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Atleta que denunciou racismo foi criticada por não ser 'preta o suficiente'

Drussyla, jogadora do Flamengo e da seleção de vôlei - Reprodução
Drussyla, jogadora do Flamengo e da seleção de vôlei Imagem: Reprodução
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

26/11/2020 16h43

Incomodada por ser seguida o tempo todo por seguranças de uma unidade das Lojas Americanas, Drussyla Costa postou no Instagram uma série de vídeos reclamando da situação e expondo a perseguição. A denúncia repercutiu, a jogadora da equipe de vôlei Sesc-RJ/Flamengo e da seleção brasileira, recebeu diversas mensagens de apoio, mas também críticas.

"Mandaram mensagens dizendo que eu não era preta o suficiente para fazer isso, para reclamar de racismo. Eu leio todas as mensagens, e tinha coisa desse tipo. Teve uma outra falando que eu não sou preta", contou a jogadora ao Olhar Olímpico.

O desabafo pelo Instagram aconteceu na terça (23), enquanto ela, a irmã e a mãe, todas pretas, eram frequentemente acompanhadas por seguranças da loja. "Toda vez que eu venho nas Lojas Americanas é esse inferno. O segurança já passou por mim umas três vezes. Ele fica me seguindo, essa palhaçada, esse preconceito, só porque eu sou preta. Estou com minha família aqui, todo mundo é preto. É isso, é assim que a gente vive nesse 'brasilzão'. Toda vez é esse inferno", disse a ponteira, no primeiro de uma série de vídeos.

Hoje, ao blog, por telefone, ela disse que sofre preconceito constantemente. "Eu sei que sou grande, tenho muita tatuagem, piercing... Tem quem gosta, admira, mas eu vejp que tem certo preconceito. Antigamente, quando eu morava no morro e não tina dinheiro par nada, eu nem ia no shopping. Hoje que tenho condições de ir a lugares mais caros, mesmo andando com roupa normal, mesmo sabendo que é ambiente jovem, que tem jovens com tatuagem, piercing, recebo olhar olhares de 'esse não é teu lugar'", ela relata.

Segundo Drussyla, ela e a família já vão ao shopping esperando sofrer preconceito. "A gente já vai na expectativa de acontecer alguma coisa. Principalmente quando eu estou com minha irmã, mesmo ela sendo um pouco mais clara que eu. O mesmo homem que seguiu a gente nas Americanas seguiu minha irmã meses atrás, ela filmou", conta a jogadora, que lamenta o preconceito institucional. "O segurança era mais preto que eu, mas estava fazendo o que ele também recebe dos outros. Ele também passa por isso."

A jogadora do Sesc-RJ/Flamengo diz entender as colegas que, diferente do que aconteceu na NBA, por exemplo, não organizam ou participam de campanhas contra o racismo. "O vôlei é um esporte que tem muito mimimi, por conta dos espectadores em si. Tem muito atleta que tem vergonha de se expor. Quem se expõe vira alvo de muita coisa. Não é qualquer pessoa que tem essa carcaça para receber o tanto de ofensas."

Uma diretora da Americanas entrou em contato com Drussyla para pedir desculpas. Procurada pela reportagem, a Americanas disse apenas que "o respeito está na base da sua cultura e que repudia todo e qualquer ato de discriminação".