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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: A covardia que se fantasia de "coragem de dizer o que penso"

Pepê comemora gol do Cuiabá em partida contra o Atlético-GO pelo Brasileirão, em casa - GUSTAVO F GOMES/UAI FOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Pepê comemora gol do Cuiabá em partida contra o Atlético-GO pelo Brasileirão, em casa Imagem: GUSTAVO F GOMES/UAI FOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

22/10/2021 22h07

Minha mulher me deu uma camiseta na qual a imagem de Zeca Pagodinho, segurando uma cerveja, diz: "eu só queria um segundo de paz nesse caralho desse país". Um segundo de paz talvez seja o que todos nós desejamos. Mas não teremos, não por enquanto.

Chegou ao meu conhecimento uma declaração homofóbica do jogador Pepê, do Cuiabá. Depois de escrever nas redes sociais: "[A homossexualidade] leva à condenação como qualquer outro pecado se não houver arrependimento", o atleta foi questionado sobre a colocação e respondeu: "Concordo que Deus é amor, mas a generalização disso nessa geração tem levado muitos ao caminho errado. "Amar é falar a verdade! Não julguei, nem condenei, apenas expus conhecimento que o senhor me deu pela Sua palavra, que é a Bíblia, meu manual de fé. A homossexualidade é pecado da mesma forma que adulterar ou até mesmo odiar o seu irmão também é. Pecado é pecado, e ele jamais trará vida".

Eu sempre fico intrigada como a leitura da Bíblia pode ser feita conforme a necessidade do julgamento daquele momento. São pessoas que se esquecem, ou não aprenderam, que as escrituras tratam de mitos, de histórias comuns a muitas civilizações, e, por não saberem dessa verdade, leem cada frase como se ela fosse uma notícia que deu na Folha de S.Paulo. Assim, tendem a pinçar o que bem entendem e, a partir de seus preconceitos, sair rotulado de pecado tudo o que os incomoda.

Ninguém fala a respeito da proibição de aparar a barba, de trabalhar aos sábados (segundo a Bíblia não pode, galera), da proibição de comer frutos do mar. A barba do Pepê na imagem da TV me pareceu bastante aparada, mas isso ele escolhe não rotular de pecado. O lance, no caso do corajoso Pepê, é julgar o amor entre pessoas do mesmo sexo, e nada além disso.

Um homem de bem, de família, certamente.

Mas não consta que Pepê tenha se manifestado quando o atual mandatário vomitou racismo em palestra realizada na Hebraica do Rio, nem consta revolta do atleta quando Bolsonaro fez uma defesa ao estupro se dirigindo à deputada Maria do Rosário. Já a homossexualidade, essa sim, deixa Pepê furioso, indignado, incomodadíssimo.

"[O amor entre pessoas do mesmo sexo] jamais trará vida", diz ele em sua verborragia final. Assim como não traz vida o sexo com mulheres na menopausa, certo? O que, imagino, Pepê considere um pecado, portanto. O que ele vai fazer quando sua mulher estiver na menopausa? Arrumar uma novinha? Ah, perfeitamente. Então isso é do jogo, certo? Aqui a gente pode parar um minuto para rezar um Pai Nosso e em seguida fazer um viva a hipocrisia.

Nunca alcançaremos qualquer lógica se a intenção for interpretar cada frase das escrituras como se elas estivessem saindo da boca de William Bonner no Jornal Nacional. O amor, meu caro Pepê, não pode ser um erro. A generalização do amor, que você critica, é o que nos salvaria dessa tragédia em que nos metemos. Se vai seguir com sua verdade, eu sugeriria ficar no "amai-vos uns aos outros" ou no "ame o próximo como a si mesmo" - o que, lá no fundo, quer dizer: ame o próximo porque é tu mesmo.

Se uma manifestação de amor não faz mal ao outro, não faz mal ao planeta, não faz mal a nenhum ser, então não pode ser pecado. É só amor, essa força que, como escreveu Dante, move o Sol e também as demais estrelas.

Vivemos uma época em que a masculinidade é medida pelo que chamam de "coragem de dizer o que penso", sendo que o que se pensa diminui, exclui, apequena, ofende. Um tipo de chilique verbal que se fantasia de sinceridade e de autenticidade mas que, se despido, estará muito mais perto da covardia do que da ousadia. Outro dia tinha aí nas redes sociais um liberal que atende pelo nome de Monark lutando pelo sagrado direito de ofender.

Sim, todos nós temos nossas verdades, mas a questão é mais paulofreiriana do que podemos supor.

Se sua "verdade" é do tipo que exclui e que não inclui, se sua "verdade" é do tipo que estreita o campo de afetos, em vez de alargá-lo, então essa sua "verdade" deveria ser guardada só com você. Viva em nome dela, sem problemas. No caso de Pepê, seria não fazer amor com outro homem. Tá tudo certo, Pepê. Não vamos obrigá-lo a nada, não estamos tentando fazer do nosso desejo o seu desejo. Estamos aqui apenas lutando pelo direito de amar uns aos outros.

Vomitar preconceitos e chamá-los covardemente de coragem é atender aos apelos de um Deus muito miserável.

Coragem, coragem com C maiúsculo, é dizer o que diz o padre Julio Lancelloti, o que disseram Martin Luther King, Desmond Tutu, Gandhi e também um cara a quem chamamos de Jesus, que alargou seu campo de amor para incluir todos, de mendingos a prostitutas.

Agora, se está a fim de bancar tua verdade, meu caro Pepê, então para de aparar essa barba e de jogar aos sábados. Escolher as "verdades" bíblicas convenientes me parece muita frouxidão moral da sua parte. Mas, no caso de seguir pinçando a homossexualidade como aquele "pecado" que realmente te incomoda, eu diria que, mais do que de um pastor, você precisa de um psicanalista.

Termino com uma frase do cineasta Vittorio De Sica: A indignação moral é, na maioria dos casos, composta por 2% de moral, 48% de indignação e 50% de inveja.

E agora eu vou deitar porque já é tarde e minha mulher me espera na cama.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL