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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homens como Pedro Guimarães amam, na verdade, apenas outros homens

11.nov.2021 - O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e o presidente Jair Bolsonaro, durante live semanal - Reprodução/Facebook
11.nov.2021 - O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e o presidente Jair Bolsonaro, durante live semanal Imagem: Reprodução/Facebook
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

02/07/2022 13h38

Ao que consta, Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa e amigo íntimo de Jair Bolsonaro, não acredita ter feito nada de errado. Não vem ao caso para ele e sua claque que as acusações de assédio sexual (e moral) se acumulem a cada hora. Ele sequer chega a negá-las porque, afinal, é brincalhão, um cara que zoa geral e nós é que estamos confundindo zoação com crime.

Pois é. No mundo de pessoas decentes, o que Guimarães e sua tropa chamam de zoação a gente chama mesmo de crime.

A questão, a questão com q maiúsculo, é que o mundo é organizado por pessoas como Guimarães e seu amigo Jair Bolsonaro.

Qual o problema de dizer a uma funcionária que ela é gostosa?, perguntam.

Eles consideram que todas nós ficamos honradas com a celebração de nossas belezas por homens como eles. Não, não ficamos.

Nem por homens que possamos chamar de bonitos, e nem por homens de aparência repugnante como é o caso de ambos.

Gostamos de ser elogiadas por pessoas que estejam dentro do nosso circuito de afetos e desejos.

Nesse mundo de homens brancos cheios de poder eles se convencem de que é normal tirar foto abraçado com uma mulher que trabalhe para eles. É normal pedir que ela o abrace "bem forte" de volta. É normal perguntar: "tá com medo?" porque medo é justamente o que eles esperam que sintamos. Não é sobre sexo ou erotismo; é sobre poder e sujeição.

É a dominação pela força física. O desejo de sujeição que sabe que deixar a vítima sob ameaça de abuso, de assédio, de estupro e, claro, de demissão vai calá-la.

A família que esses homens bradam em voz alta que defendem é justamente essa. A do papai assediador e da mamãe recatada e do lar.

Foi em nome de uma família assim que esses mesmos homens justificaram o golpe em Dilma Rousseff. "Por minha família" diziam, um a um, naquele 17 de Abril de 2016 em Brasília.

Estavam sendo vistos por milhões de pessoas, eles sabiam, e era preciso deixar bem claro que nenhum esquerdista ia acabar com a família tradicional brasileira. Viva a família.

É dessa família que eles estavam falando.

Da família dos Pedro Guimarães, que, mesmo depois de ser desmascarado pelo que ele é, ainda coloca a mulher ao lado dele para dizer que é um cara do bem, casado, pai e fiel.

Homens como Pedro Guimarães são fieis sim, mas apenas aos seus métodos de opressão.

Seja jogando pimenta no prato de um subordinado e obrigando ele ou ela a comer - há relatos de que ele fazia isso - seja acreditando ser do jogo xingar contratados em reuniões, seja se sentindo poderoso a ponto de encoxar publicamente suas funcionárias.

Eles associam isso a masculinidade, a potência, a coragem.

Homens como Pedro Guimarães amam, na verdade, outros homens. Tudo o que é feminino, tudo o que é associado à mulher, eles detestam, desprezam, diminuem, vulgarizam, reprimem, dilaceram. É a misoginia em estado puro e pulsante.

Mulheres, eles abominam. É a outros homens que respeitam, veneram e imitam.

É a um outro homem que quer impressionar quando age abusivamente sobre um corpo feminino e depois relata a respeito de seu gozo.

É com outros homens que ele deseja passar seu tempo, em churrascos, no futebol, no bar.

É um circuito de poder absolutamente homo-erotizado e masturbatório, e mulheres são usadas - e abusadas - apenas como meio para que suas virilidades possam ser celebradas por outros machos a sua volta.

Esse é o chefe da família que os conservadores acham que deve ser protegida da vida bandida de quem não pensa e não vive como eles.

Essa é a luta identitária que tem vencido a guerra: a do homem cisgenero branco e heterossexual.

Trata-se de um núcleo reprodutor de ódios e opressões que tem tremores de ver outras formas de vida existindo plenamente.

Pedro Guimarães reúne em si uma enciclopédia de podridão.

Um homem tão pequeno que representa em um único corpo tanta depravação. É um feito. Um feito que, para nossa sorte, está sendo desfeito.

Cairão os Pedro Guimarães, um a um.

E quando o último estiver devidamente revelado e destruído a verdadeira noção do que é uma família e do que é o amor poderá triunfar.