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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Treinador da NBA inaugura a "coletiva perfeita"

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

25/05/2022 12h19

Steve Kerr, treinador da seleção estadunidense de basquete e do Golden State Warriors, se apresentou nessa terça-feira 24 de maio para mais uma coletiva pré-jogo. Deveria ser apenas um desses "seguimos com o protocolo", mas Kerr não quis que fosse assim.

Emocionado, ele começou dizendo: hoje não vamos falar sobre o jogo de logo mais. Hoje vamos falar sobre o que está acontecendo nesse país (referindo-se a mais um atentado em escola, dessa vez no Texas e matando 18 pessoas). Misturando tristeza e revolta, entre socos na mesa, ele convocou - nominalmente - políticos a agirem para que esse estado de coisas possa ser interrompido de uma vez por todas.

"Não podemos nos anestesiar diante do que está acontecendo", ele disse. "Vamos fazer o quê? Ver o jogo de hoje e torcer para nossos times como se nada fosse? Nos deixar sequestrar por 50 senadores em Washington que ignoram o que nós queremos e que querem apenas se manter no poder? É patético! Não aguento mais!", concluiu muito emocionado.

Mais um péssimo dia para a turma do "política e futebol não se misturam".

Nós, aqui do sul desse planeta, deveríamos ter feito a mesma coisa nessa terça feira. Mas não exatamente evocando a chacina do Texas, e sim mais uma chacina na Vila Cruzeiro, quando 25 pessoas foram executadas durante operação policial.

As mortes no Texas nos insultam mais do que as mortes no Rio? Se sim, por quê?

São duas enormes tragédias, mas uma é nossa e diz respeito à nossa realidade.

Não podemos agir sobre os massacres nos Estados Unidos, mas podemos nos movimentar contra os nossos massacres, que são mais letais e mais regulares do que as chacinas norte-americanas.

No período de um ano, essa foi a 39º chacina só no Rio de Janeiro e na gestão Claudio Castro. São 181 mortos até aqui, e apenas nesse espaço de tempo.

Eis aí uma boa forma de protesto caso, por exemplo, o Corinthians ou qualquer outro clube sinta-se motivado a protestar.

Da última vez, o Corinthians, querendo se manifestar contra as fake news, protestou silenciando suas redes sociais, seus atletas e comissão técnica por um fim de semana. Uma ideia tão estúpida quanto covarde.

Então fica a dica para um eventual próximo protesto.

Recusem-se a falar de futebol, mas não se calem porque a voz de vocês vai alto e vai longe.

Respondam como fez Steve Kerr. Falem das chacinas. Falem da volta da fome. Falem do empobrecimento. Do preço do gás. Do aumento insano de pessoas em situação de rua. Do trabalho do padre Julio. Pautas não faltam.

Obrigada, Steve Kerr. O senhor foi enorme ontem.