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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Corredora intersexual bate recorde mundial no atletismo

15.9.21- Francine Niyonsaba celebra recorde mundial nos 2.000 m - Reprodução/Twitter @FrancineNiyons4
15.9.21- Francine Niyonsaba celebra recorde mundial nos 2.000 m Imagem: Reprodução/Twitter @FrancineNiyons4
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

15/09/2021 13h39

Considerada uma das melhores corredoras de meio-fundo da atualidade, Francine Niyonsaba, de Burundi, bateu ontem (14) o recorde mundial da prova de 2.000 metros rasos, que não é disputada em eventos importantes, mas faz parte dos eventos oficiais do atletismo. Com isso, ela se tornou a primeira pessoa já declaradamente intersexual a registrar um recorde mundial na modalidade.

Niyonsaba era a segunda melhor corredora de 800m do mundo (só atrás da sul-africana Caster Semenya), vice-campeã olímpica na Rio-2016 e mundial em 2017, quando a World Athletcis, federação internacional da modalidade, baixou regra proibindo atletas com altas taxas de produção de testosterona de correrem provas de distância entre 400m e 1.600m, a não ser que se submetessem a tratamentos hormonais.

A entidade alega ter feito um estudo que concluiu que mulheres com altas taxas de produção de testosterona têm vantagem indevida nessas distâncias, mas não em provas mais curtas ou mais longas. Semenya chegou a recorrer à Corte Arbitral do Esporte (CAS), mas não saiu vitoriosa. Ela se nega a realizar o tratamento e não alcança resultados de alto nível internacional nos 5.000m. Por isso, não conseguiu vaga em Tóquio-2020.

Niyonsaba, por sua vez, se adaptou melhor às regras que ela também contesta. Declarou possuir uma DSD — sigla para diferença de desenvolvimento sexual — e chegou a ir a Tóquio nas duas provas mais longas do atletismo de pista. Não pegou vaga na final dos 5.000m, mas ficou em quinto nos 10.000m, com direito a recorde nacional.

8.9.21- Francine Niyonsaba celebra vitória após 5.000 m na Liga Diamante - ARND WIEGMANN/REUTERS - ARND WIEGMANN/REUTERS
8.9.21- Francine Niyonsaba celebra vitória após 5.000 m na Liga Diamante
Imagem: ARND WIEGMANN/REUTERS

Depois da Olimpíada, venceu uma prova de 5.000m da Diamond League, derrotando a vice-campeã olímpica da distância. Agora, com o recorde mundial dos 2.000m, 5min21s26, batido em uma prova em Zagreb (Croácia) pensada exatamente para esse feito, a expectativa é que suba a pressão para que as atletas intersexual sejam proibidas no atletismo de forma geral.

Além dela, Christine Mboma, da Namíbia, também tem tido resultados melhores do que parte do atletismo está disposto a aceitar para tolerar atletas intersexuais. A adolescente de apenas 18 anos foi prata nos 200m em Tóquio. Em junho, ela chegou a fazer a sétima melhor marca da história nos 400m, mas o feito sumiu dos registros depois que foi enquadrada como DSD.