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Lutador diz que foi torturado para confessar crime que o sentenciou à morte

O lutador Navid Afkari foi condenado a morte por protestar contra o governo iraniano - Reprodução/Instagram
O lutador Navid Afkari foi condenado a morte por protestar contra o governo iraniano Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

09/09/2020 11h29

O governo do Irã está no centro do noticiário esportivo enquanto a comunidade internacional pressiona o regime do país na tentativa de reverter a condenação do lutador de wrestling (luta) Navid Afkari, que foi sentenciado à morte e deve ser executado ainda hoje (9). Ele foi condenado pelo suposto assassinato de um funcionário público, crime que diz não ter cometido. Uma confissão foi exibida na TV estatal iraniana, mas Afkari alega que foi torturado para produzir essa declaração falsa.

Afkari foi considerado culpado pelo "homicídio doloso" de um funcionário da autoridade pública de água em Shiraz, no sul do Irã, em 2 de agosto de 2018. Como várias outras localidades do país, a cidade era palco de manifestações hostis ao regime iraniano naquele dia. Logo os protestos, que inicialmente questionavam a péssima situação socioeconômica do Irã e a falta de água, se transformaram em apelos pela derrubada do regime teocrático. Reprimidos com violência, esses atos deram em nada.

Atleta de sucesso regional no wrestling, Afkari e seus dois irmãos trabalhavam na construção civil em Shiraz e estiverem nos protestos de rua. Um mês e meio depois, agentes de segurança iranianos bateram à porta da casa deles e levaram Afkari e um dos irmãos. O outro foi preso três meses depois.

Eles foram acusados de "travar uma guerra contra o Estado, de corrupção na terra e de formar um grupo antirrevolucionário". Foi quando surgiu a acusação de que Afkari tria esfaqueado um segurança de um aqueduto. Julgado, ele recebeu duas sentenças de morte, enquanto seus irmãos foram condenados a 54 e 27 anos de prisão. Além disso, segundo a organização humanitária Observatório Internacional, os três receberam 74 chicotadas cada.

A condenação foi mantida pela Suprema Corte do Irã, apesar das queixas formais apresentadas contra os interrogadores por cometerem tortura. Afkari detalhou como foi forçado a dar falsas confissões enquanto era submetido à "mais severa tortura física e psicológica" durante quase 50 dias na detenção policial. Mas a queixa foi ignorada pela Suprema Corte.

Na semana passada, um áudio atribuído a Afkari foi vazado de dentro da prisão. Nele, o lutador diz que o tribunal que o condenou nunca o ouviu e que até então estava calado na expectativa de uma justiça de fato justa. Ao perder as esperanças, apelava para uma pressão internacional.

"Daqui em diante, minha família e eu precisamos de ajuda. Não estou me dirigindo apenas aos iranianos. Estou me dirigindo a qualquer pessoa que acredita na humanidade e é honrada. Seu silêncio significa que você está apoiando os opressores e a opressão. Significa apoiar a execução de uma pessoa inocente", disse ele no áudio, disponível (com legendas em inglês) no tuíte abaixo.

A gravação chegou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que se posicionou em defesa de Afkari e contra o regime iraniano, do qual é adversário. O Irã respondeu exibindo, no último domingo (6), pelo canal estatal de televisão, um vídeo com o lutador dizendo que ele esfaqueou um homem. Também foram exibidas duas cartas supostamente escritas por Afkari admitindo o crime.

De acordo com o Observatório Internacional dos Direitos Humanos, a mídia estatal do Irã costuma colocar no ar supostas confissões de suspeitos em casos com acusações políticas. Em relatório divulgado em junho deste ano, a Federação Internacional de Direitos Humanos e Justiça para o Irã, com sede em Londres, disse que a mídia estatal iraniana divulgou mais de 355 confissões forçadas na última década. Autoridades iranianas rejeitam tais acusações.

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