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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Robinho é só mais um covarde que brilhou em nossos campos

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

19/01/2022 12h13

Robinho foi condenado por violência sexual nas três instâncias da justiça italiana. Se estivesse na Europa, seria preso hoje. Mas ele está no Brasil e dificilmente vai ser detido aqui pelo crime que cometeu por lá.

Mais uma vez estamos diante de um boleiro envolvido em crimes contra a mulher. Robinho, Cuca, Rogerio Caboclo, Bruno... os nomes são muitos, e certamente existe um universo muito maior de casos que não conhecemos porque as vítimas não têm coragem de vir a público e acusar quem deve ser acusado.

O futebol apenas reflete o que somos, e os dados de crimes cometidos contra corpos femininos são os de uma guerra. Uma guerra travada diariamente, a cada dois minutos para ser mais precisa.

Mas quando falo em guerra não quero apenas me referir a números. Quero também falar de tática.

O estupro é, historicamente, uma arma de guerra. É ato cometido por exércitos no mundo inteiro. É o que fazem soldados contra mulheres ao invadir regiões. Foi fartamente praticado por militares durante a nossa ditadura militar-empresarial.

Estupro não é sobre sexo; é sobre poder. E é uma cultura. O corpo de uma mulher é tratado como o inimigo. Seja no trabalho, no transporte público, em casa, nas ruas. Homens crescem com a certeza que que mulheres existem para se sujeitarem a essas vontades e caprichos sexuais, com ou sem consentimento. Tudo o que fazemos fora da ordem sexual é contingente e aturado já que nossa função nesse mundo é a de abrir as pernas.

Acontece que o feminismo tem revelado o que está por trás da cultura do estupro, do abuso, do assédio e quem está atento está se transformando.

Seria preciso que um desses machos acusados e condenados por violências desse tipo tivesse a coragem de dar um passo à frente e dizer: "Errei. Cometi um ato inominável. Hoje entendo a gravidade do que fiz e sei que todas as mulheres, incluindo aí as mulheres da minha vida, passam por esse tipo de violência diariamente. Eu me envergonho e me culpo todos os dias. Vou viver para tentar reparar o que fiz".

Para além disso, seria bom se o cara se envolvesse com centros que atendem mulheres vítimas de violência sexual. Essa deveria, aliás, ser a pena para casos de violência sexual contra a mulher (excetuando-se o feminicídio, claro). Não acredito que prisões possam reformar pessoas, e acredito que pessoas possam ser reformadas.

O que talvez surpreendesse vocês é o fato de que a maioria de nós estaria pronta a escutar com benevolência aquele que tivesse a bravura de se retratar publicamente. Empresto aqui o que dizem os movimentos negros sobre a luta antirracista: não queremos vingança, queremos justiça. Porque se quiséssemos vingança não sobrariam muitos de vocês por aí.

Mas não se trata disso. O que a gente quer é viver num mundo onde nossos corpos sejam livres para ir e vir, para vestir o que bem quiséssemos, para rebolar sem ter nenhum outro objetivo que não seja o de balançar a raba por diversão. Não queremos desforra, queremos mesmo é um mundo onde não é não.