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REPORTAGEM

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Dirigente brasileiro é citado em esquema de manipulação no boxe olímpico

Luiz Boselli, dirigente brasileiro do boxe - Reprodução
Luiz Boselli, dirigente brasileiro do boxe Imagem: Reprodução
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

01/10/2021 04h00

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) Luiz Boselli foi citado como um dos envolvidos em esquema de manipulação de resultados na modalidade nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O nome dele aparece em destaque no relatório feito pela equipe do advogado canadense Richard McLaren, contratado pela Associação Internacional de Boxe Amador (Aiba) para apurar as suspeitas envolvendo também a competição olímpica de Londres-2012 e eventos classificatórios. Ele nega qualquer envolvimento.

O nome do brasileiro aparece quando McLaren aponta que os "mecanismos de manipulação estavam sendo usados e testados" já nos principais eventos de qualificação para a Olimpíada, nos quais Boselli teve papel fundamental.

"Um dos requisitos para manipular lutas era garantir que houvesse uma Comissão de Sorteio [de árbitros] corrompida, garantindo assim que os árbitros 'certos' seriam atribuídos em lutas em que os resultados já foram decididos com antecedência. O MIIT [equipe de McLaren] identificou um padrão de nomeações suspeitas feitas para as Comissões de Sorteio durante vários eventos de qualificação", diz o relatório, antes de apresentar Boselli, citando que ele foi "apontado como membro da Comissão de Sorteio do qualificatório de Doha", em referência ao Mundial de 2015, disputado no Qatar.

De acordo com McLaren, a CBBoxe já havia informado à Aiba que Boselli havia sido excluído de qualquer atividade da confederação e solicitado que a federação internacional fizesse o mesmo. Boselli comandou a confederação até 2009 e ajudou a eleger Mauro Silva como seu sucessor, os dois, porém, logo romperam e se tornaram adversários políticos. Foi na esteira dessa disputa que o ex-presidente foi banido no Brasil.

O pedido não foi atendido e o brasileiro foi escalado para o Mundial de Doha juntamente com o chinês Yue Yan. Segundo o relatório, "várias testemunhas", relataram comportamento corrupto de Yan na escalação de árbitros.

Posteriormente, Boselli foi nomeado novamente para a Comissão de Sorteio da seletiva da Ásia e da Oceania. "Este foi um qualificatório particularmente importante devido à participação de países como Uzbequistão e Cazaquistão, que além de terem uma forte tradição de boxe, também são acusados de terem oferecido dinheiro. Portanto, era crítico ter membros da comissão que estariam prontos a nomear árbitros corrompidos para lutas importantes", diz o relatório.

Naquele torneio, o brasileiro teve como colega de comissão a búlgara Stela Stoyanova, também banida em seu país, que depois seria escalada para a mesma função na Rio-2016. Os regulamentos da Aiba exigiam que os oficiais fizessem parte de suas confederações, mas foi aberta exceção a ela e a Boselli, por determinação de Karim Bouzidi, então secretário-geral da Aiba e cabeça do esquema, segundo o relatório.

"Por fim, Boselli também foi nomeado supervisor adjunto na Qualificatória Africana de 2016 com Mohamed Moustahsane. Embora o MIIT não tenha encontrado nenhuma evidência de que quaisquer lutas foram manipuladas neste evento, ele observa que Boselli estava trabalhando aqui com Mohamed Moustahsane, outro membro da Comissão do Sorteio do Rio", cita o documento.

Problemas também em Londres

O brasileiro é citado ainda em tentativa de manipulação de resultados da seletiva europeia para os Jogos de Londres, realizada na Turquia. Na ocasião, segundo o relatório, o então presidente da Aiba, Ching-Kuo Wu, instruiu Bouzidi a "ajudar a Turquia" porque os organizadores haviam investido no evento e um fracasso seria uma "humilhação" para o país. Bouzidi teria ligado, então, para várias pessoas, incluindo Boselli, chefe da Comissão de Sorteio.

"Pode-se inferir que foi entendido que a Turquia precisaria de assistência especial dessas pessoas-chave para que seus atletas se qualificassem para os Jogos. Embora seis boxeadores turcos tenham se qualificado, eles aparentemente o fizeram por seus próprios méritos.
No entanto, o episódio é um exemplo claro da metodologia utilizada para cumprir com as instruções do presidente", escreve McLaren.

Boselli se defende

Boselli nega qualquer envolvimento em manipulação de resultados. "A maior prova que não tive envolvimento algum em qualquer tipo de manipulação é que eu fui o único que não fui designado para os Jogos Olímpicos do Rio entre os membros que sempre estavam nessa função, porque nunca fiz parte do esquema, SE houve um esquema", respondeu ele à coluna por mensagem.

"Além disso, eu nunca fiz parte da Comissão de Árbitros e Juízes da Aiba, os outros faziam. Eu era o 'neutro' por fazer parte da Comissão Técnica. Acredito que o Sr. McLaren não se atentou para esse fato", continuou Boselli, alegando que as escalas de árbitros eram feitas por computador.

Apoiado por Wu, que chegou a contratar Boselli como executivo da Aiba, o brasileiro acabou afastado do esporte em 2017 —após Wu ter sido deposto na esteira das acusações de manipulação na Rio-2016. Na ocasião, a Aiba chegou a expressamente desautorizar que Boselli ministrasse cursos sobre boxe amador, depois de ele trabalhar em um seminário na Nicarágua.

"Isto nos envergonha e nos leva a repudiar este tipo de ato clandestino", afirmou a CBBoxe na época. Paralelamente, a Aiba decidiu que não escalaria nenhum oficial brasileiro sem aprovação prévia da confederação. "Com esta decisão da Aiba, a CBBoxe informa que o brasileiro Luiz Claudio Braga Boselli foi afastado de todas as suas escalas nas competições internacionais da Aiba", informou a entidade brasileira no início de 2018.

Boselli nega ter sido punido. "Eu tinha um contrato com a Aiba, o contrato venceu. É um problema financeiro. Eles não tinham como fazer o pagamento", alegou. Ele minimizou as denúncias de manipulação de resultados na Rio-2016. "Houve alguns resultados injustos? Sim. Mas se esses resultados injustos foram devido a manipulação ou erro técnico não tem como saber. Não foram tantos erros, se considerar o número de lutas que aconteceram".