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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao debochar de Richarlyson, apresentador gay mostra que parou no tempo

Ender Love, apresentador da Band Paraná, chamou Richarlyson de "bicha" durante programa Vida Alheia - Reprodução
Ender Love, apresentador da Band Paraná, chamou Richarlyson de 'bicha' durante programa Vida Alheia Imagem: Reprodução
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

24/06/2022 17h36

Ser gay não elimina ninguém de ser homofóbico. Assim como ser mulher não garante que a pessoa seja anti-machista e anti-misógina. A LGBTfobia, o machismo, a misoginia e o racismo são estruturas de poder que nos são dadas na mamadeira.

Todas e todos nós estamos infectadas e infectados desses preconceitos e o trabalho é fazer com que eles deixem nossa corrente sanguínea.

Ao debochar de Richarlyson sugerindo que bissexualidade não existe e que ele é bicha mesmo, o apresentador da Band, Ender Love, revela que talvez tenha parado de entender o mundo quando ele próprio se descobriu gay.

De fato, a bissexualidade era negada pela geração dele - que é também a minha. Mas aí a gente olha em volta, conhece pessoas bissexuais, e se transforma diante da realidade. Achar que bissexuais não existem é se recusar a perceber toda a riqueza e complexidade da sexualidade humana.

Desconfiar de quem se declara bissexual é dar as mãos às correntes conservadoras que são as mesmas que gostariam que o apresentador não existisse.

Ser ex-jogador e comentarista de futebol, um dos meios mais LGBTfóbicos e misóginos que existem, e se declarar bissexual exige coragem, valentia, ousadia. "Ah, mas ele não parece bissexual, parece gay" é um pensamento que contém camadas e camadas de preconceitos.

O que é parecer? Quem somos nós para falar sobre desejos de outros se mal lidamos com os nossos? Existem pessoas de todos os tipos, de todas as sexualidades, de todas as formas.

Empolgado, Ender Love seguiu cometendo homofobia depois que soube que Richarlyson defendeu o São Paulo: ""Ele era do São Paulo? O pessoal fala assim 'vai, São Paulo'. Diz que a única torcida do Brasil que não briga é a torcida do São Paulo porque em vez de brigar eles ficam vendendo Mary Kay na arquibancada, Jequiti, Avon", disse piorando um pouco mais o que já havia dito.

Associar uma única torcida à homossexualidade é reforçar todos os preconceitos. Ressaltar estereótipos é justamente o que faz com que sejamos assassinados, abusados, ofendidos. Não é piada tirar uma onda com a torcida de um time, não é piada pisar fundo em conceitos que reforçam práticas de gênero, não é piada associar futilidade ao feminino.

Ender Love poderia ter usado o espaço que tem para celebrar a coragem dos que ousam se assumir nesse país repleto de crimes de ódio contra a comunidade que ele integra.

Hoje é dia de colocar Richarlyson em pedestal. O que ele fez é histórico. Que pena que o apresentador da Band deixou passar a chance de agir exatamente assim.

É por causa dos corajosos como Richarlyson que vieram antes da gente, aliás, que Ender Love pode, hoje, dizer em rede nacional de TV que é gay.