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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Quanto mais Mauricio Souza fala, mais covarde ele soa

Maurício Souza, atleta da seleção brasileira de vôlei - Reprodução/Instagram
Maurício Souza, atleta da seleção brasileira de vôlei Imagem: Reprodução/Instagram
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

23/11/2021 15h54

Um dos problemas do preconceito muito internalizado na gente é que ele não se separa mais nem da burrice, nem da covardia. Vejamos o caso do ex-jogador de vôlei Mauricio Souza que recentemente foi demitido do Minas Tênis por comentários homofóbicos cometidos depois de ver dois personagens de cartoon do sexo masculino se beijando.

É importante saber que a LGBTfobia, na maior parte das vezes, para não escrever em todas, contém doses elevadas de misoginia. E aqui talvez fosse bacana a gente explicar o que quer dizer misoginia: desprezo e ódio por mulheres.

Misoginia não tem nada a ver com sexualidade. Um homem gay pode desprezar mulheres da mesma forma que um homem heterossexual pode perfeitamente odiar e desprezar mulheres. Longe de ser raro, é bastante comum.

Um LGBTfóbico, como é o caso do ex-jogador de vôlei Mauricio Souza, é também, usualmente, um misógino na medida em que tudo o que ele entende como feminino, ele associa a conceitos como frágil, desprezível, menor, intolerável.

Em recente entrevista, Mauricio disse sobre a demissão do Minas Tênis: "Nunca imaginei que isso poderia acontecer, sempre defendi as cores que eu acreditava. O que aconteceu foi que eu vi aquele quadrinho, imaginei que meus filhos pudessem assistir àquilo e não gostei. Só dei minha opinião sobre aquilo. Acho que passou do limite isso de querer impor na sociedade uma coisa dessas."

Mauricio não quer que o filho dele veja dois homens se beijando porque imagina que isso possa dar à criança ideias que na visão da Bíblia dele são erradas. Mauricio - e aqui entra a burrice - acha que sexualidade se ensina. Se fosse assim, evidentemente, seríamos todos heterossexuais porque durante milhares de anos foi tudo o que vimos nas ruas, nas Instituições, na casas, nas TVs, na publicidade.

O que nos leva a um outro desdobramento: quando Mauricio vê dois homens se beijando e se sente incomodado ele está falando a respeito do que o beijo faz ele sentir. E a pergunta óbvia passa a ser: o que ele sente e do que ele tem medo?

Não pode ser do filho se agarrar a ideias "erradas" porque se ele acredita que sexualidade se ensina, bastaria ensinar o menino a ser hétero. Que medo é esse, então? O que tem num beijo entre dois homens que afeta Mauricio de um modo que o beijo entre um homem e uma mulher não afeta? É tentador? Para quem? Estamos falando, portanto, do desejo de quem?

A existência de outras formas de vida nos afeta diretamente. Outros corpos, outras maneiras de amar, de se relacionar. Pessoas que não acessam a totalidade de suas sexualidades e desejos se sentem incomodadas em serem afetadas de outros jeitos. É um raciocínio bastante direto, trata-se de uma associação de ideias que não tem nada de sofisticada.

Assim, chegamos à conclusão de que a reação de Mauricio diante do beijo entre dois homens (que são cartoons, mas entrar nessa ordem de significantes me faria escrever um tratado) diz muito mais sobre os próprios desejos de quem esperneia do que sobre o beijo em si.

Se todo homofóbico entendesse pelo menos essa parte da sua homofobia eles talvez engolissem o mimimi. E temos aí mais uma dimensão da burrice dessa gente.

Mauricio chama sua homofobia de "opinião", acreditando ter o direito de se manifestar democraticamente diminuindo a vida de outras pessoas, legitimando, com sua "opinião" violências e exclusões. Eu não sei que Deus é esse que prefere ver gente morta do que gente se beijando, mas sigamos porque aqui entra a covardia. Mauricio acredita estar amparado pelo sagrado direito de agredir outras pessoas com o que chama de opinião.

O ex-atleta defende suas ideias dizendo "afinal, nós somos a maioria". Nós quem? Os sexualmente inseguros? Os paranoicos? Os que ficam tentados a fazer sabe deus o que ao ver dois homens se beijando? Os homofóbicos? Os misóginos? Os de masculinidade frágil? Os covardes? Os agressores? Os violentos? Os que leram a parte das escrituras que faz menção a um homem não poder se deitar com outro mas pularam a parte da proibição de aparar a barba? A barba de Mauricio me parece aparadíssima, mas vai ver ele ainda não chegou nessa parte da Bíblia. Em todo o caso, seria bacana Mauricio deixar claro em nome de qual maioria está falando.

Nessa mesma entrevista, Mauricio se compara - vejam que revelador - ao goleiro Bruno, acreditando estar sendo vítima de uma reação exagerada da sociedade. Mauricio acha razoável se comparar a alguém condenado por homocídio triplamente qualificado.

Mas não apenas. O cara faz isso se colocando no papel da vítima e dizendo que o caso de Bruno foi uma tragédia que "aconteceu". Gente, aconteceu. Foi mal aí, me excedi, mas pra que me fazer de vilão, precisa desse exagero? Vocês estão prejudicando as nossas carreiras com tanta falação, por favor parem, queremos apenas viver em paz - é o que sugere o grande Maurício nessa mesmíssima entrevista.

Eliza Samudio também queria viver em paz. Os LGBTQs assassinados todos os dias em nossas terras, fazendo do Brasil o país que mais mata LGBTQs no mundo, também queriam apenas viver em paz. As mulheres vítimas de feminicídio (são três por dia) também queriam viver em paz.

O agressor que corre para se colocar no papel de vítima é um clássico da frouxidão. E aqui a gente mistura covardia com burrice e com um cruzamento de preconceitos que vão da misoginia à LGBTfobia passando pelo machismo.

Mauricio agora anda com Bolsonaro por aí. O macho acovardado busca sempre a companhia de um outro macho acovardado, para quem eles se exibem, a quem querem agradar, a quem procuram parecer espertos, valentes, soberanos.

A masculinidade é um eterno jogo de sedução entre homens, que são aqueles a quem eles acham que devem respeito e honrarias. Nós somos circunstâncias, órgãos sexuais cercados de outros músculos, ossos, vísceras, pele e cérebro que, de verdade, é o que atrapalha a vida desses machos que, se pudessem, se relacionariam apenas com os órgão genitais femininos, descartando tudo mais que vem acoplado a eles, e de resto passariam os dias lambendo-se uns aos outros.

Pois é, mas nós existimos em nossas totalidades para além de nossos órgãos sexuais e não vamos mais nos calar até que não haja no mundo nem mais um corpo LGBTQ e feminino abusado, assediado, assassinado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL