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REPORTAGEM

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Alvo de racismo, técnico de handebol cobra que árbitros sejam banidos

Robison dos Santos, treinador de handebol - Arquivo Pessoal
Robison dos Santos, treinador de handebol Imagem: Arquivo Pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/09/2021 04h00

As jogadoras do time sub-20 de handebol de Araraquara (SP) passaram boa parte da madrugada de quarta (15) para quinta-feira (16) da semana passada pensando em de que forma contariam ao técnico delas que ele havia sido vítima de uma injúria racial. Ao assistirem a gravação do jogo da primeira rodada do Brasileiro Júnior contra o Centro Olímpico, disputado um dia antes, ouviram, ao fundo, dois árbitros da competição ofendendo o treinador e as atletas adversárias.

"Seboso, cara de bêbado, mal vestido. Parecia uma moça jogando", diz um dos árbitros escalados pela Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) no vídeo gravado por um deles, Adriano Alves Rocha, para ser postado em seu canal no YouTube. O objetivo é ter um banco de imagens de partidas de handebol disputadas no Brasil, mas a gravação com som ambiente flagrou os comentários pejorativos feitos por Adriano e por um outro árbitro de renome do país, Zaine Roberto.

Para Robison dos Santos, 40 anos, treinador do time de Araraquara, ele foi alvo de ofensa racial. "Eu me visto igual todos os outros técnicos, mas por que sou mal vestido? Só porque sou negro. Isso é racismo estrutural, injúria racial e tudo mais. Eu nem bebo e falaram que eu pareço bêbado", disse o técnico ao Olhar Olímpico.

Robison procura respostas para entender por que foi escolhido para ser ofendido pelos árbitros e não consegue encontrar outra explicação senão o fato de ser preto. "Quem me conhece no ambiente do handebol sabe que sou um cara que passa despercebido, não arranja encrenca com ninguém. Foi uma ofensa completamente gratuita. Eu não tinha feito nada para ninguém".

Com respaldo da prefeitura de Araraquara, que banca o time, Robison abriu boletim de ocorrência contra os dois árbitros e já prepara uma representação criminal. "Não vou deixar isso morrer. Quero justiça. Não basta só tirar do campeonato, eles têm que ser banidos. Nunca mais pode ganhar um centavo no esporte, nunca mais pode ter espaço", cobra.

Ao assistirem à gravação do jogo, em busca de erros e acertos pensando na última rodada da fase de classificação, as jogadoras de Araraquara também identificaram outras ofensas proferidas pelos dois árbitros do torneio. Em determinado momento, um deles diz sobre uma atleta, menor de idade: "essa está gostosinha, que delícia". Falando sobre as atletas do Centro Olímpico, equipe ligada à Prefeitura de São Paulo, um deles afirma: "elas eram magrinhas, mas engordaram na pandemia".

O caso veio à tona na quinta-feira pela manhã, depois que as atletas contaram o que viram a uma auxiliar, que relatou a Robison. No mesmo hotel estavam também os demais times, os próprios árbitros, e a ex-jogadora Lucila Vianna, presidente do Comitê de Política para Mulheres no Handebol e organizadora do torneio. Em reunião fechada com os árbitros, ela e Robison ouviram um pedido de desculpas "se ele se sentiu ofendido" e negativas de que se tratava de uma injúria racial.

O clima esquentou e atletas e treinadores exigiram a expulsão dos árbitros não apenas do hotel, mas também do torneio. A confederação agiu rápido e, no mesmo dia, pressionada, soltou nota afirmando que afastara dois juízes, sem dizer seus nomes ou o contexto que havia levado a essa decisão. Os dois serão denunciados também ao STJD da modalidade, segundo a confederação.

A coluna procurou os árbitros por mensagem ao perfil "Handebol em Foco", que leva o nome de Adriano, no Instagram. O perfil respondeu afirmando que a "diretoria executiva" se reuniu, abriu uma "auditoria interna" para apurar os fatos e afastou os "colaboradores do time Youtube". No site do Handebol em Foco, que oferece cursos de handebol, Adriano é descrito como fundador e CEO.