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Técnico do basquete brasileiro em bronze olímpico morre aos 94 anos

Renato Brito Cunha é homenageado pelo ouro no Pan de 1967 - Divulgação/CBB
Renato Brito Cunha é homenageado pelo ouro no Pan de 1967 Imagem: Divulgação/CBB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

05/05/2020 13h28

Um dos mais personagens mais influentes do basquete brasileiro fora das quatro linhas morreu nesta terça-feira (5). Renato Brito Cunha tinha 94 anos e faleceu no hospital, onde já estava internado com diversas complicações. Além de ter sido presidente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB) durante dois mandatos entre as décadas de 1980 e 1990, foi também o treinador da seleção masculina em diversas ocasiões, a mais importante delas a medalha de bronze conquistada nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Entre seus feitos também está a primeira medalha de ouro do basquete brasileiro em Jogos Pan-Americanos, conquistado em 1967 pela seleção feminina.

Bicampeão metropolitano feminino em 1954/55, primeiro com o Flamengo e depois com o Fluminense, clube onde ele treinava também a equipe principal masculina, Brito Cunha estreou na seleção masculina em 1957, no torneio de Jubileu de Prata da Fiba. Naquele primeiro momento, o técnico principal era Togo Renan Soares, o popular Kanela, mas o trabalho não era contínuo.

Brito Cunha havia estudado em Springfield, berço do basquete, e feito um estágio na Universidade de Kentucky com Adolph Rupp, um dos maiores treinadores universitários americanos de todos os tempos. Tinha o conhecimento teórico que muitas vezes faltava a Kanela e, por isso, foi chamado para ser seu assistente na Olimpíada de Roma. Na impossibilidade de ser inscrito nessa função, porém, trabalhou com credencial de massagista, ajudando na conquista do bronze.

Nas idas e vindas como técnico principal da seleção, deu as primeiras oportunidades a Ubiratan e Menon, dois craques que viriam a fazer diferença para o Brasil nos anos seguintes. Com Kanela brigado com os dirigentes brasileiros, Brito Cunha recebeu a responsabilidade de comandar a seleção em Tóquio e não decepcionou.

A companha começou horrível, com derrota para o freguês Peru. Depois daquela partida, Brito chamou ao seu quarto os líderes do elenco, e ali foi firmado um pacto de que o time sairia do Japão com uma medalha no peito e que dariam a volta por cima já na partida seguinte, no reencontro com a vice-campeã do mundo, a Iugoslávia. Dito e feito. O Brasil avançou e fase e terminou com uma medalha de bronze que teve gosto amargo, porque o time acreditava que era possível ter vencido a União Soviética.

Durante a campanha, Renato Brito Cunha deu um exemplo de elegância no esporte. Faltando cerca de dois minutos para o fim do jogo contra o Uruguai, o rival Walter Márquez foi excluído pelo limite de faltas pessoais, deixando o treinador celeste com apenas quatro jogadores disponíveis, já que nenhum outro atleta tinha condições de jogo - três haviam sido excluídos e os demais estavam lesionados. Brito Cunha então sacou Sucar do seu time, deixando também o Brasil com quatro atletas em quadra até o final da partida, para que o jogo fosse "justo".

Depois daquela medalha histórica para o basquete masculino, Brito Cunha conseguiu outro feito relevante. Convidado a treinar uma brilhante geração do basquete feminino, levou a equipe ao ouro no Pan de Winninpeg, com um timaço formado por Nilza, Norminha, Marlene, Elza e Laís Elena, titulares e Angelina, Delcy, Jacy, Lúcia Maria, Nadir, Neusa e Rosália, as reservas.

No ano seguinte, de volta ao comando do time masculino, Brito Cunha quase levou o Brasil a mais uma medalha de bronze olímpica, a terceira seguida, mas a seleção desfalcada de Amaury perdeu a disputa pelo terceiro lugar para a União Soviética.

Anos depois, Brito Cunha seria o responsável pelo fim da carreira de Amaury como treinador. Em 1983, o ex-craque era o técnico do bicampeão brasileiro e paulista Monte Líbano e favorito a treinar a seleção nos Jogos de Los Angeles. Mas o veterano, sempre bem relacionado com as estruturas de poder, acabou sendo o escolhido. Amaury sentiu que seu tapete havia sido puxado e desistiu de ser técnico.

Brito Cunha depois deu um passo a mais e se tornou dirigente. Foi eleito presidente da CBB em 1989 e reeleito para um novo mandato até 1997. Durante sua gestão, o basquete feminino do país viveu seu auge, com o título mundial de 1994 e a prata olímpica de 1996, em Atlanta, além do ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1991. Foi em sua gestão que a CBB firmou grande contrato de patrocínio com a Caixa e comprou sua sede no centro do Rio, maior patrimônio da confederação.

No final de seu segundo mandato, foi criticado por não dar atenção às categorias de base "Ele deixou de organizar campeonatos nacionais (de seleções) das categorias menores, alegando falta de verba", reclamou na época o presidente da Federação Paulista. Foi substituído por um grupo liderado por Gerasime "Grego" Bozikis e Carlos Nunes, que foram presidentes da CBB pelas duas décadas seguintes.