tudo parecia perfeito para uma vitória tranquila em casa.

Foi então que sua McLaren começou a querer lhe deixar na mão: primeiro, ele perdeu a terceira e a quarta marchas, o que significou a perda de 3s para Patrese. Assim que o piloto conseguiu se virar com a situação, duas voltas depois, a quinta também falhou. Senna então decidiu manter a sexta marcha, não olhou mais a placa que lhe mostrava a diferença para o segundo colocado, e acelerou.

Como perder as marchas não fosse o bastante, Senna teve que lidar ainda que a chuva que começou a cair no circuito, o que dificultava ainda mais diminuir a velocidade do carro só podendo usar uma marcha alta mas, ainda assim, Senna conseguiu cruzar a linha de chegada em primeiro, com pouco menos de 3s de vantagem para Patrese.

Não por acaso, o esforço físico foi tão grande que o piloto acabou sendo resgatado pelo Safety Car, pilotado por Wilson Fittipaldi, para retornar aos boxes. Na chegada ao pit lane, Ayrton viu seu pai, Milton, no meio da multidão, gritou para que ele se aproximasse, desabou no seu ombro e pediu um beijo antes de, em outra cena que se tornou clássica, levantar com muita dificuldade o troféu pelo que seria a primeira de duas vitórias no GP Brasil.

"Só voltei à realidade quando vi a bandeirada. Aí senti um imenso prazer em viver, em estar em Interlagos, na minha terra e vendo a minha gente feliz. Não foi a maior vitória da minha vida, mas foi a mais sacrificada."

Até hoje há quem duvide que a situação do câmbio da McLaren de Senna fosse tão dramática quando ficou para a história, e a prova seria o fato dele ter parado para pegar a bandeira brasileira e ter continuado. Perguntado se tal façanha era possível, Fernando Alonso certa vez disse que tudo era possível quando se tinha o melhor carro, algo discutível em relação àquela McLaren de 1991, com a qual Senna ganhou o título muito em função dos problemas técnicos sofridos por Mansell. Mas aquele GP do Brasil serviu para inspirar muitos, como o tetracampeão Sebastian Vettel, que disse que a prova de 29 anos atrás é a primeira que lembra de ter assistido.

O GP do Brasil, segunda etapa da temporada de 1991, foi uma das sete vitórias de Senna na temporada em que bateu Mansell por 14 pontos.

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