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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Muito além do Masterchef, sumô brasileiro tenta virar potência mundial

Lutadores de sumô no Masterchef - Reprodução
Lutadores de sumô no Masterchef Imagem: Reprodução
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

07/07/2022 04h00

Enquanto a Band exibia um episódio gravado do Masterchef no qual os participantes precisavam fazer um prato para lutadores de sumô, na terça-feira (5) à noite, um dos sutomoris (lutadores) que desfrutaram do Chankonabe se preparava para dirigir seu carro durante 10 horas no trajeto de Orlando, na Califórnia, até Birmingham, no Alabama. O destino final é o World Games, a Olimpíada dos esportes que não são olímpicos, que começa hoje (7).

Técnico de TI, acostumado a lidar com computadores, Flávio Tooru é também técnico de sumô (ou sensei, como é usual nos esportes de luta japoneses) e vice-presidente da Confederação Brasileira de Sumô. Como a entidade não recebe nenhum apoio governamental, ele pagou do bolso as passagens até Orlando, para onde a maior parte da equipe viajou no começo da semana, em uma forma de economizar, já que a viagem para um destino mais próximo de Birmingham, na véspera da competição, estava caríssima.

Ontem, dirigiu 10 horas até a cidade mais populosa do Alabama para ajudar os atletas a se pouparem para a competição, que será no sábado e domingo. Com a ausência da Rússia, potência da modalidade, suspensa por causa da invasão à Ucrânia, o Brasil tem chances reais de ganhar até três medalhas no World Games. Porque, sim, o Brasil é relevante no cenário do sumô internacional, apesar dos poucos locais de prática da modalidade por aqui.

"É um esporte pouco difundido, muito dependente de colônias e comunidades japonesas. Mais de 70% dos praticantes são japoneses ou descendentes", conta Tooru. Em São Paulo, no mesmo centro esportivo que abriga um estádio municipal de beisebol, no Bom Retiro, existe um ginásio voltado exclusivamente à prática de sumô, com o único dohy (o equivalente ao tatame do judô) público do mundo fora do Japão.

A estrutura é simples, como simples são as regras da modalidade. O piso é um compensado de argila, basicamente terra batida, com uma área de luta circular delimitada por um objeto que lembra uma daquelas "cobras" de pano usadas para impedir a passagem de ar e sujeira por baixo de uma porta.

Os atletas usam um mawashi, espécie de sunga, feita de grandes faixas enroladas na cintura e na virilha —sob ela, alguns vestem sunga ou shorts e, todas as mulheres, um macaquinho ou conjunto de shorts e camiseta. Vence quem tirar o rival da área de luta ou o fizer encostar no chão qualquer parte do corpo que não a sola do pé.

Para todos os tamanhos

O imaginário popular relaciona o lutador de sumô ao homem pesado, mas a modalidade evoluiu e hoje tem cinco categorias de peso, com chaves masculinas e femininas. O Brasil tem dois grandes nomes, em especial. A educadora física Luciana Watanabe foi vice-campeã das últimas duas edições (2013 e 2017) do World Games, enquanto Rui Sá foi vice-campeão mundial do peso pesado (até 130 kg) no último Campeonato Mundial, realizado em 2019.

Enquanto ela fez rifa para conseguir pagar a viagem, ele vai a Birmingham com dupla função. Será atleta do Brasil e técnico da seleção da Venezuela que, diferente da brasileira, recebeu apoio governamental na preparação para a competição, com direito a três semanas de estágio de treinamento e viagem ao Brasil para participar de um Campeonato Sul-Americano, que também contou com dois argentinos.

De acordo com Tooru, a pandemia atrapalhou muito o sumô, esporte que, por ser de contato, teve os treinos e competições paralisados por mais tempo, pensando na segurança dos atletas. "Em 23 de julho tem o Brasileiro e a gente tem a expectativa de ter entre 200 e 230 atletas, em todas as categoria. Hoje eu diria que são cerca de 500 praticantes", diz ele.

Boa parte deles está em cidades com forte presença de colônias japonesas, especialmente no interior de São Paulo —cidades como Capão Bonito, Salto, Itapetininga e Suzano—, e em comunidades de mesma origem no interior do Rio Grande do Sul. Onde falta chão de argila adapta-se um tatame de judô ou um tapete de wrestling.